Interesse Válido

O som de passos firmes e decididos ecoando pelo corredor interrompeu a atmosfera conspiratória do salão de chá.

Liam Kingsley adentrou o recinto, desfazendo o nó de sua gravata escura com uma das mãos. Aos vinte e cinco anos, Liam já era amplamente reconhecido como um dos empresários mais promissores e brilhantes do país e do mundo.

Fundador de uma gigante independente de tecnologia de ponta e, simultaneamente, o herdeiro direto do império imobiliário das Kingsley Enterprises, ele carregava nos ombros a responsabilidade de manter a família no topo do ecossistema financeiro.

Sua beleza, retratada na severidade de seus traços e nos cabelos escuros perfeitamente alinhados, era acompanhada por uma aura de focar absoluto no pragmatismo.

— Vejo que o comitê de fofocas da tarde está operando em capacidade máxima — Liam comentou com sua voz grave e desprovida de qualquer emoção supérflua, caminhando até o aparador para servir-se de um copo de água.

— Não seja ranzinza, Liam — Valentina bufou, embora houvesse um brilho de admiração nos olhos pela figura do irmão. — Estamos diante de um mistério real envolvendo a herdeira legítima dos Sinclair. Há a possibilidade de alguém estar fingindo ser ela.

Liam bebeu um gole da água, mantendo a expressão perfeitamente neutra. Ele se virou para as duas, deixando claro em seu olhar o quão pouco — ou absolutamente nada — se importava com as intrigas insignificantes, casamentos arranjados ou escândalos de salão que moviam a alta sociedade local.

Para ele, os Sinclair eram apenas concorrentes de mercado previsíveis e, extremamente incompetentes na gestão de governança familiar.

— Meu trabalho ocupa todo o meu tempo, Valentina. Não tenho espaço na minha agenda para o drama semanal da família Sinclair — ele respondeu, ajeitando o punho da camisa social escura.

No entanto, ao notar o vinco de preocupação real na testa de sua mãe e o bico insistente da irmã mais nova, o empresário relaxou minimamente os ombros.

Apenas para fazê-las felizes e encerrar o assunto, ele cedeu ligeiramente.

— Mas... se eu tiver um tempo livre entre as reuniões de conselho e o desenvolvimento da nova inteligência artificial nesta semana, darei uma olhada nessas suspeitas de vocês. Satisfeitas?

Valentina sorriu vitoriosa, e a senhora Kingsley assentiu com um aceno leve de cabeça. Liam despediu-se das duas e subiu as escadas em direção à ala leste da mansão, onde ficava seu escritório particular.

O escritório de Liam era um santuário de minimalismo tecnológico e eficiência.

Paredes de vidro blindado ofereciam uma visão panorâmica e imponente das luzes da cidade que começavam a se acender sob a noite de chuva, enquanto três monitores de alta definição exibiam linhas de código e gráficos financeiros flutuantes.

Ele sentou-se em sua cadeira de couro preta, buscando o silêncio necessário para finalizar um relatório de fusão das Kingsley Enterprises, quando o telefone fixo de linha criptografada, — a ramificação que lidava estritamente com os assuntos da empresa de sua família — começou a tocar.

Liam estendeu a mão e atendeu no segundo toque.

— Kingsley — respondeu, direto.

— Senhor Liam, boa noite. Desculpe incomodá-lo diretamente a esta hora — a voz de seu assistente executivo sênior da holding imobiliária soou limpa do outro lado da linha.

— Mas o departamento de Recursos Humanos acabou de me consultar e eles estão em um impasse absoluto, sem saber como proceder com uma situação peculiar.

— Vá direto ao ponto — Liam ordenou, digitando algo em seu teclado com a mão livre.

— Recebemos um currículo para a nossa área de arquitetura. O documento veio com uma recomendação direta e de peso institucional de uma de nossas empresas parceiras de tecnologia e urbanismo baseada em Veridia. O perfil técnico é impecável, pós-graduação de excelência, estágio concluído com louvor. O problema, senhor, é o nome na ficha. O currículo pertence a Celine Sinclair.

