Capítulo 5 — À Espreita

POV — Gustavo de Lucca

O alarme do celular disparou, irritante. Gustavo deu um tapa na tela, mas o barulho continuou — insistente, sem piedade.

— Não tem jeito… tem que levantar.

O visor marcou sete horas. Ele se ergueu devagar da cama, a cabeça pesada, o uísque cobrando o preço.

Depois do banho, ainda de toalha, foi até a janela, puxou a cortina e deixou o sol entrar no apartamento. Lá fora, a cidade já corria: gente apressada, ônibus lotado, moto cortando corredor. Gustavo fez café, comeu uma panqueca de banana — pré-treino — e engoliu as notícias da manhã sem realmente prestar atenção.

Suar vai resolver, pensou. Suar sempre resolve.

Na academia, Renan já estava gritando como se o mundo dependesse disso.

— Bora, Gus! Tá com o freio puxado hoje! Bora levantar esses pesos!

Renan era energia pura. Dava raiva só de existir daquele jeito. Gustavo não respondeu. Só colocou os fones, subiu a carga e continuou a série.

Uma mulher morena — que ele lembrava vagamente de ter visto por ali outras vezes — encostou perto, com um sorriso fácil demais.

— Oi, Gus… tudo bem? Deve ter ido pra balada ontem, hein!

Gustavo não lembrava o nome dela. Mas sorriu como se lembrasse.

— Poxa, morena… nem me fale. Tô cheio de trabalho. Mas vamos marcar, sim. Assim que eu desafogar, eu te chamo pra tomar uma.

Eles riram. Na academia, ele era “Gus”. Não se incomodava. Até gostava: nome curto, vida curta, conversa curta.

Quando terminou, voltou direto para casa. Dia de relatório. Dia de campo.

O apartamento também era escritório: notebook na mesa, carregadores alinhados, uma prancheta com anotações rápidas. Gustavo abriu o celular e rolou as conversas até achar o contato certo.

— Jorge, parceiro… como vai? E aí, conseguiu alguém pra aquele serviço?

A pausa do outro lado durou pouco.

— Ah, sim… qual o nome dele?

Ele já sabia a resposta, mas gostava de ouvir mesmo assim. Confirmar era parte do trabalho.

— Rogério. Isso. Ele vai falar com o pessoal hoje? Ótimo. Me avisa assim que pingar. Valeu, irmão.

Desligou e ficou olhando o nada por um segundo, como quem encaixa peças invisíveis.

Na sequência, abriu o e-mail da Fioruti Contabilidade. O dono devia um favor antigo — desses que não se cobram com cobrança, se cobram com necessidade. Gustavo escreveu curto, direto, e anexou a papelada que precisava para destravar um caminho. Terminou com um “obrigado” educado demais para ser sincero e enviou.

Papelada pronta.

Agora era rua.

Ele pegou o capacete, desceu, montou na moto. O vento na cara ajudou a varrer o resto da ressaca. No trajeto, parou em dois lugares sem importância aparente: um balcão, uma esquina, uma conversa rápida que ninguém registraria como “investigação”. A cidade sempre falava. O segredo era ouvir sem parecer que estava ouvindo.

No meio da tarde, Gustavo conferiu o relógio.

16h12.

Ele abriu o I*******m e entrou no perfil da floricultura. A mensagem que enviou foi mínima, como sempre:

“Você fecha às 17h, né? Posso passar 16h40.”

Não era só horário. Era rotina. Rotina era tudo.

Quando deu 16h40, ele encostou a moto duas quadras antes e foi a pé. Jaqueta escura surrada, botas marcadas, barba por fazer, tatuagem subindo no pulso. Do jeito certo: o tipo que ninguém associa a flores… e por isso ninguém presta atenção.

A floricultura tinha cheiro de verde e água fresca. Era um lugar pequeno, organizado, com aquele ar de quem resiste há anos no mesmo ponto.

Ele entrou e esperou três segundos antes de falar.

— Boa tarde. As mesmas.

As rosas brancas já pareciam prontas antes mesmo de ele pedir. Gustavo observou sem pressa: não as flores — o ambiente. A posição do balcão. A porta. O fundo. O movimento.

E então viu ela.

Rosa estava com o avental, as mãos ocupadas, o rosto firme… e um cansaço que não combinava com aquele horário. Os olhos pareciam acordados há dias. Mesmo assim, ela manteve a voz no lugar.

— Boa tarde… é o seu buquê, né?

Gustavo assentiu, como se fosse só mais uma compra semanal. Como se não existisse nada além disso.

— Isso.

Enquanto ela ajustava o laço, ele notou um detalhe no pescoço dela: uma correntinha discreta, uma medalha pequena que aparecia e sumia com o movimento. Não comentou. Não precisava.

Quando o buquê ficou pronto, Gustavo pegou com cuidado — não por delicadeza, por hábito. Tirou o celular do bolso e fez uma foto rápida, limpa, enquadrando as rosas brancas sobre o balcão.

— Obrigado.

Rosa respondeu com um “de nada” curto, profissional. Mas os dedos dela apertaram o laço um pouco mais do que o necessário, como se aquilo segurasse algo que ela não queria derrubar.

Gustavo saiu sem olhar para trás.

À noite, de volta ao apartamento, ele não acendeu a luz principal. Sentou à mesa, abriu o notebook e escreveu o relatório como fazia toda semana: seco, objetivo, sem opinião.

Assunto: Rotina — confirmação semanal

Horário: 16h40 (confirmado)

Local: Floricultura (Ipiranga)

Observação: atendimento por Rosa / comportamento reservado

Anexo: foto do buquê (rosas brancas)

Ele anexou a imagem. Conferiu uma última vez. E enviou para um contato salvo sem nome — apenas um ícone neutro e um fuso horário diferente.

A resposta veio pouco depois.

Sem texto. Sem emoji.

Apenas uma confirmação fria na tela:

Visto.

Gustavo fechou o notebook devagar.

E soube, com a tranquilidade de quem já viu esse tipo de história começar, que a próxima semana não seria igual às outras.

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