Mundo de ficçãoIniciar sessãoTrês dias haviam se passado desde que Celine chegou em Ameria.
Nos dois dias após seu retorno, que coincidiram com o final de semana, a ruiva permaneceu trancada no pequeno apartamento conjugado, saindo apenas o estritamente necessário. Ela aproveitou o isolamento daquelas quarenta e oito horas para tentar digerir a enxurrada de informações absurdas e entender melhor a situação em que se encontrava, mas a verdade era que Celine se sentia completamente perdida. Sem referências, sem aliados e cercada por um fantasma que vestia seu próprio nome, ela simplesmente não fazia a menor ideia do que fazer. Inicialmente, desmascarar a impostora através de um simples exame de DNA parecia a medida mais óbvia e eficaz. Era uma solução lógica. Mas, bastou uma noite em claro remoendo os detalhes para que ela descartasse essa ideia por completo. Para alguém ter sido capaz de se passar por ela durante cinco anos, enganando sua família, seus amigos de infância e toda a elite de Ameria, uma engrenagem muito maior deveria estar em movimento. Uma pessoa extremamente poderosa — ou um grupo delas — deveria estar por trás de toda essa farsa. Em um mundo onde assinaturas podiam ser forjadas e laboratórios podiam ser comprados, nada garantia que Celine conseguiria verdadeiramente comprovar sua identidade daquela maneira sem acabar silenciada ou internada como uma lunática antes mesmo do resultado sair. Na segunda-feira, a realidade bateu à sua porta com a força de um soco no estômago. Sentada na única e pequena mesa daquele apartamento enquanto almoçava uma refeição requentada, Celine olhava fixamente para a tela de seu celular, onde o aplicativo do banco exibia seu extrato financeiro. A linha do saldo estava perigosamente perto do vermelho. Ela estava ficando sem dinheiro e, acima de qualquer investigação existencial, precisava urgentemente de um emprego. Ao decidir retornar para Ameria, Celine não havia pensado muito sobre a questão financeira. Ela acreditava que apesar do afastamento, conseguiria ter uma conversa franca com seu pai e convencê-lo a integrá-la à empresa de arquitetura e incorporação da família Sinclair. Ela havia estudado, tinha um portfólio real e estava qualificada, mas agora, ciente de que a cidade inteira — incluindo possivelmente seu próprio pai — a via como uma sabotadora mimada e cruel, as coisas não eram tão simples quanto ela imaginava. Bater na porta dos Sinclair agora significava enfrentar um tribunal de linchamento familiar para o qual ela não estava preparada. O som de uma nova notificação cortou o silêncio do apartamento. Celine piscou, desviando os olhos do extrato bancário para abrir a aba de notificações. Era um e-mail. O remetente trazia o logotipo sóbrio e imponente das Kingsley Enterprises. Com o coração acelerado, ela leu o conteúdo, o departamento de Recursos Humanos a convidava formalmente para uma entrevista de emprego presencial, agendada para aquela mesma tarde. A mensagem explicava que o convite decorria de uma recomendação direta e institucional de peso enviada por seu antigo escritório de urbanismo e arquitetura em Veridia. Celine releu o e-mail três vezes. Que ironia, a maior rival comercial de seu pai estava lhe oferecendo uma boia de salvação. Num ato de puro desespero e impulsividade, contribuídos pelo medo do saldo de um dígito presente em sua conta bancária e pela necessidade de se firmar em algum lugar seguro, ela respondeu imediatamente, concordando em ser entrevistada no horário proposto. Duas horas depois, Celine subia o suntuoso saguão de vidro e aço da sede das Kingsley Enterprises. Ela vestia sua melhor roupa social — um conjunto escuro que comprara em comemoração a ter conseguido sua primeira vaga de estágio no penúltimo ano da faculdade —, mas a insegurança a fazia apertar as alças da bolsa com os dedos trêmulos. Para sua surpresa, o processo correu de forma surpreendentemente técnica. A entrevista aconteceu em uma sala de reuniões privativa e, à medida que os minutos passavam, Celine sentiu o peso em seus ombros diminuir gradualmente. Ela se aliviou ao perceber que os avaliadores a estavam