Capítulo 3 — A Busca Começa.

O elevador subiu em silêncio. Quando as portas se abriram no último andar, Daan atravessou o corredor como se cada passo ainda ecoasse a frase do pai.

Você continua rico. Mas nunca será rei.

Ele entrou no próprio escritório e fechou a porta. Pela primeira vez desde a reunião, permitiu que a máscara caísse — não no rosto, mas no peito. A pasta preta estava sobre a mesa, aberta, como uma ferida.

O celular vibrou.

Hartman: “Posso entrar?”

— Entre.

O advogado entrou sem pressa. Sempre impecável e neutro. Como se emoções fossem um idioma que ele se recusava a aprender.

— Seu pai pediu que eu garanta discrição — Hartman disse. — E eficiência.

Daan não respondeu. Pegou o copo d’água e bebeu como se estivesse engolindo a própria raiva.

— Você quer saber por que ele sabe de tudo? — Hartman perguntou, olhando para os documentos. — Porque ele sempre soube. Ele só fingiu não saber… até hoje.

Daan soltou uma risada curta.

— Ele me observou como um projeto.

— Como um pai — Hartman corrigiu, seco. — Um pai com medo do que você pode virar.

Daan encarou a janela. Amsterdã cinza. Chuva. Gente pequena lá embaixo.

— Então vamos direto ao ponto — Daan disse. — Quais as informações que você tem da Rosa ?

Hartman tirou um tablet da pasta.

— Estou no processo. Mas antes, preciso que você responda uma coisa: você quer encontrá-la por causa do voto… ou porque não conseguiu esquecê-la?

A pergunta foi indevida. E exatamente por isso acertou.

Daan ficou imóvel por um segundo.

— Eu não esqueço o que me pertence — respondeu, frio.

Hartman sustentou o olhar.

— Ela não é um ativo.

Daan deu um meio sorriso, perigoso.

— Ainda não.

Hartman respirou fundo, como se decidisse até onde iria.

— Seu pai adotivo era casado — disse, mudando o caminho. — Você sabe o que Ann faria se estivesse aqui?

O nome da mãe adotiva bateu como um perfume antigo.

Ann.

Annelies van der Velde.

Daan não respondia quando falavam dela. Nunca. Era a única perda que ele não permitia que tocassem.

Hartman continuou, com cuidado:

— Ela diria para você voltar ao Brasil… mas não por causa da empresa. Por causa de você.

Daan abriu a boca para cortar. Não cortou.

O silêncio fez Hartman entender que tinha permissão.

— Ann descobriu que não podia ter filhos — Hartman disse. — E ainda assim insistiu. Ela pesquisou, visitou instituições, falou com padres e freiras… até encontrar a associação ligada à Igreja de Santa Edwiges. Foi ela que puxou cada fio do processo. Ela queria um filho. Hendrik queria uma herança viva. Mas foi Ann quem escolheu você de verdade.

Daan baixou os olhos para a pasta.

Como se aquilo tivesse sido um gatilho, uma lembrança veio — nítida demais para algo tão antigo.

Não era Amsterdã.

Era cheiro de desinfetante barato e pão amanhecido. O chão de assoalho gasto a décadas. 

Era o corredor do orfanato.

E uma voz feminina, mais velha, tentando ser suave.

— Daniel… — disse a voz.

Ele estava sentado no chão, com os joelhos perto do peito. Não falava. Não pedia. Só existia.

Rosa se agachou na frente dele, segurando um prato com comida.

— Eu não vou te obrigar — ela falou, devagar, como se conversasse com um passarinho assustado. — Mas… se você comer um pouquinho, amanhã eu te mostro o jardim. Tem umas flores lá atrás. Eu cuido delas.

Daniel não mexeu.

Rosa não foi embora.

Ficou ali, sentada no chão, como se o chão não fosse frio.

— Eu também já fiquei sem vontade de falar — ela confessou, baixinho. — Às vezes a gente fica com medo de abrir a boca… e sair tudo de uma vez.

Daniel piscou. Um detalhe. Só isso.

Rosa sorriu.

— Tá. A gente não fala. — Ela empurrou o prato mais perto. — Mas você come. Um tiquinho. Por mim.

Daniel olhou para a comida como se fosse um desafio impossível.

Rosa pegou uma colher, colocou um pouco na ponta e estendeu.

— Só um. Depois você decide.

E, naquela noite, Daniel comeu. Não por fome. Por causa do jeito que ela esperou. Como se ele importasse.

O flashback sumiu tão rápido quanto veio.

Daan piscou, voltando para o presente, com a garganta seca.

Hartman ainda estava ali, observando.

— Você lembra dela — Hartman disse.

Daan apertou o maxilar.

— Não importa o que eu lembro.

— Importa — Hartman respondeu. — Porque o prazo já começou.

Daan passou a mão pelo rosto, uma fração mínima de desgaste.

— Eu quero tudo — ele disse. — Endereço, rotina, contatos. E quero hoje.

Hartman assentiu.

— Certo.

Ele virou o tablet.

Na tela, uma busca carregando.

Daan viu o nome aparecer primeiro.

Depois uma foto pequena, redonda.

Um perfil.

O brilho do Mac iluminou o rosto dele por um segundo.

Rosa Ferreira dos Santos.

Em outro local longe daquele escritório de vidro e poder, a mesma página do I*******m brilhava numa tela de celular. O mesmo nome. A mesma foto.

Rosa Ferreira dos Santos.

Um dedo pairou por um instante — como quem duvida da escolha mas então clicou.

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