Ilda a Babá dos Sonhos!
Ilda a Babá dos Sonhos!
Por: Franesio@toko1234
Prólogo

O cemitério de Luanda estava silencioso demais para um dia tão quente. Helder Tex mantinha-se imóvel diante da sepultura recém-fechada. O fato preto colava-lhe ao corpo, mas o peso maior vinha do peito. Nos braços, o filho dormia, alheio ao fim do mundo que acabara de acontecer.

— Ela não merecia isto… — murmurou um dos amigos.

Helder não respondeu. Não chorava. O luto tinha-lhe roubado até as lágrimas.

— Helder, nós voltamos hoje para os Estados Unidos — disse um homem de meia‑idade, pousando-lhe a mão no ombro. — Se precisares de alguma coisa…

— Obrigado — respondeu ele, seco. — Vão em paz.

Os amigos despediram-se um a um. Abraços rápidos. Olhares de pena. Palavras vazias. Quando o último carro se afastou, Helder ficou sozinho. Só ele, o filho e a terra vermelha que agora guardava a mulher que amara.

— Somos só nós agora… — sussurrou ao bebé.

No mesmo dia, decidiu partir para Malanje.

A estrada era longa. O sol descia devagar. O carro avançava em silêncio, quebrado apenas pelo choro curto do bebé no banco de trás. Helder conduzia com os olhos fixos, a mente distante, perdida entre a dor e a obrigação de seguir em frente.

Foi então que a viu.

À beira da estrada, numa pequena cidade, uma mulher negra, de pele macia, cabelos longos e soltos, caminhava com uma calma que contrastava com o caos dentro dele. O olhar dela cruzou o dele por um segundo — apenas um segundo — mas foi o suficiente.

— Merda… — murmurou.

O volante virou bruscamente. O carro saiu da estrada, raspou na terra solta e quase embateu contra uma parede antiga. O impacto foi seco. O mundo girou. Helder perdeu os sentidos.

Quando voltou a si, vozes ecoavam à sua volta.

— Ele está vivo!

— Tragam água!

— Tire o bebé primeiro!

Mãos firmes abriram a porta. Outras pegaram no filho com cuidado. Alguém recolheu documentos, malas, o computador. Mulheres da comunidade aproximavam-se, falando baixo, protegendo.

— Calma, senhor… está em Cacuso — disse uma voz feminina.

Helder tentou levantar-se, mas o corpo falhou.

— O… o meu filho… — balbuciou.

— Está bem. Está seguro — respondeu a mesma voz.

Ele virou o rosto. Reconheceu-a.

Era ela. A mulher da estrada.

O carro ainda estava parado quando Helder recuperou os sentidos. A testa ardia. O sangue escorria lentamente pelo rosto, quente, misturando‑se com o pó vermelho da estrada. Estava sentado numa das cadeiras simples de uma casa de barro, o corpo pesado, o coração descompassado. Uma mulher mais velha limpava-lhe a testa com um pano húmido, murmurando palavras de conforto numa voz calma. Outra ajeitava o bebé, que chorava baixo, assustado, mas ileso.

O ar estava frio, estranho para aquela terra quente. O céu carregado ameaçava chuva. Do lado de fora, crianças descalças corriam pela aldeia próxima à estrada, riam, apontavam curiosas para o carro amassado. A vida seguia, mesmo depois do quase desastre.

— Bebe isto, senhor… vai lhe dar força.

Uma mão jovem estendeu-lhe uma chávena de café forte, escuro, com o cheiro intenso da terra angolana. Helder segurou a chávena com cuidado, ainda atordoado. Quando levantou o olhar, viu-a.

Ela estava um pouco afastada, perto de uma casa baixa. Conversava com um homem jovem — o noivo — que gesticulava animado, sorria, falava de coisas simples. Ela escutava com atenção, mas havia nela uma serenidade diferente. Pele negra macia, cabelos longos caindo pelas costas, postura firme. O vento brincava com o vestido simples que usava.

Helder desviou o olhar para a janela… e voltou a olhar para ela.

Foi nesse instante que ela também olhou.

Os olhares cruzaram-se por alguns segundos — curtos demais para serem esquecidos, longos demais para serem inocentes. Nada foi dito. Nenhum sorriso. Nenhuma palavra. Apenas um silêncio pesado, estranho, carregado de algo que Helder ainda não compreendia, mas que o fez sentir o peito apertar.

Ao redor, duas jovens riam, vestidas com roupas curtas, tentando chamar atenção, passando perto dele de propósito. Outras pessoas falavam, despediam-se, organizavam as coisas do carro. Mas Helder não via mais ninguém.

Via apenas ela.

Pouco depois, agradeceu a todos. Apertos de mão. Gestos simples. Gratidão sincera. Pegou o bebé no colo de uma senhora da comunidade, ajeitou-o com cuidado e seguiu em direção ao carro. Antes de entrar, voltou o rosto uma última vez.

Ela ainda estava ali.

E foi nesse momento que Helder Tex soube — sem entender como — que não estava apenas a deixar um acidente para trás. Estava a entrar numa história da qual já não conseguiria sair.

