A Fissura
Ele percebe o erro tarde demais.
Não no instante em que acontece, ali, tudo parece correto, encaixado, lógico.
O erro não anuncia a própria chegada. Ele se acomoda em silêncio, como poeira fina sobre móveis que ninguém toca há anos.
Só quando a luz muda de ângulo é que se revela.
A primeira sensação não é medo. É irritação.
Uma contração mínima no maxilar, um aperto quase invisível entre as sobrancelhas.
O tipo de reação que ninguém percebe, mas que ele conhece bem demais. Aquela que antecede decisões precipitadas.
Ele não deveria ter ido pessoalmente.
Sabia disso desde o momento em que desligou o telefone naquela manhã.
Ainda assim, vestiu o casaco, colocou os óculos escuros, um hábito inútil em dias nublados, e saiu.
Disse a si mesmo que era apenas uma verificação de rotina.
Um ajuste final.
Mentira confortável.
O prédio era antigo, desses que sobrevivem à cidade por insistência, não por manutenção.
Fachada manchada, janelas estreitas, ch