Mundo de ficçãoIniciar sessão
Maya
Há correntes invisíveis que nos prendem mais do que o ferro. Minha mãe morreu no parto, me deixando neste mundo como a lembrança viva da traição do meu pai. Arthur obrigara sua esposa, Helena, a me criar sob o mesmo teto, e o ressentimento daquela mulher se transformou no meu pesadelo diário: fui reduzida à serva da casa, pagando o preço de um pecado que não era meu. Aos dezoito anos, aquela mansão não era o meu lar; era a minha prisão. A porta do porão se abriu com um solavanco. Os passos apressados de Helena ecoaram pela escada de madeira, seguidos pela postura altiva da minha meia-irmã, Laura. — Deixe essa poeira de lado, Maya — ordenou Helena, a voz gélida. — Levante-se agora. Ajeitei minha calça jeans gasta e me coloquei de pé, limpando as mãos no pano de prato. — O que aconteceu? — perguntei, encarando Laura. Ela usava um vestido de seda impecável, mas suas mãos tremiam levemente. — O seu pai acabou de chegar da cidade — respondeu Helena, aproximando-se com o olhar afiado. — Ele fechou um acordo com a dinastia Rossini. O Alfa Supremo, Dominic Rossini, virá a esta casa hoje à noite para pedir a mão de Laura em casamento. Um aperto violento esmagou o meu peito. Tempos atrás, acreditando na falsa amizade de irmã, cometi o erro ingênuo de confessar a Laura o meu maior segredo: eu sabia que Dominic era o meu companheiro predestinado, senti o chamado do meu lobo assim que completei 18 anos e o vi de longe numa cerimônia. Engoli em seco, forçando uma máscara de indiferença para não deixar transparecer o tamanho da minha dor. — Parabéns, Laura... — murmurei, mantendo a voz firme. — Não comemore ainda — cortou Helena, dando um passo intimidador. — Há um detalhe na negociação. Dominic exigiu passar uma noite com Laura para confirmar se a essência dela responde à dele antes de anunciar o noivado ao Conselho. Apertei as mãos contra o corpo, encarando as duas com indignação. — Vocês ficaram loucas?! Vocês sabem perfeitamente que a companheira do Dominic sou eu, não a Laura! Como ela pretende fingir isso se o elo de almas não mentirá para o lobo dele?! Helena sorriu, um sorriso vil que revelava toda a sua ganância. — É exatamente por isso que você está aqui, bastarda — disse a madrasta, a voz baixando para um tom perigosamente calculista. — Você tem a mesma altura da Laura, a mesma estrutura de corpo e carrega o sangue Davenport nas veias. Você vai subir para o quarto de hóspedes. Vai vestir o robe de seda da sua irmã, usar o perfume dela e se deitar com o Alfa Supremo no escuro absoluto. Você cumprirá a obrigação da sua irmã para que o vínculo se afirme e, assim que ele dormir, você sairá da cama para que a Laura entre no seu lugar e amanheça ao lado dele. A insanidade daquela proposta fez o meu sangue congelar. — Isso é uma loucura! — exclamei, recuando. — Se o Alfa Supremo descobrir que foi enganado dessa maneira, ele vai matar todos nós! Eu não vou fazer isso! — Você vai fazer exatamente o que estou mandando, Maya! — rosnou meu pai, surgindo do topo da escada com o olhar tomado por um desespero sombrio. Ele desceu os degraus a passos largos e segurou o meu braço com uma força brutal, encurralando-me contra as prateleiras. — Eu não sou uma moeda de troca! — enfrentei-o, o peito arfando. — Você não tem escolha! — sibilou Arthur, encostando o rosto ao meu. — Ou você sobe para aquele quarto e faz o Supremo acreditar que a Laura é a alma gêmea dele, ou eu cancelo a sua matrícula na faculdade do norte hoje mesmo! Eu destruo todos os arquivos e registros que tenho sobre a sua mãe. Você nunca vai descobrir quem ela foi, de onde veio ou qual era a sua verdadeira família! Vou te colocar no meio da rua sem um único centavo e marcada como banida desta alcatéia! A chantagem caiu sobre mim como um golpe devastador. O meu futuro e o único elo com o passado da minha falecida mãe estavam sendo usados como refém. Olhei para Laura, que me encarava com desprezo frio, e engoli a humilhação. — Se eu fizer isso... — a minha voz saiu trêmula —, você me entrega os documentos da minha mãe e a minha transferência amanhã? — Palavra de honra — disse meu pai, soltando meu braço com violência. — Agora suba. O Alfa Supremo estará aqui em uma hora, e as sombras daquele quarto serão a sua única salvação.






