O Guardião do Silêncio
O fogo nunca mente.
Ele consome apenas o que já estava pronto para ruir.
Madeira velha, ferrugem escondida sob tinta recente, papéis que fingem ser memória.
Gosto disso no fogo. Ele não cria, apenas revela.
Observo à distância, como sempre.
Não por medo, mas por método.
Aproximação excessiva gera rastros, e rastros contam histórias.
Histórias são perigosas quando caem nas mãos erradas.
O carro ainda estala.
O cheiro metálico se mistura ao de combustível queimado.
Rafael vai entender o recado.
Não imediatamente, homens raramente entendem símbolos de primeira.
Eles precisam da perda material para reconhecer o aviso.
O apego ensina melhor do que palavras.
Não sinto prazer nisso.
Também não sinto culpa.
Apenas continuidade.
Cruzo os braços dentro do casaco escuro.
A noite está fria, mas não o suficiente para endurecer as mãos.
Ainda tenho controle.
Sempre tive.
Foi isso que me manteve vivo quando outros se perderam no impulso, no remorso, na tentativa