Mundo de ficçãoIniciar sessãoA quase dez mil quilômetros da fria Amsterdã, Rosa terminava a pausa do almoço sem saber que o passado já tinha começado a procurá-la.
— Oi, dona Regina. Terminei. Vou voltar para o balcão... você pode almoçar, — disse ela, já entrando na área de atendimento da Floricultura.
Rosa adorava flores, plantas e qualquer coisa que cheirasse à natureza. Quando criança, no orfanato ela encontrava algumas maneiras de ajudar o zelador a cuidar do jardim. Aquele era o único lugar onde o mundo parecia menos duro.
— Mas, Rosa, minha querida... você engoliu sua comida, menina. Você acabou de sair e já está de volta! Você vai ficar doente assim. Dona Regina balançou a cabeça de um jeito que mostrava que estava reclamando por carinho. — Bem, então já que você terminou vou comer e já volto. Preciso ir ao banco. Você cuida da loja.
Dona Regina saiu, e o ambiente voltou ao seu ritmo de sempre: fita, tesoura, folhagens e arranjos de casamento para o fim de semana. Rosa trabalhava ali havia cinco anos e tinha a confiança total da dona — uma mulher na casa dos sessenta, com a floricultura firmada há décadas no Bairro Ipiranga em São Paulo.
Rosa fazia arranjos, cuidava dos clientes e, quando precisava fazer entregas perto dos compradores, fazia isso por perto. A entrega era mais comum anos atrás; hoje, com o uso de aplicativos, quase sempre eram os próprios entregadores que as faziam. Além de tudo isso, Rosa supervisionava as redes sociais.
Rosa aproveitou o intervalo entre um arranjo e outro para fotografar um buquê. Ajustou a luz. Escondeu uma folhinha torta. Digitou uma legenda simples.
“Casamento no fim de semana 🌿💍”
Postou no perfil da floricultura e, por hábito, abriu a conta pessoal para compartilhar nos stories. O engajamento era o que mantinha a loja “aparecendo”. Um aqui, outro ali… e a floricultura respirava.
Nesse momento ela recebe uma mensagem no w******p.
— Quero um jantar decente hoje. Vê se traz carne.
O peito de Rosa aperta, aquele aperto de aflição de quem sabe que tem um problema mas não a solução.
Ela começou a escrever a resposta enquanto engolia sua própria irritação. Ela digitou. Apagou. Digitou de novo, então a resposta vai curta, neutra.
— Ok, vou ver.
Quando volta para o I*******m para fechar o story , recebe uma notificação.
Novo seguidor: daanvdv
Rosa arqueou a sobrancelha um segundo. Nome estranho. Deve ser spam, pensou. Deslizou a tela e voltou ao trabalho
Logo depois, chegou dona Regina cansada devido ao calor. — Oi, Rosa... finalmente voltei, tudo certo por aqui ? Ela perguntou, tirando a bolsa do ombro.
— Tudo bem, dona Regina. Tudo está bem aqui. E no banco, estava muito cheio?
— Minha filha… você sabe que eu ainda faço tudo cara a cara. Não consigo resolver nada por essa internet. Acho que vou ter que aprender a mexer nisso. Dona Regina Responde enquanto enche um copo de água.
Rosa sorriu levemente.
— É verdade. Se você quiser, posso te ensinar algumas coisas. Eu também não sei muito, mas posso fazer o básico no telefone.
Dona Regina respirou fundo e suavizou o olhar.
— Você já me ajuda tanto... Meus filhos nem se importam mais com o meu negócio. Se não fosse por você, não sei o que seria de mim.
— Não precisa mencionar, dona Regina. Estou aqui para o que você precisar.
Rosa e Regina fecharam a loja e se despediram na porta às 17h. Rosa geralmente caminhava até o ponto de ônibus na rua de trás, mas, naquele dia, ela desceu a rua principal e foi até um mercado de esquina resolver seu problema.
Carne
Em frente às bandejas ela analisa uma por uma , vai descendo dos cortes nobres aos mais comuns , chegando nos mais duros , acha uma promoção.
Ela pega o celular e vê o saldo no aplicativo , com o valor da compra o saldo vai quase para zero , mas ela se convence.
Tá tudo bem. O salário cai semana que vem… e o vale-transporte tá carregado.
Chegando em casa ela vê Rogério esparramado no sofá, mexendo no telefone. Ele nem levantou a cabeça, não a comprimentou , permaneceu muito concentrado, como se estivesse desativando uma bomba tamanha a concentração digitando na tela com um sorriso torto no canto de boca.
Rosa e Rogério estavam morando juntos há muito tempo. Ele gostava de dizer "marido" quando queria impor algo, mas não havia casamento no papel, nem anel, nem festa. Apenas convivência …. e uma espécie de exigência que ocupava um espaço na casa.
Rosa largou a bolsa no quarto, tirou as roupas do trabalho e foi para a cozinha. Ela tirou a carne da bandeja e colocou em uma tigela com sal e alho. Ela colocou o arroz no fogão, pegou um pote de feijão congelado da geladeira e deixou lá para descongelar. Logo, o aroma do refogado do arroz se espalhou pelo ambiente. Rogério aparece na porta da cozinha como se tivesse sido puxado pelo aroma.
— Eu te disse para trazer carne... e você traz isso, mulher? Seu tom carregado de desdém.
Rosa respirou fundo.
Não respondeu no impulso. — Foi o que estava em promoção. diz contida. — Fim do mês... estou sem dinheiro. Aquela sua camisa era mais cara do que eu pensava.
