Mundo de ficçãoIniciar sessãoO trajeto de táxi até uma das áreas mais nobres da cidade pareceu arrastar-se por uma eternidade sufocante.
Pela janela embaçada, Celine observava a transição abrupta da paisagem urbana: o concreto cinzento e os galpões industriais das proximidades do aeroporto gradualmente davam lugar a alamedas arborizadas, vitrines reluzentes de grifes internacionais e edifícios de mármore imponentes, cujas fachadas reluziam mesmo sob o dia nublado. Era o lar da velha elite, um lugar que, anos atrás, ditava com mão de ferro cada aspecto de suas roupas, de sua postura e de suas companhias. Quando o veículo finalmente estacionou em frente ao Café Élysée, um misto de nostalgia e cautela contraiu os músculos de seus ombros. O estabelecimento conservava exatamente a mesma fachada de estilo parisiense de meia década atrás: os toldos de tecido escuro e impermeável, as mesas de ferro batido dispostas na calçada e os garçons de colete escuro que transitavam com passos milimetricamente ensaiados. Aquele café era o tribunal invisível da alta sociedade. Se algo de relevante acontecia nos bastidores das grandes empresas ou nos salões de festas, as paredes do Élysée ecoavam primeiro. Celine pagou o motorista com uma nota amassada, respirou fundo e desceu do carro, puxando a alça de sua mala de rodinhas. Assim que empurrou a pesada porta de vidro e madeira, o aroma familiar de grãos de café torrados e baunilha a envolveu, despertando memórias de tardes em que se escondia ali após as aulas do colégio para desenhobreak de fachadas em seu caderno, imersa em planos de um futuro que agora parecia um emaranhado de nós. O ambiente mantinha o movimento habitual do meio da tarde. Senhoras com joias discretas conversavam em tons amenos, e homens de negócios folheavam relatórios. Celine sequer teve tempo de escolher uma mesa nos fundos ou de acomodar sua bagagem; antes que pudesse dar os primeiros passos em direção ao salão, uma figura de terno impecável cortou sua trajetória com uma rigidez alarmante. Era o maître, um homem cujas feições Celine conhecia desde a infância. No entanto, o olhar cortês que ele costumava direcionar à herdeira dos Sinclair havia desaparecido, substituído por uma severidade fria e impessoal. — Senhorita Sinclair — ele pronunciou o nome dela em um tom baixo, quase um sussurro, mas carregado de uma crueza que a fez dar um passo atrás. — Peço que, por gentileza, retire-se do estabelecimento. Celine piscou, atônita. O sorriso educado que pretendia esboçar morreu em seus lábios. — Como? Jean, sou eu, Celine. Eu acabei de chegar de viagem e gostaria apenas de me sentar por alguns minutos, pedir um café e… — Eu sei perfeitamente quem a senhorita é — Jean a interrompeu, mantendo os braços rigidamente estendidos ao longo do corpo, recusando-se a fazer qualquer contato visual direto. — E as ordens da gerência são explícitas. A senhorita está formalmente banida do Café Élysée. Sua presença não é bem-vinda e não estamos autorizados a prestar-lhe qualquer tipo de serviço. Por favor, evite maiores constrangimentos para si mesma e saia. A humilhação subiu pelas bochechas de Celine como uma queimadura física. Ela olhou ao redor e percebeu que duas mulheres em uma mesa próxima haviam interrompido a conversa, observando a cena com sorrisos de escárnio por trás de suas xícaras de porcelana. O banimento de um lugar público, especialmente daquele nível, era uma sanção reservada a escândalos de proporções catastróficas. — Banida? Sob qual justificativa? Eu não venho aqui há os mesmos cinco anos! — Celine tentou argumentar, a voz subindo um oitavo, mas a postura inflexível do maître deixou claro que não haveria espaço para debates. — Não torne isso mais difícil, senhorita. Saia imediatamente, ou serei obrigado a acionar a segurança privada da rua. Engolindo em seco, com o orgulho estraçalhado e o estômago revirado pela injustiça, Celine deu meia-volta. Ela empurrou a porta de vidro com mais força do que pretendia, arrastando sua mala de volta para a calçada. A humilhação a cegava temporariamente, impedindo-a de raciocinar com clareza. Foi justamente ao pisar no limite da calçada que um sedã preto de luxo freou suavemente junto à guia. A porta traseira se abriu e uma silhueta familiar emergiu. Cabelos loiros perfeitamente alinhados, um casaco de grife sob medida e uma expressão cansada que se transformou em puro choque ao focar na ruiva. Era Sarah. — Sarah! — Celine exclamou, dando dois passos rápidos em direção à amiga, esquecendo por um segundo a ligação telefônica de minutos atrás. O desespero por uma explicação falava mais alto que o bom senso. — Por favor, você precisa me ouvir! Eu acabei de ser expulsa daquele café, eles estão dizendo que eu fui banida, e eu não faço a menor ideia do que está acontecendo! Sarah não recuou. Em vez disso, seus olhos castanhos cintilaram com uma fúria avassaladora, uma intensidade de repulsa que Celine jamais imaginara ver no rosto da pessoa com quem compartilhara toda a sua infância. — Eu mandei você não me procurar mais — Sarah sibilou, a voz trêmula de ódio. — Mas as coisas que você disse no telefone não fazem sentido! Eu estava em Veridia, eu não estive no seu aniversário, eu não… Antes que Celine pudesse terminar a frase, o movimento foi rápido demais para que seus reflexos cansados pudessem prever. O som estalado cortou o ar da tarde. A mão de Sarah atingiu em cheio a bochecha esquerda de Celine com uma força desmedida. O impacto fez a cabeça da ruiva virar para o lado, a pele ardendo instantaneamente. Antes que Celine pudesse processar a dor ou o choque da agressão física, as mãos de Sarah a empurraram pelos ombros com violência. Desequilibrada pela mala e pelo impacto do tapa, os pés de Celine vacilaram na borda da calçada e ela caiu de costas sobre o asfalto áspero da rua, a palma das mãos arranhando-se contra o chão. — Fique longe de mim, sua psicopata nojenta — Sarah cuspiu as palavras com asco, ajeitando o casaco com as mãos trêmulas antes de dar as costas e caminhar a passos firmes para dentro do Café Élysée, a porta fechando-se atrás de si com um tilintar que pareceu uma sentença de morte.






