A televisão estava ligada mais por companhia do que por atenção. Isabella dobrava roupas no sofá da sala, Clara brincava no tapete com blocos coloridos, e o fim de tarde escorria preguiçoso pelas janelas da casa nova. O som vinha baixo, quase um murmúrio — um programa musical qualquer, desses que passam sem aviso e sem promessa.
Rafael ainda não tinha voltado. Estava em viagem há três dias, cumprindo uma agenda que começava a ganhar ritmo próprio. Não era mais novidade, mas ainda exigia adaptação. Isabella aprendera a lidar com a ausência como quem aprende a respirar em outra altitude: aos poucos, com cuidado, sem pressa de se acostumar. Ela terminava de dobrar uma camiseta quando ouviu a vinheta mudar.
— E agora, direto do palco principal… — anunciou o apresentador.
A música começou antes mesmo que Isabella levantasse os olhos, não era a canção que chamou atenção primeiro. Foi o timbre. Clara, que empilhava dois blocos com concentração absoluta, parou. O corpo ficou imóvel por um seg