Rogério soltou uma risada curta e cínica apoiando a mão do batente da porta com soco abafado , olhando para ela como se ela devesse pedir desculpas por existir.
Mesmo de costas com os olhos na panela , Rosa podia sentir o seu olhar machucando, podia sentir no silêncio de Rogério a raiva crescendo.
Neste momento o celular vibra. Ele olha a notificação por um segundo e, sem dizer mais nada, volta para o sofá.
Sem perceber ela leva a mão ao pescoço e envolveu os dedos em torno da pequena medalha de Santa Edwiges. Um velho hábito antigo que começou no dia que o menino Daniel deixou a corrente com ela e disse para ela mantê-la segura — era a única coisa que ele tinha da mãe.
Rosa continua preparando o jantar com um alívio sincero , em outras ocasiões, falar de dinheiro saía do controle — e ela aprendeu da maneira difícil que algumas discussões não terminavam com palavras.
— Rogério… tá pronto.
Na mesa posta arroz, feijão, picadinho de carne , salada e suco.
Ele apareceu com o celular na mão e comeu, olhando para a tela, sem levantar os olhos uma única vez.
Sem conversa. Sem contato. Apenas duas pessoas compartilhando a mesma mesa em uma casa pequena, compartilhando apenas comida — nada mais.
Rogério comeu rápido, repetiu e comeu a carne que ele havia criticado. Rosa não guardou uma parte do picadinho para a marmita do dia seguinte , mas não disse nada.
Pelo menos ele comeu, ela pensou.
Quando ele terminou, pegou a carteira e saiu.
— Vou falar com o Jorge. Ele disse que tem um bico para amanhã. gritou, já saindo de casa.
Rosa ficou sozinha. Lavou louça. Varreu o chão. Dobrou roupa. A casa era uma edícula nos fundos: quarto, sala e cozinha, pouca privacidade. No mesmo terreno, outras casinhas de aluguel construídas anos antes pelo pai de Rogério. Um teto. Só isso.
Ela era grata por ter onde dormir.
Mas o temperamento dele piorava semana após semana.
Com as mãos na roupa limpa, Rosa sussurrou, quase como uma confissão:
— Santa Edwiges… intercede. Faz ele conseguir um emprego. Faz a gente respirar.
Ao dobrar uma camiseta, a pergunta veio, antiga e cruel: o que eu fiz de errado?
Rosa sempre considerou que era ela o problema. Que era desinteressante demais, simples demais, pouco demais.
Era difícil lembrar da própria força quando você cresceu ouvindo — mesmo sem palavras — que precisava “merecer” ficar.
Depois de sair do orfanato aos dezoito anos, ela conseguiu um emprego como babá com Cristina, uma mulher da igreja que havia ajudado a organização. Cristina precisava de alguém para criar as crianças e foi assim que Rosa acabou na casa dela e de Celso — o irmão mais velho de Rogério.
Cristina a tratava bem. Celso também. Pela primeira vez, Rosa tinha algo como uma rotina, mesa posta, risadas no final da tarde. E isso mexeu com ela de um jeito perigoso: porque Rosa não tinha ninguém no mundo.
Ela chegou ao orfanato do Ipiranga cedo. Ela não conhecia o pai. E a mãe... A mãe simplesmente foi devorada por uma tristeza tão profunda que parecia insondável. Rosa lembrava da promessa dita por sua mãe :
— Eu voltarei.
Mas não voltou.
Desde então Rosa possuía um medo que fazia parte de sua alma — o terror de ser deixada para trás.
Um medo que a fazia se curvar e engolir desconfortos e trabalhar para não ser um fardo — como se isso pudesse garantir permanência.
Rogério, criado por uma família grande e barulhenta, com pais presentes e uma casa cheia, parecia vir de outro planeta. Um mundo ao qual ela não pertencia, mas onde tinha um desejo ardente — nem que fosse apenas para sentir o calor de uma família, por um breve momento.
Rosa nunca dava o primeiro passo. Ela ficava de lado e observava, como uma criança olhando uma vitrine de Natal na calçada, seus olhos fixos em tudo lá dentro... e ela do lado de fora, fingindo que não doía.
Quanto a Rogério, era o suficiente: o breve momento em que ela soltava um sorriso ou uma palavra gentil para ele pensar que talvez ela pudesse pertencer.
Quando Rogério viu Rosa pela primeira vez — e depois de dois ou três segundos, ele sentiu que tudo estava parado em seu mundo. Rosa era pequena, calada, com olhos atentos. Seu olhar era interessante e sua postura contida, como se estivesse acostumada a fazer o mínimo de ação, para não incomodar. E foi exatamente isso que interessou Rogério: saber que ela precisava de alguém... e que sua vaidade adorava ser necessária.
Rosa arrumou a casa e foi tomar banho antes de cochilar. Amanhã ela teria trabalho. Ela teria que sorrir amanhã. Amanhã ela teria que fingir que tudo estava bem.
Mas o sono não veio.
A casa parecia vasta demais no escuro. O silêncio era pesado. E a ausência de Rogério doía — não de saudade, mas de medo do que a noite poderia trazer.
No entanto, depois da meia-noite, ela ouviu: a chave na porta. Passos. O rangido de um armário na cozinha. Um copo batendo no balcão.
Rosa fechou os olhos. Só quando Rogério finalmente estava em casa seu corpo permitiu que o sono chegasse.
Rosa adormeceu.
Enquanto isso, em Amsterdã, o rosto de Daan era iluminado pela tela de um Mac. Um perfil aberto no I*******m.
E lá estava ela — Rosa Ferreira dos Santos.







