Dez anos depois, a fazenda continuava de pé como uma promessa cumprida. Não era exatamente igual — nenhuma coisa viva permanece igual depois de tanto tempo —, mas guardava o mesmo cheiro de terra molhada depois da chuva, o mesmo som do vento passando pelo milharal, a mesma árvore antiga onde um dia um chapéu de palha balançou como despedida e bênção.
Clara corria pelo terreiro com as botas sujas de barro e o cabelo preso de qualquer jeito, já alta demais para o colo que um dia fora, mas ainda pequena o suficiente para caber inteira na memória afetiva daquele lugar. Tinha os olhos atentos de Isabella e o sorriso aberto de Rafael. Dez anos. E, ainda assim, carregava no jeito algo que parecia mais antigo que ela mesma — como se tivesse herdado o tempo junto com o sangue.
— Clara! — Isabella chamou da varanda — Se cair de novo, não vem chorar!
— Não vou cair! — a menina respondeu, já caindo de propósito na grama, rindo.
Isabella observava com um sorriso tranquilo. Os cabelos agora traziam