Mundo ficciónIniciar sesiónQuando os olhos deles se encontraram, algo brilhou, foi muito rápido, quase imperceptível, como se uma faísca silenciosa tivesse saltado entre os dois. Ayla assentiu, grata por ter sido salva, e decidiu aceitar a ajuda.
— Venha, vou te levar para casa em segurança… — ele estendeu a mão, e após um breve hesitar, ela a segurou. — Mas antes precisamos te vestir e limpar esse sangue. Sua família não precisa se assustar.
Ayla baixou o olhar para o próprio corpo e só então percebeu a dimensão do estrago. A sujeira, o sangue, os arranhões ainda sensíveis… a vontade de chorar veio como uma onda pesada. Nunca mais queria passar por aquilo.
— Vem. Vamos para minha casa — Noah disse com suavidade, ajudando-a a se levantar.
Durante o caminho, nenhum lobo se aproximou. Alguns apenas observavam de longe, submissos à presença do beta. Ayla ainda tremia, mas havia algo na postura de Noah, firme, protetora, que a fazia acreditar que estava segura.
Assim que chegaram, ela não conseguiu esconder o encanto. A casa era aconchegante, mas carregava uma elegância discreta, daquelas que não precisavam ser exibidas para serem notadas. Talvez fosse uma das vantagens de ser o beta da matilha. Noah a conduziu até o banheiro e abriu a torneira da banheira, deixando a água quente encher o ambiente com vapor.
— Tome um banho e relaxe. Vou pegar algumas roupas para você.
Ayla concordou em silêncio, tentando ignorar o fato de ambos estarem nus, já que era algo muito comum entre lobos depois de uma transformação.
Ao mergulhar na água quente, sua pele ardeu, os cortes ainda um pouco evidentes enquanto começavam a se curar lentamente. Ainda assim, o calor trouxe alívio. Seu corpo relaxou aos poucos, mas sua mente continuava presa ao que havia acontecido.
Ela afundou o rosto na água, prendendo a respiração, desejando desaparecer por alguns segundos, como se pudesse emergir em uma realidade onde nada daquilo tivesse acontecido.
— Nossa… hoje foi intenso.
A voz grave ecoou dentro de sua mente. Ayla ergueu-se abruptamente e a viu: uma loba branca caminhava pela vastidão do seu subconsciente, luminosa, quase divina.
— Finalmente eu te conheci, Ayla.
— Preferia não conhecer — ela respondeu com um rosnado baixo. — Olha o que aconteceu comigo.
A loba abaixou a cabeça, quase envergonhada.
— Peço desculpas. Não imaginei que minha presença causaria tanto caos… outra vez.
— Por que você? Minha loba não deveria ser… normal? Eu não sou da realeza.
— Realmente não é — respondeu com calma. — Mas nós somos espíritos. Não pertencemos necessariamente a linhagens de sangue. Então sinta-se honrada por eu, Daphine, caminhar ao seu lado.
— Daphine… — Ayla repetiu devagar, tentando aceitar que havia sido escolhida como guardiã de um espírito real.
Uma batida na porta a puxou de volta à realidade.
— Trouxe algumas roupas para você — disse Noah, deixando-as sobre o balcão de mármore. — Quando estiver pronta, te levo para casa.
Ele saiu, e Ayla vestiu o que encontrou: uma blusa masculina comprida demais e um short azul largo na cintura. Não era elegante, mas era reconfortante.
Ao sair do banheiro, percebeu o olhar de Noah sobre ela, atento demais para ser casual. Havia admiração ali… e algo mais quente, ainda sem nome.
— Obrigada por tudo… — disse, tímida, escondendo as mãos atrás do corpo.
— Não foi nada. Eu não podia deixar você lá — respondeu, sentindo as próprias bochechas esquentarem. — Vamos, vou te levar para casa.
Caminharam em silêncio. A mente de Ayla era um turbilhão. Ela sabia, com uma certeza quase dolorosa, que sua vida havia mudado para sempre. Carregar o espírito do lobo branco significava que seu destino já estava escrito e ela odiava essa ideia.
— Pronto. Você está segura — Noah quebrou o silêncio quando pararam diante da casa dela.
— Muito obrigada… eu nem quero imaginar o que teria acontecido se você não tivesse aparecido.
Seu corpo estremeceu só de pensar.
— Quando precisar, é só me chamar — ele sorriu, passando os dedos pelos cabelos ruivos ainda bagunçados dela. — Tenho a sensação de que vamos nos encontrar muitas outras vezes.
E então partiu, deixando-a sozinha com o próprio coração acelerado.
Ayla soltou um suspiro e contornou a casa, escalando com facilidade a árvore ao lado da janela. Entrou no quarto sem fazer barulho e se jogou na cama, deixando o cansaço finalmente alcançá-la.
— Daphine… você está aí?
Ayla fechou os olhos, respirou fundo e mergulhou novamente no próprio subconsciente.
— Eu sempre estarei aqui, minha Guardiã.
A loba surgiu na escuridão, brilhante como luar recém-nascido, com os olhos ametistas hipnóticos.
— Não me leve a mal…, mas não podia ter escolhido outra pessoa?
— Eu não escolho. O destino e a Deusa Luna decidem — respondeu, aproximando-se. — E não adianta lutar contra aquilo que já foi traçado.
Ayla se levantou, a determinação endurecendo sua expressão.
— Eu não acredito em destino. E definitivamente não vou deixar uma deusa decidir minha vida só porque carrego um espírito real.
Daphine sustentou seu olhar por um longo instante.
— Veremos…
E desapareceu.
Ayla não cederia. Para ela, não existiam almas gêmeas inevitáveis nem profecias inquebráveis, apenas escolhas. Esconderia sua verdadeira natureza, manteria Daphine oculta e ficaria longe dos bailes reais… longe do alfa… longe de qualquer um que pudesse enxergar através dela. Preferia nunca mais se transformar a correr o risco de ser descoberta.
Era um plano frágil, construído mais de teimosia do que de lógica.
Porque, mesmo sem perceber, o destino já havia começado a caminhar em sua direção.
E fugir dele exigiria muito mais do que coragem, exigiria desafiar a própria Deusa Luna.
Cinco anos haviam se passado desde a primeira bruma de Ayla, e com o tempo, ela havia se tornado especialista em esconder quem realmente era. Ser a guardiã de uma loba da realeza permanecia seu segredo mais perigoso. Daphine dormia em silêncio dentro dela, mantida assim por pura teimosia. Sempre que a bruma chegava, Ayla se trancava no sótão, longe de todos, lutando contra cada instinto que tentava arrastá-la para o destino que se recusava a aceitar. Não permitiria que a Deusa Luna escrevesse sua vida.
Muita coisa havia mudado… inclusive Noah.







