Mundo de ficçãoIniciar sessãoCeline permaneceu sentada no chão, atônita.
Os carros que passavam pela avenida desviavam lentamente de sua figura caída, mas ninguém parava. Sua bochecha latejava, o coração batia de forma descompassada contra o esterno e uma sensação de total desamparo a paralisava. Foi quando a primeira gota fria atingiu sua testa que ela percebeu que o céu de outono havia finalmente cedido. Um chuvisco fino e gelado começou a cair, umedecendo seus cabelos ruivos e colando os fios desalinhados à sua testa. Ela mal sentia a água; o entorpecimento psicológico era absoluto. — Se me dissessem que um dia eu veria a tão arrogante e orgulhosa Celine Sinclair se prestando a esse papel de humilhação, eu nunca acreditaria. Mas parece que o mundo dá voltas, não é? Querida Celine? A voz, carregada de uma ironia petulante e arrogante, fez Celine erguer os olhos lentamente. A chuva que caía sobre seu rosto foi subitamente interrompida pelo tecido escuro de um guarda-chuva imponente. Segurando o cabo com unhas perfeitamente esculpidas e pintadas de vermelho-escuro, estava uma jovem que Celine demorou alguns segundos para reconhecer. Valentina Kingsley trajava roupas casuais sofisticadas, do tipo que apenas um olho bem treinado era capaz de perceber o valor e a extrema qualidade de cada peça. Seus longos e densos cabelos escuros, com ondas naturais e sutilmente desalinhadas pela umidade da chuva, emolduravam perfeitamente as feições marcantes e aristocráticas de seu rosto, criando um contraste nítido com sua pele muito pálida e seus expressivos e frios olhos cor de avelã. Apesar de terem quase a mesma idade, Celine mal se recordava da última vez que havia interagido com Valentina ou com seu irmão mais velho, Liam, que ostentava aquela mesma beleza intensa, magnética e de traços severamente esculpidos que parecia correr pelo sangue daquela família. Afinal, os Kingsley e os Sinclair, além de fazerem parte de grupos sociais distintos, ainda eram grandes rivals comerciais no ramo imobiliário e corporativo. — O que você quer? — Celine perguntou com a voz rouca, levantando-se devagar, limpando a sujeira e a água das palmas das mãos na calça jeans, recusando-se a aceitar ajuda. — Eu? Nada. Só estou apreciando o espetáculo — a jovem riu enquanto girava levemente o cabo do guarda-chuva. — Você realmente tem muita audácia de aparecer na porta do Élysée depois de tudo. A sua reputação está literalmente na merda, querida. Se eu fosse você, pegaria essa malinha ridícula e voltaria para o buraco de onde saiu. A cidade inteira odeia você, e com razão. — Do que você está falando? — Celine deu um passo à frente, os olhos injetados de frustração. — Que reputação? O que acham que eu fiz? A garota soltou uma gargalhada genuína, embora repleta de desprezo, dando um passo para trás para manter a distância. — Ah, por favor, não tente dar uma de desentendida agora. O teatrinho de sonsa não cola mais. Todo mundo sabe o tipo de pessoa podre que você é. Pergunte ao G****e se a sua memória está tão ruim assim. Passar bem, Sinclair. Com um aceno de mão desdenhoso, a jovem contornou Celine e subiu os degraus do café, deixando a arquiteta sozinha sob o chuvisco que começava a engrossar. Duas horas depois, o cenário era completamente diferente, mas o tormento interno permanecia o mesmo. Celine estava no pequeno apartamento que havia alugado por duas semanas — um espaço conjugado, simples e sem os luxos a que estava acostumada na infância, localizado em um bairro residencial de classe média, distante o suficiente dos bairros onde a mesma costumava viver. O vapor do chuveiro ainda flutuava pelo banheiro quando ela saiu, vestindo um moletom velho e confortável. Seus cabelos ruivos estavam úmidos e ela tentava ignorar o reflexo no espelho, que mostrava uma marca avermelhada na bochecha esquerda, testemunha silenciosa do tapa de Sarah. A água quente havia limpado os arranhões de suas mãos, mas fizera pouco para acalmar o nó de nervosismo em seu estômago. Sentando-se na beira da cama de casal, Celine puxou o celular. Suas mãos ainda tremiam levemente. As palavras da Kingsley plantaram uma suposição que ela não queria admitir. E depois de seu banimento do café, a internet se tornou o único espaço onde ela poderia encontrar qualquer tipo de resposta. Celine abrir o navegador e, hesitantemente, digitou seu próprio nome na barra de pesquisa. O que se seguiu nas duas horas seguintes foi o desmoronamento sistemático de tudo o que Celine acreditava sobre os últimos anos de sua vida. Os resultados não traziam registros de crimes graves, prisões ou escândalos financeiros que pudessem envolver a polícia. Era algo mais sutil, porém infinitamente mais destrutivo para o ecossistema da alta sociedade. Tabloides locais de fofoca, blogs especializados na vida dos herdeiros da elite e tópicos antigos em fóruns de fofoca pintavam o retrato de uma Celine Sinclair completamente distorcida. Havia postagens detalhadas, datadas de dois anos atrás, mostrando prints de mensagens e fotos tiradas por terceiros do desastre causado por “Celine Sinclair” no aniversário de vinte anos da sua suposta melhor amiga. Sarah carregava aquela mágoa crônica não apenas pelo sumiço, mas por humilhações públicas documentadas que Celine jamais assinara. Havia relatos detalhados de uma suposta Celine que enviava mensagens anônimas para fornecedores de festas beneficentes para cancelar eventos em cima da hora, assinando com o sobrenome Sinclair e gerando prejuízos imensos que depois eram cobrados de sua família. O requinte de crueldade social era meticuloso. Em outra matéria de fofoca, uma coluna social afirmava com todas as letras que Celine havia sabotado o desfile de inauguração da marca de moda da filha dos Laurent, só porque a empresa de seu noivo por contrato, Samuel Sterling, estava patrocinando o evento. Era uma enxurrada de mesquinharias, rasteiras sociais, relatos de arrogância e trapaça, e comentários maldosos deixados em perfis de redes sociais de antigos conhecidos. Alguém havia criado uma persona impecavelmente destrutiva. Para o mundo, Celine Sinclair não era a jovem que havia fugido para estudar arquitetura, ela era uma herdeira amargurada, instável, vingativa e cruel, que gastava seu tempo tentando sabotar a felicidade alheia a todo custo. Celine largou o celular sobre os lençóis, sentindo o ar faltar em seus pulmões. A peça final do quebra-cabeça começou a se encaixar em sua mente de forma aterrorizante. O ódio de Sarah, o nojo de Jean, o desprezo da jovem no café… tudo fazia sentido agora. Nos cinco anos em que esteve fora, alguém tomou o seu lugar. E esse alguém fez questão de destruir sua reputação sistematicamente.






