Mundo ficciónIniciar sesiónA proximidade entre eles, nascida na noite em que ele a salvou, floresceu devagar até se transformar em amor, ou ao menos algo muito parecido com ele. Noah, atraído desde o início por sua beleza e por uma doçura que contrastava com sua teimosia feroz, passou a surgir com frequência cada vez maior na região onde ela morava. Ayla, ainda grata e tocada pela devoção silenciosa do jovem beta de cabelos loiros, decidiu dar-lhe uma chance. Hoje eram um casal, estáveis aos olhos da matilha… embora, no fundo, uma parte dela sempre permanecesse alerta, como se estivesse vivendo uma vida que não lhe pertencia completamente.
Enquanto isso, o tempo não era gentil com Damon.
O Alfa vinha sendo pressionado com cada vez mais insistência para encontrar sua parceira. Sem ela, sua força diminuía, lentamente, mas perceptivelmente. A cada bruma ele sentia sua presença, como um perfume carregado pelo vento, próximo o bastante para enlouquecê-lo… e distante o suficiente para jamais ser alcançado. Promoveu bailes, visitou cada canto de sua alcateia, observou rostos, ouviu vozes, seguiu instintos, mas nada adiantou. Alguém estava se escondendo dele, e essa certeza o consumia.
Um Alfa enfraquecido era um convite ao desafio.
— Damon, você precisa agir logo — disse um dos conselheiros mais experientes durante a reunião. — Tenho ouvido sussurros… há lobos considerando desafiá-lo.
— Eu também ouvi — Noah concordou, apoiando os braços sobre a mesa.
— E não me leve a mal, meu Alfa…, mas do jeito que está, até eu conseguiria derrotá-lo.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Damon não respondeu de imediato, porque sabia que aquelas palavras não eram uma afronta, eram uma verdade incômoda. Algumas semanas antes, ele havia adoecido. Um alfa forte não ficava doente…, mas a distância de sua parceira estava corroendo seu corpo tanto quanto sua mente.
— Eu sei, Noah… — disse por fim, a voz baixa enquanto pousava as mãos sobre a mesa de madeira escura. — Vou realizar meu último baile. E desta vez será obrigatório. Todos os lobos da alcateia deverão comparecer. Quem se recusar… será banido e viverá como um ômega.
A decisão caiu na sala como uma lâmina.
Sem esperar respostas, Damon se levantou e saiu, o cansaço pesando em cada passo. Odiava obrigar seu povo a qualquer coisa, mas odiava ainda mais a ideia de que sua própria companheira estivesse fugindo dele. Quem quer que ela fosse… estava desafiando não apenas o destino, mas o próprio Alfa. E isso fazia algo primitivo dentro dele rosnar de raiva.
A notícia se espalhou rapidamente, outro baile real.
Presença obrigatória.
Quando Ayla soube, sentiu o estômago revirar. Até então, sempre havia conseguido escapar, uma desculpa aqui, uma ausência estratégica ali. Mas agora seria diferente. Ainda assim, parte dela se recusava a acreditar que o Alfa realmente baniria alguém. Se fosse verdade… apenas provaria que ela estava certa em não querer um destino ao lado dele.
Noah foi pessoalmente levar a notícia. Depois de três anos de convivência quase diária, ele já era praticamente parte da família. Ao chegar, foi recebido pela mãe de Ayla e conduzido até o jardim. Lá estava ela, usando um vestido florido que dançava com o vento suave da tarde. Seus cabelos ruivos pareciam chamas indomáveis sob a luz do sol, e suas mãos, assim como parte do rosto estavam sujas de terra enquanto cuidava das plantas.
Noah sorriu sem perceber.
Por um instante, apenas a observou… preso naquele tipo de admiração tranquila que só nasce quando se ama alguém.
— Noah! Que susto! — Ayla levou a mão ao peito.
— Desculpe, meu amor — ele se aproximou e beijou sua testa. — A culpa é sua. Fica impossível resistir a essa visão.
— Bobo… assim você me mata do coração — ela respondeu, roubando um beijo rápido.
Noah então a envolveu pela cintura, puxando-a para perto.
— Espero poder mostrar toda essa beleza hoje à noite… no baile.
O efeito foi imediato.
O corpo de Ayla enrijeceu, e ela se afastou.
Noah franziu levemente a testa. Sabia que ela evitava multidões e festas — sempre atribuiu isso ao trauma de sua primeira Bruma — mas cinco anos haviam se passado.
— Noah, você sabe que eu não gosto de bailes. Eu não vou.
— Esse é diferente — ele insistiu, voltando a segurá-la. — Se não for… será banida.
— Ele só está dizendo isso para assustar a matilha. Está desesperado para encontrar a Luna — respondeu com firmeza, escondendo o peso da própria verdade.
— Não, Ayla. Desta vez é real. E eu não vou te perder por causa de teimosia. Se alguém faltar, os guardas irão buscar.
Ela abriu a boca, procurando uma desculpa.
— Eu não posso ir, eu tenho…
— Ayla, chega! — Noah soltou sua cintura, irritado. — Por Deus, parece que você vai morrer se colocar os pés em um baile. Passo aqui às oito para te buscar.
— Pode passar a noite inteira do lado de fora. Eu não vou atender.
— Vai sim. Já falei com sua mãe — respondeu, firme. — Ela vai ajudar. Esse baile é importante demais.
A irritação subiu quente pelo peito de Ayla.
— Se me obrigarem, eu fujo.
Noah passou as mãos pelos cabelos e respirou fundo. Discutir com ela era como tentar conter o vento, pressão não funcionava, gritos menos ainda. Restava apenas uma alternativa… uma que ele detestava usar.
Sua voz mudou quando falou novamente, carregada de autoridade.
— Como o Beta desta matilha, eu ordeno que vá ao baile. E você sabe… uma ordem de Beta é tão forte quanto a de um Alfa.
O choque atravessou Ayla.
A ordem não tinha poder real sobre ela — não sobre uma guardiã da realeza — mas revelar isso significaria expor tudo. Então, engolindo a revolta, ela cedeu.
— Tudo bem…
O alívio de Noah veio misturado à culpa.
— Eu não queria fazer isso — disse, abraçando-a. — A última coisa que desejo é te ver expulsa. Eu te amo demais para permitir.
— Eu entendo… me desculpe por dificultar.
Ficaram assim por alguns instantes, presos num abraço que parecia seguro… e ao mesmo tempo perigosamente frágil.







