Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaya
— Maya! Acorda, sua imprestável! A voz estridente de Helena cortou a penumbra do porão como um chicote. Abri os olhos com o corpo moído, a dor entre as minhas pernas lembrando-me brutalmente de tudo o que acontecera poucas horas atrás. Eu mal tinha conseguido pregar o olho, mas minha madrasta já estava no topo da escada de madeira, esmurrando o corrimão. — Levante essa bunda daí e vá limpar o quarto de hóspedes agora mesmo! — gritou ela, sem sequer descer os degraus. — A Laura precisa que aquela sujeira seja tirada de lá antes que os servos da mansão Rossini cheguem! Mova-se! Engoli em seco, sentindo a garganta arranhar. Ajustei o meu vestido simples de trabalho, calcei os sapatos gastos e sai para as escadas em silêncio. Ao passar pelo corredor da sala de jantar, a cena que vi através das portas de vidro fez o meu peito sangrar. A família estava reunida ao redor da grande mesa de mogno para o café da manhã. Pratos de porcelana, frutas e taças decoravam o ambiente. Laura vestia um conjunto impecável de renda clara e estava pendurada no braço esquerdo de Dominic, sorrindo com uma falsa modéstia radiante. Meu pai e Helena falavam empolgados, quase sem respirar, ajustando os detalhes finais do acordo financeiro com o Alfa Supremo e sugerindo datas próximas para o baile oficial de noivado. Dominic mantinha uma postura ereta e séria. Ele tomava seu café em silêncio, mas o olhar firme dele parecia distante. Acelerei os passos, passando de relance para não ser notada por ninguém da mesa. Subi para o andar superior carregando um jogo de lençóis limpos nos braços. Ao abrir a porta do quarto de hóspedes, a brisa fria da janela aberta trouxe de volta o cheiro de tempestade, madeira e o calor da noite passada. O cômodo ainda exalava a essência do meu companheiro predestinado. Aproximei-me da cama desfeita e inclinei-me para recolher a roupa de cama. Ao puxar o tecido branco, parei. Bem no centro do lençol, a mancha escura e viva de sangue seco repousava como uma testemunha silenciosa. As lágrimas marejaram meus olhos no mesmo instante. Aquela era a prova irrefutável da noite de amor entre mim e o Alfa Supremo, a marca da minha entrega ao único homem que o meu lobo reconheceria. Apanhei o tecido com um cuidado quase sagrado, abraçando-o contra o peito por alguns segundos. Troquei o lençol rapidamente, colocando o limpo no lugar, mas fiz questão de dobrar a peça suja e levá-la comigo. Era o único vestígio de que tudo aquilo não tinha sido um sonho doloroso. Saí do quarto carregando o bolo de lençóis manchados, mantendo a cabeça baixa para ocultar o rosto inchado de choro. Enquanto caminhava a passos rápidos pelo corredor em direção à lavanderia, dobrei a esquina sem perceber a presença no corredor. Meu ombro colidiu fortemente contra um peito rígido como pedra. — Cuidado... — a voz grave e aveludada ressoou logo acima da minha cabeça, fazendo meu coração disparar bruscamente. Dominic estava ali, parado com o celular na mão, resolvendo chamadas da alcatéia. O choque do toque fez o meu sangue gelar. Num instinto desesperado para não permitir que ele visse meu rosto sob a luz da manhã, girei o corpo imediatamente, ficando de costas para ele. Ajeitei o bolo de tecido nos meus braços, abraçando o lençol sujo contra o peito como um escudo. — Olá... — disse ele, a voz baixando de tom ao notar a minha reação esquiva. A aura avassaladora de Alfa pesou ligeiramente no corredor, carregada de uma estranha curiosidade. — Desculpe, eu não a vi dobrar a esquina. Eu a machuquei? Senti o olhar dele queimando nas minhas costas. O meu lobo interior arranhou o peito, implorando para que eu me virasse, para que eu gritasse a verdade, para que eu deixasse o meu cheiro alcançar o dele. Mas a promessa de liberdade e o medo de ter minha vida destruída sufocaram a minha alma. Mantive a cabeça abaixada, negando rapidamente com a cabeça. — Não... precisa se preocupar, senhor — murmurei com a voz abafada, ajeitando o lençol contra o peito. — Eu... eu preciso ir. Apertei os passos e saí apressada pelo corredor, sentindo a presença do Alfa Supremo estática atrás de mim, enquanto o seu olhar parecia seguir cada movimento da criada que levava embora a prova do seu próprio destino.






