Capítulo 4 — Rosas Brancas

— Rosa… Rosa… esse é o seu ponto, não é?

Rosa acordou com uma batida no ombro. Era Rosana, uma conhecida que pegava o mesmo ônibus. Ela despertou num pulo e correu para a porta.

— Obrigada, Rô! Eu dormi e apaguei…

— Motorista! Vou descer! — Rosa gritou, pedindo passagem e se espremendo entre a massa de pessoas à sua frente até a porta.

Ela saltou do ônibus e correu até a floricultura. O coração batia alto, as pernas pesadas, a respiração curta.

— Bom dia… bom dia, dona Regina… desculpa o atraso — disse, quase sem fôlego.

Rosa sabia que anos de balcão tinham dado à dona Regina uma leitura rápida das pessoas. Ela bateu o olho nela e, antes mesmo do “bom dia”, já tinha entendido o principal: as olheiras fundas, o sorriso curto, a pressa no corpo.

Rosa ajeitou o avental, tentando parecer normal.

— Bom dia, menina… respira primeiro. Pelas suas olheiras dá pra ver que você dormiu bem pouco. Aconteceu alguma coisa, minha filha?

— Não, dona Regina… não se preocupe. Tá tudo bem — respondeu com um sorriso nos lábios que não chegava aos olhos.

Dona Regina sorriu de volta e não insistiu. Rosa percebeu e ficou grata por isso: ela respeitava o tempo dela, como se soubesse que certas coisas só abrem quando querem.

Dona Regina chegou mais perto.

— Rosa… você sabe que pode contar comigo pra qualquer coisa. Não esquece disso — disse com firmeza, mas com carinho no olhar. — Hoje eu vou até a igreja fazer um orçamento. Saio daqui a pouco. Dá tempo de um café?

Ela puxou uma sacolinha.

— Trouxe um bolinho pra gente.

Aquele gesto simples desarmou Rosa por dentro. Ela sentiu os ombros baixarem, como se o corpo lembrasse que nem todo cuidado vinha com cobrança.

Rogério só tinha chegado em casa de madrugada. Rosa ficou quase a noite toda acordada, esperando, deitada no quarto, vasculhando as próprias lembranças para entender o que poderia ter acontecido.

Quando foi que ele ficou tão distante? — ela se perguntara.

E, como sempre, a resposta veio pronta na cabeça, cruel e automática: a culpa é sua.

Por não ser mais bonita. Por não se vestir “do jeito certo”. Por não usar maquiagem da moda. Rosa não gostava de chamar atenção; sempre preferiu ser discreta, quase invisível.

A voz de Rogério, antiga e presente, ecoava na mente:

— Rosa, você tem que se arrumar mais… quem vai querer você agora que tá ficando velha? Só eu mesmo.

Ela tentou sacudir o pensamento, mas ele ficou. Mesmo ali, trabalhando, os movimentos saíam no automático: laço, fita, corte, flor. Laço, fita, corte, flor.

A mão trabalhava.

A cabeça, não.

E, no fundo da mente, a pergunta martelava como um b**e-estaca, como se não tivesse dormido junto com ela naquela noite:

O que o Rogério anda fazendo?

O cheiro que veio com Rogério não era de rua. Era perfume. E Rosa não lembrava daquele perfume em casa.

Com a cabeça nublada e as mãos ocupadas nos arranjos, o celular vibrou no bolso do avental. Rosa congelou por um segundo, pensando que podia ser uma mensagem de Rogério.

Puxou o aparelho só o bastante para espiar a tela — sem desbloquear.

Era uma DM no I*******m da floricultura.

Um cliente recorrente que aparecia quase toda semana, no mesmo dia, quase sempre no mesmo horário, e sempre com o mesmo pedido: um buquê de rosas brancas.

Pelo que Rosa se lembrava, ele já frequentava a floricultura havia anos. Era fácil lembrar dele justamente por ser o oposto do imaginário de um homem que comprava flores.

Devia ter pouco mais de trinta anos e não combinava com floricultura — muito menos com as flores que sempre levava. Jaqueta escura surrada, botas marcadas, barba por fazer e cabelo levemente bagunçado. Quando aparecia, trazia um capacete de moto na mão, cheiro discreto de couro e tatuagens que subiam do pescoço até o dorso da mão.

A mensagem apareceu na tela:

“Você fecha às 17h, né? Posso passar 16h40.”

Rosa franziu a testa. Ela não lembrava de ter dito aquilo em momento nenhum. O horário estava no perfil, sim, mas ele perguntava como se precisasse confirmar… como se não pudesse errar.

Por um instante, o desconforto surgiu. Ela quase respondeu com outra pergunta, mas engoliu. Não era nada. Provavelmente ele só era metódico.

Rosa digitou:

“Boa tarde! Sim, fechamos às 17h. Pode passar às 16h40 😊”

Antes de guardar o celular, leu de novo o nome do perfil. Curto, comum, sem foto que ajudasse. Mais um motivo para não pensar muito.

Ela guardou o aparelho e voltou ao arranjo, apertando o laço com cuidado

No terminal reservado,um espaço discreto mais que exalava design com grandes paineis de vidro, poltronas de couro, iluminação morna e silêncio suficiente para ouvir o próprio relógio. 

Não havia filas, nem anúncios, nem perguntas desnecessárias. Apenas um atendente que circulava com passos calibrados e chamava nomes em voz baixa, como se até o embarque fosse uma negociação.

Daan aguardava com, postura impecável, expressão vazia. Do outro lado do vidro, um trijato cinza-escuro já estava posicionado na pista privativa — sem logotipo chamativo, sem espetáculo.

O celular vibrou uma única vez. Ele olhou a tela: uma foto de um buquê de rosas brancas, amarrado com precisão. Abaixo, uma linha curta: “16h40. Confirmado.”

Daan bloqueou o aparelho, guardou no bolso interno do paletó e se levantou. Quando o atendente se aproximou, ele apenas assentiu — e seguiu, como se a mensagem fosse só mais um item na agenda

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