tratando normalmente, focando estritamente em suas habilidades em design, portfólio de projetos e referências internacionais. Não havia olhares de escárnio, cochichos ou a frieza que enfrentara no Café Élysée. Para aquela banca, ela era apenas uma arquiteta vinda de Veridia. A sensação de triunfo e o início de um alívio genuíno desenharam um leve sorriso em seus lábios quando a entrevista terminou. Celine agradeceu aos avaliadores e caminhou em direção aos elevadores do andar executivo, sentindo que, talvez, houvesse uma luz no fim do túnel. A porta do elevador se abriu com um sinal sonoro sutil, mas antes que Celine pudesse dar o primeiro passo para entrar, uma figura alta bloqueou sua saída do corredor. Celine congelou no lugar. O ar pareceu sumir de seus pulmões instantaneamente. À sua frente estava Samuel Sterling. O homem que os tabloides apontavam como seu atual noivo, ostentava a mesma beleza gélida de sempre. Seus cabelos loiros estavam perfeitamente alinhados, caindo de forma milimetricamente despojada sobre a testa, e seus olhos claros possuíam uma expressão afiada e altiva, perfeitamente emoldurada pelas feições aristocráticas e impecáveis que o tornavam um dos herdeiros mais cobiçados da cidade. Vestindo um terno sob medida que exalava o poder de sua família, ele emanava uma frieza quase palpável. Assim que os olhos de Samuel focaram na ruiva, sua expressão de indiferença transformou-se em um profundo e nítido nojo. Ele deu um passo à frente, encurralando-a sutilmente contra a parede do corredor lateral. — Mas o que significa isso? — Samuel disparou, a voz sibilando em um tom baixo, carregado de veneno. — O que você está fazendo aqui, Celine? Não me diga que o seu nível de psicopatia agora inclui me perseguir até as empresas dos nossos parceiros de negócios? Celine engoliu em seco. Ela já havia se conformado com a hostilidade gratuita desde que pisara em Ameria, e o cansaço acumulado daqueles três dias de puro terror psicológico começou a anestesiar sua capacidade de se ferir. Ela não recuou, mas também não respondeu. Ficou apenas olhando para Samuel, com os olhos cansados e uma postura defensiva. O silêncio dela pareceu irritar o loiro ainda mais, que esqueceu momentaneamente o ambiente onde se encontravam. — Você realmente não tem vergonha na cara, não é? Depois de tudo o que você fez... você ainda tem a audácia de andar por aí como se tivesse o direito de viver livre — Samuel continuou, cruzando os braços e fitando-a de cima para baixo com absoluto desprezo. — Deixe-me deixar uma coisa bem clara para você, Sinclair: eu estou contando os segundos, os malditos segundos, para conseguir acabar de uma vez por todas com esse noivado ridículo que nossos pais inventaram. Eu sinto náuseas só de lembrar que meu nome está associado ao seu. Você é uma vergonha. A crueldade das palavras dele doía, mas a injustiça de ser punida por crimes que nunca cometera causava um desconforto inexplicável em seu corpo. Ela abriu a boca para tentar falar, para dizer que não sabia de nada daquilo, mas sentiu sua bochecha esquerda arder, como uma lembrança do que havia ocorrido quando tentara contar a sua verdade para alguém tão cheio de ódio. Samuel deu mais um passo, apontando o dedo em direção ao rosto dela. — Se eu vir você perto da Sarah, ou perto de qualquer assunto que envolva a minha família novamente, eu juro que… — Acho que você já falou o suficiente, Sterling. A voz grave, profunda e cortante ecoou pelo corredor, quebrando a tensão como um trovão. Dono de uma postura imponente e imperturbável, Liam Kingsley caminhou calmamente até os dois, parando atrás de Celine. — Creio que você saiba que esse assunto não seja apropriado para abordar na minha empresa. — O homem de cabelos pretos falou com uma frieza impressionante, parando por alguns segundos antes de completar — Além do mais, temo que você tenha direcionado sua hostilidade para a pessoa errada. Com um movimento calmo, mas que carregava uma autoridade incontestável, Liam estendeu a mão e colocou-a firmemente sobre o ombro da ruiva, como um gesto claro de proteção que fez a mente de Celine parar.






