Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelder saiu cedo naquela manhã. O sol ainda lutava para romper as nuvens densas que cobriam Malanje, e o ar trazia um cheiro húmido de terra molhada. Precisava de comprar algumas coisas básicas, mas, mais do que isso, precisava sentir a cidade, observar rostos, ouvir vozes, compreender o lugar onde decidira ficar.
Entrava em pequenas lojas, trocava cumprimentos curtos, fazia perguntas simples. As pessoas respondiam com curiosidade contida, olhares atentos ao estrangeiro de fala calma e postura reservada. Helder falava pouco, observava muito.
Foi então que, ao virar uma das ruas de terra batida, o seu olhar ficou preso numa casa grande, antiga, de muros altos e pintura gasta. Parecia abandonada, mas havia movimento. A curiosidade puxou-o para mais perto.
Algumas senhoras limpavam o quintal, varriam folhas secas e conversavam entre si. Helder aproximou-se devagar, cauteloso, com o bebé bem preso contra o peito.
— Bom dia — disse, num tom respeitoso.
As mulheres interromperam o trabalho e responderam em coro. Ele apontou para a casa.
— Esta casa… pertence a alguém?
Uma das senhoras pousou a vassoura no chão.
— Pertence, sim. A dona está a vender.
Helder assentiu, deu mais alguns passos, analisando a estrutura, o espaço, a tranquilidade do lugar. Parecia perfeita para educar um filho longe do ruído e das feridas do passado.
Quando se virou para agradecer, sentiu uma presença atrás de si.
Era uma mulher.
Linda, elegante, postura firme, sorriso medido. Não era, porém, a beleza que lhe ocupava os pensamentos desde a noite anterior. Ainda assim, havia nela algo provocador, seguro de si.
— Está interessado na casa? — perguntou ela, com uma voz baixa e envolvente.
— Estou — respondeu Helder, direto. — Quero fechar negócio o quanto antes.
Trocaram algumas frases irónicas, comentários sobre o estado da casa, o preço, o futuro. A mulher falava com intenção clara, aproximando-se mais do que o necessário. Os olhos dela percorriam-no sem pudor.
— Um homem como o senhor… devia pensar também em companhia — sussurrou Marisa, aproximando-se do seu ouvido. — Esta casa pode ser… muito acolhedora à noite.
O tom era excitante, quase perverso.
Helder sentiu o corpo reagir, mas, antes que pudesse responder, o bebé começou a chorar alto, desesperado. Ele desviou imediatamente o olhar, virou-se e apertou o filho contra o peito.
— Calma… calma… — murmurou, tentando acalmá-lo.
Quando voltou a olhar, Marisa já se afastava, com um sorriso frustrado no rosto, caminhando para longe.
Helder suspirou, agradeceu às senhoras e foi-se embora.
De volta a casa, enfrentou outra batalha: o bebé não parava de chorar, e ele não conseguia alimentá-lo corretamente. Tentou contactar o departamento de emprego da província, pediu informações sobre uma ama, uma baba, qualquer ajuda. Não obteve resposta.
Cansado, decidido, colocou as sacolas no carro e seguiu instintivamente para Cacuso — a aldeia onde tudo começara.
Ao chegar, o choro do bebé foi interrompido por algo inesperado.
Helder travou o carro.
À beira do rio Kwanza, perto das pequenas cachoeiras, estava Ilda.
Banhava-se com naturalidade, usando um biquíni simples e um sutiã gasto. A pele negra brilhava sob a luz difusa do céu nublado. O corpo, de curvas harmoniosas, movia-se com leveza dentro da água.
Helder esqueceu-se de tudo.
O bebé voltou a chorar, mas ele não ouviu. Foram as senhoras da aldeia que se aproximaram, abriram o carro e pegaram a criança para a acalmar, enquanto Helder, sem perceber, caminhava na direção do rio.
— Ela é linda, não é? — disse um homem ao seu lado. — Muitos já tentaram conquistá-la. Promessas, dinheiro, palavras vazias… mas ela nunca se deixou levar. O noivo foi às pedras de Pungo Andongo caçar com os mais velhos. Hoje ela está só.
A aldeia de Condo estava quente e silenciosa. Pouca gente circulava. Apenas as mulheres mais velhas, o bebé ao longe… e Ilda.
Helder aproximou-se da margem. Tirou a camisa, descalçou as botas, entrou devagar na água. Cada passo parecia pesado, como se o destino o puxasse.
Quando Ilda se virou e o viu, os dois ficaram imóveis.
Os olhares prenderam-se.
Ele viu nela calma, inocência, uma beleza negra pura, intocada. Os cabelos longos, pretos, leves, escorriam molhados pelas costas.
Ilda ficou sem voz. Quieta. Perdida naquele instante.
