Todo plano tem seus defeitos

Localizada no ponto mais elevado do condomínio dedicado à elite, a mansão dos Kingsley era símbolo da riqueza e sofisticação multiplicados por gerações.

Quando Valentina cruzou as portas duplas de entrada, deixando seu casaco úmido com a governanta, ela sequer pensou em subir para o próprio quarto.

Seus passos rápidos ecoaram pelo piso de mármore polido em direção ao salão de chá privativo, onde sabia que encontraria sua mãe, a matriarca da família, desfrutando de sua habitual quietude do fim de tarde.

A senhora Kingsley estava sentada em um sofá, com uma postura impecável que os anos de alta sociedade haviam transformado em segunda natureza.

Ela ergueu os olhos cor de avelã — idênticos aos da filha — quando Valentina entrou no recinto com as bochechas ainda levemente coradas pelo frio da rua e os olhos brilhando com a urgência de quem carregava a fofoca mais valiosa da temporada.

— Você não vai acreditar em quem eu acabei de ver na sarjeta, literalmente na calçada do Élysée, mamãe — Valentina disparou, sentando-se graciosamente ao lado da mulher, sem qualquer preâmbulo. — Celine Sinclair…

A senhora Kingsley sequer piscou, mas um suspiro de profundo desgosto escapou por seus lábios perfeitamente pintados antes mesmo que ela pousasse a xícara de porcelana sobre o pires.

— Por favor, Valentina, não me venha falar dessa garota logo agora — a mais velha reclamou, massageando levemente as têmporas com as pontas dos dedos. — Aquela criatura conseguiu ser de uma inconveniência sem tamanhos no clube hoje. Passou por mim sem sequer cumprimentar, ostentando aquela arrogância vulgar que ela desenvolveu, e ainda teve a audácia de armar uma cena com o comitê de eventos por causa de uma reserva de mesa. Ela se tornou uma jovem absolutamente desagradável.

Valentina franziu a testa, ajeitando uma mecha de seus cabelos pretos e lisos atrás da orelha enquanto processava as palavras da mãe.

— No clube? Hoje? Mamãe, tem certeza?

— Claro que tenho certeza, minha filha. Minha memória continua perfeitamente funcional — a senhora Kingsley respondeu em um tom moderadamente ofendido. — É impressionante como aquela menina mudou drasticamente depois daquele acidente de carro anos atrás. Antes disso, ela era uma garota reservada, até um pouco boba, mas depois... virou aquele monstro de egocentrismo!

A senhora Kingsley estalou a língua, balançando a cabeça em desaprovação antes de continuar.

— Mas a culpa, no fundo, é daquele pai dela. Hugo Sinclair é certamente um homem deplorável. Não teve o menor escrúpulo ou respeito pela memória da primeira esposa. Mal a pobre mulher faleceu, ele imediatamente colocou outra dentro de casa. Celine tinha o quê? Uns dez anos na época? Nenhuma criança cresce psicologicamente saudável sendo criada por uma madrasta que claramente só se importa com as aparências e com a própria linhagem.

— Ah, mamãe, não seja injusta com a Isabel — Valentina rebateu de imediato, cruzando as pernas. — Lembro perfeitamente de como a Isabel ficou desesperada e preocupada quando a Celine simplesmente sumiu no mundo anos atrás. Ela até a procurou em todos os hospitais da capital!

A senhora Kingsley soltou uma risada curta, temperada por um cinismo maduro, olhando a filha com um olhar de afeto, com uma pitada de preocupação.

— Oh, minha querida Valentina... seu pai e irmão a protegem tanto que sua inocência permanece intacta — A mulher falou, dando batidinhas na cabeça da filha — Você realmente acredita que as lágrimas que Isabel eram por preocupação pela enteada? Se acontecesse algo com a filha da primeira esposa, quem você acha que seria a primeira suspeita?

Valentina mudou de postura na poltrona, pensando bem, no meio em que viviam, ser uma madrasta não era tão socialmente aceito quanto entre pessoas comuns.

Assim como o parentesco sanguíneo e a ordem de nascimento, a ordem de casamento também era extremamente importante para determinar sua posição na hierarquia estrita do meio em que viviam.

— Ela teria muito mais a perder se Celine nunca mais fosse encontrada — A jovem afirmou, pensativa — Mas, espere um minuto mamãe. Mais cedo, a senhora me contou que viu a Celine no clube quando você foi para o encontro semanal com suas amigas, certo?

— Sim, exatamente.

— Mas o clube fica há mais de 3 horas de distância do Élysée. Como ela poderia arrumar confusão em dois lugares tão distantes e em tão pouco tempo? — Valentina perguntou, tomando um gole da xícara de chá que a governanta havia acabado de trazer e servir para a dupla.

— Que estranho, quando saí de lá, Celine ainda estava presente no clube. Mesmo que ela quebrasse todas as leis de trânsito de Ameria, ela nunca seria capaz de chegar no Élysée antes de você.

— Então! — Valentina concordou, se aproximando da mãe e assumindo um ar conspiratório — E tem mais, a Celine que vi estava arrastando uma mala com roupas claramente velhas e baratas. Ela ainda parecia confusa, como se não soubesse que Sarah não quer a ver nem cravejada de diamantes.

As duas mulheres se entreolharam em um silêncio repentino e denso.

Algo não fazia sentido.

Se a Celine Sinclair dos escândalos estivera fisicamente presente na cidade, frequentando o clube e infernizando a alta sociedade de forma consistente nos últimos tempos, como a Celine que Valentina e Sarah encontraram mais cedo parecia estar retornando de uma viagem?

Era biologicamente impossível que uma pessoa estivesse em dois lugares ao mesmo tempo.

— Isso é... muito bizarro — Valentina murmurou, sentindo um arrepio incômodo.

— De fato — a senhora Kingsley concordou, os olhos cor de avelã estreitando-se de forma analítica. — Sempre achei a mudança repentina de comportamento daquela garota estranho, mas agora… definitivamente há algo suspeito nessa história.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App