O primeiro dia amanheceu sem cerimônia, como se a casa tivesse decidido não fazer alarde. A luz entrou pelas janelas amplas e encontrou Isabella acordada antes do despertador, deitada de lado, observando Clara dormir no colchão ainda cercado por caixas. O quarto era novo, mas o gesto era antigo — vigiar o sono da filha como quem confirma, todas as manhãs, que o mundo ainda está inteiro.
Levantou-se devagar. O chão frio sob os pés a trouxe de volta ao presente. Caminhou até a cozinha, abriu a janela e deixou o ar da cidade entrar. Não havia cheiro de curral, nem som de galos. Em compensação, havia o ruído distante de um ônibus, uma conversa atravessada de vizinhos acordando, a vida urbana se anunciando sem pedir licença. Preparou café com a mesma calma de sempre. Duas canecas. Um copo pequeno para Clara, mesmo sabendo que ela ainda dormiria um pouco mais. O hábito antecedendo a necessidade.
Rafael apareceu pouco depois, ainda com o rosto amassado de sono, camiseta simples e os pés desc