O tempo parecia suspenso.
— Ilda! — gritou uma voz ao longe.
Era Maria, sua mãe.
Ilda saiu da água rapidamente, vestiu-se sem olhar para trás e correu para casa.
Helder permaneceu ali alguns segundos, imóvel, com o coração acelerado. Depois saiu da água, voltou ao carro e trocou de roupa em silêncio.
Aquela volta à aldeia não fora apenas um passeio.
Tinha sido o começo de algo que nenhum dos dois estava preparado para enfrentar.
“De volta a casa”.
Antes de regressar à cidade, enquanto o bebé dormia rodeado pelas crianças e pelas senhoras da aldeia, Helder afastou-se alguns metros. O silêncio daquele fim de tarde permitiu-lhe observar algo que não tinha reparado antes. Para além da beleza rural de Ilda, outro cenário chamou a sua atenção.
Quatro hectares de terra vazia estendiam-se diante do seu olhar atento e quase sombrio. Um espaço amplo, fértil, silencioso. Com passos lentos e calculados, aproximou-se do terreno, como quem já imagina futuros possíveis.
Uma voz mansa, porém firme, interrompeu-o de súbito.
— Aonde vais, senhor branquelo? Esse lugar não te pertence. Volta para a tua terra. Vocês já nos fizeram muito mal.
Helder parou. Virou-se devagar, sem agressividade.
— Tens muita sorte de estares a falar com um americano e não com um português — respondeu.
Mas disse-o na língua nativa do homem, em kimbundu, como se já fosse dali, como se a terra também lhe pertencesse.
O homem arregalou os olhos, surpreendido. Um sorriso abriu-se-lhe no rosto, e, emocionado, correu para abraçar Helder.
Conversaram ali mesmo, à beira do campo, sobre sonhos, sobre grandes planos que poderiam nascer naquele espaço. Falaram de futuro sem nunca trocarem os nomes, como se isso não fosse necessário.
A conversa foi interrompida pela voz da mulher do senhor, chamando-o para jantar. O céu já escurecia.
— Vens provar o meu maruvo e o meu funge, ou ficarás aí parado? — perguntou o homem, já de idade avançada, num tom amistoso.
A noite caiu de vez.
Mais tarde, estavam todos reunidos em roda, com uma fogueira acesa no centro. As chamas iluminavam rostos, risos e movimentos. Ilda dançava com as irmãs, o corpo leve, envolto pelos ritmos da aldeia. Helder não conseguia desviar o olhar dela. Estava completamente perdido naquela visão.
O tempo passou depressa. Já era tarde.
Helder decidiu despedir-se e regressar a casa. Preferiu deixar o bebé com as senhoras da aldeia, prometendo voltar de manhã para buscá-lo.
Enquanto se afastava em direção ao carro, ouviu um estalo seco, como troncos a partir. Parou. Acendeu a lanterna e ouviu passos sobre folhas secas. Aproximou-se com cautela.
Era ela.
Ilda surgiu da escuridão, vestida com trajes tradicionais de pano, o corpo marcado por tintas brancas. Aproximou-se lentamente.
Ficaram frente a frente durante longos segundos, em silêncio, até que as palavras finalmente surgiram.
— Porque estás sempre aqui? — perguntou ela, num fio de voz.
— Venho sempre aqui. Este é apenas o meu segundo dia… e não há como não vir. Há muita beleza externa e interna por aqui. Beleza que eu gostaria de conhecer… e de fazer parte.
Ilda tentou responder.
— Hãm… mas cedo, quando chegaste…
As palavras morreram-lhe nos lábios. A vergonha e o medo anteciparam-se ao que queria dizer.
— Não te preocupes — disse Helder, com suavidade. — Vem comigo. Vou levar-te a um lugar muito bonito daqui de Malanje.
Ela hesitou apenas um instante. Depois segurou-lhe o braço e subiu no carro.
Foram juntos para a cidade, para a casa de Helder.
Após o desaparecimento de Ilda, a aldeia entrou em alvoroço. O noivo ficou inquieto, assustado. Na sua mente repetia-se apenas uma ideia: ela deve ter-se entregado nos braços do americano.
A manhã chegou.
Ilda surgiu vestida com um vestido branco comprido, parecendo uma jovem protegida, quase uma escrava resgatada de um mundo que não compreendia. Subiu no carro e, antes de partirem, agradeceu:
— Muito obrigada pela noite de ontem. Nunca tive uma noite tão bela e tão calma.
Helder sorriu.
— Essa foi apenas uma das tuas primeiras.
Ilda desviou o olhar, preferiu não responder. Permaneceu em silêncio durante toda a viagem de regresso à aldeia.
O que começara como um encontro ao acaso… já não tinha volta.