Liam parou de digitar instantaneamente. Seus dedos pairaram sobre o teclado mecânico por um segundo inteiro.

A menção àquele nome, pela segunda vez em menos de duas horas, atiçou uma curiosidade que raramente era despertada por elementos externos ao seu trabalho. A conversa breve que tivera com sua mãe e sua irmã no salão de chá piscou em sua mente como um ponto de interrogação dourado.

Veridia?

— Uma indicação de Veridia? — Liam repetiu, a voz mantendo o tom controlado, mas seus olhos fixando-se no reflexo da chuva no vidro.

— Sim, senhor. O RH está temeroso devido à... bem, à notoriedade negativa que o nome da senhorita Sinclair carrega. O currículo é perfeito para a função que está aberta desde o início do ano e não há porquê duvidar de uma empresa parceira, mas eles temem que a Sinclair tenha usado o poder de sua família para falsificar suas referências, já que não há registros da mesma ter um diploma de graduação. — O assistente respirou, diversos cenários de crise ao contratar a Sinclair passando por sua mente. — Eles gostariam de saber se devem descartar a ficha sumariamente.

Liam inclinou-se para trás na cadeira, processando os dados disponíveis.

Se a Celine Sinclair que destruíra a própria reputação estava na cidade há anos se envolvendo em escândalos, por que haveria um rastro profissional perfeitamente documentado, com cartas de recomendação legítimas de um país vizinho, emitido justamente nas últimas semanas?

É claro que os Sinclair tinham poder o suficiente para falsificar esses registros. Mas levando em consideração os ideais antiquados de Hugo Sinclair, Liam duvidava que o homem permitiria sua filha trabalhar.

Agora ele entendia porque sua mãe e irmã estavam tão interessadas no drama da família Sinclair.

— Não descartem — Liam determinou, a voz fria e cortante. — Diga ao RH para incluir o nome dela no processo seletivo vigente. Quero que meu assistente pessoal participe diretamente da banca de avaliação. Avaliem a candidata como qualquer outra pessoa. Analisem o conhecimento técnico, a postura e a veracidade das competências. Ignorem o sobrenome, tanto para o lado positivo quanto para o negativo. Se ela for qualificada, passará para a próxima fase.

— Entendido, senhor. Farei os arranjos imediatamente.

— Mais uma coisa — Liam acrescentou antes que o funcionário pudesse desligar. — Mantenha isso sob sigilo absoluto. Não quero que a gerência dos Sinclair ou qualquer pessoa da alta sociedade saiba que estamos avaliando essa candidatura.

— Sim, senhor. Boa noite.

Liam desligou o aparelho, mas não retornou ao relatório de fusão. Ele girou a cadeira de frente para a janela, observando o chuvisco açoitar o vidro temperado.

Seus pensamentos estavam focados na assimetria de informações daquele caso.

Com um movimento rápido, ele pegou seu celular pessoal e discou um número direto que pouquíssimas pessoas possuíam. O número do chefe de inteligência e segurança de sua empresa.

A linha foi atendida no primeiro bipe.

— Senhor Kingsley?

— Preciso de um levantamento completo e minucioso, nível de varredura profunda — Liam comandou, o olhar fixo no horizonte luminoso da cidade. — Quero que você investigue cada pegada digital, transação bancária, registro acadêmico e rastro migratório de Celine Sinclair no país de Veridia nos últimos cinco anos. Quero datas, fotos e registros de presença física. Descubra exatamente onde essa mulher esteve a cada minuto. Quero os resultados parciais na minha mesa amanhã assim que eu chegar.

— Entendido, senhor. Começarei a varredura imediatamente.

Liam encerrou a ligação e guardou o aparelho no bolso.

Olhando para a noite escura e chuvosa, o homem deu um meio sorriso enquanto absorto em seus próprios pensamentos.

Parece que agora, ele tinha um novo interesse que ia além de seu trabalho.

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