Assim que Helder ligou o carro, o choro do bebé rasgou o silêncio da aldeia.

Não era um choro qualquer. Era alto, desesperado, contínuo. O som ecoava dentro do veículo e batia no peito dele como culpa. Tentou ajustar o espelho, mudar de marcha, balançar levemente o corpo, mas nada funcionava.

— Calma… calma, meu filho… — murmurou, com a voz cansada e trémula.

O bebé chorava ainda mais.

Helder parou o carro outra vez, passou a mão pelo rosto suado e fechou os olhos por um segundo. Não conseguia seguir viagem assim.

Foi então que uma senhora mais velha, de lenço amarrado à cabeça e olhar atento, aproximou‑se. Chamava‑se Mena. Observava tudo desde o início, com a experiência de quem já tinha criado muitos filhos… e enterrado algumas dores.

— O bebé sente o ambiente — disse ela, com calma. — Ele precisa de colo… e de voz de mulher.

Helder olhou para ela, sem saber o que responder.

Mena virou-se para outra mulher, mais nova, de rosto firme e postura simples. Maria.

— Maria… manda a Ilda acompanhar o senhor só até mais à frente. Para acalmar a criança.

O pedido caiu pesado no ar.

Maria hesitou. Olhou para a filha. Ilda estava ali, parada, mãos cruzadas à frente do corpo, o vestido simples colado à pele pelo calor, os olhos grandes e atentos.

Antes que alguém dissesse mais alguma coisa, José, o noivo de Ilda, deu um passo à frente. O rosto fechado denunciava o ciúme, mas o tom tentou manter-se digno.

— Não é longe, pois não? — perguntou, seco.

— Só até o bebé se acalmar — respondeu Mena. — É coisa de mãe… e de humanidade.

José apertou os lábios. Não gostava da ideia. Não gostava do carro. Nem do homem. Nem do jeito como alguns olhares já se viravam para Ilda.

Mas também não queria parecer pequeno.

— Vai — disse, por fim. — Mas volta logo.

Ilda levantou os olhos para ele e assentiu, em silêncio.

Enquanto ela se aproximava do carro, algumas vozes começaram a murmurar, baixas… mas audíveis.

— Ilda sempre foi aproveitadora… sempre de olho em homem bonito.

— Maria tem sorte… todas as filhas dela são levadas por homens ricos — disse outra senhora, rindo e batendo palmas, como se aquilo fosse uma vitória.

Ilda fingiu não ouvir. Abriu a porta com cuidado e sentou-se.

O carro ainda não tinha arrancado quando o bebé, sentindo o novo colo, começou a acalmar. Ilda pegou-o com delicadeza, aproximou-o do peito e começou a cantar baixo… uma melodia antiga, quase um sussurro.

Helder virou o rosto.

O olhar dele ficou preso ao dela.

Não foi desejo imediato. Foi impacto. Como se o mundo tivesse diminuído de tamanho dentro daquele carro.

Cinco minutos.

Cinco minutos em que o bebé adormeceu.

Cinco minutos em que Helder esqueceu o funeral. Esqueceu o acidente. Esqueceu o luto.

— Ele gosta da sua voz — disse ele, finalmente, quebrando o silêncio.

Ilda sorriu de leve, sem mostrar os dentes.

— Crianças sentem quando alguém está triste — respondeu. — Ele só precisava de calma.

Helder engoliu em seco.

— E você… como se chama?

— Ilda — disse, quase num fio de voz. — Ilda Ginga.

Ele repetiu o nome, devagar, como quem guarda algo precioso.

— Ilda… é um nome bonito. Combina com você.

Ela desviou o olhar para a janela, envergonhada.

— Obrigada…

O carro arrancou.

Durante a viagem, Helder tentava manter os olhos na estrada, mas era impossível não sentir a presença dela ao lado. O cheiro leve de sabão, o cuidado com o bebé, a serenidade que contrastava com o caos que ele trazia por dentro.

— Você mora aqui perto? — perguntou ele.

— Sim… sempre vivi aqui — respondeu. — Trabalho com crianças… ajudo minha mãe… cuido da casa.

— E sonha com o quê, Ilda?

Ela hesitou.

— Nunca pensei muito nisso… — disse, sincera. — Só em fazer o que é certo.

Helder sorriu, triste.

— Às vezes… isso é mais raro do que sonhar alto.

Ilda respondeu apenas com um “sim”, quase inaudível.

Ela estava nervosa. Perdida entre o medo e a curiosidade. A beleza dele confundia. O jeito calmo, o olhar pesado de quem já viveu demais.

Quando o carro se aproximou do ponto combinado, ela começou a se mexer, preparando-se para descer.

— Obrigada por ajudar — disse Helder. — O meu filho… e eu.

Ela levantou os olhos pela primeira vez e sustentou o olhar dele.

Por alguns segundos, o mundo ficou suspenso.

Depois, desceu.

Helder seguiu viagem com o bebé no carro, agora em silêncio. Mas algo tinha mudado.

Não era só gratidão.

Era o início de algo que ele ainda não sabia nomear…

mas que já começava a doer.

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