Capítulo 11

Miguel entrou no quarto com um sorriso que eu reconheci de longe: aquele sorriso de quem estava se divertindo às minhas custas. Encostou na porta, cruzando os braços, e eu tive certeza de que era uma armadilha.

MIGUEL: Então… eu chego no corredor e encontro um homem de quase quarenta anos, andando com cara de funeral, depois de jogar flores e chocolates no lixo. Quer me contar o que fez, pequena Fontana?

Revirei os olhos.

“Ah, claro. Agora a culpa é minha porque o Sr. Controle Absoluto não sabe lidar com a palavra “não”.

Miguel riu baixo, se aproximando devagar. Ele parecia se deliciar com a tensão que ficou no ar depois que Ethan saiu daqui todo bravo. Aposto que ele nunca tinha visto o amigo perder a linha daquele jeito.

MIGUEL: Você é incrível. Sério mesmo. Dez minutos com você e ele parece um adolescente rejeitado no baile da escola.

Dei um sorriso torto.

“Que pena que não tenho o troféu para isso.”

Ele puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado, apoiando o braço na beirada da cama como quem não tinha pressa nenhuma.

MIGUEL: Vou ser direto, Ella. Você precisa sair daqui. Não é seguro.

Cruzei os braços, olhando bem nos olhos dele.

“Ah, não me diga. E a solução milagrosa é morar no castelo do Conde Drácula?”

Miguel riu alto.

MIGUEL: Ele vai adorar saber que você chamou o apartamento dele de castelo.

ELLA: Chamei ele de Conde Drácula, Miguel. Presta atenção.

Ele inclinou a cabeça, ainda sorrindo.

MIGUEL: Sabe por que ele quer que você vá para lá? Porque ele se importa, Ella. Ele não é bom em mostrar isso, e olha que hoje ele tentou, trouxe flores, chocolates… para Ethan Ravelli isso é praticamente ajoelhar no chão.

Revirei os olhos de novo, mas algo dentro de mim se mexeu. Droga. Eu não podia deixar Miguel perceber.

“Ele não precisa se ajoelhar. Só precisa parar de achar que pode me mandar. Eu passei a minha vida toda servindo de capacho para todos.

Miguel suspirou, como quem estava cansado do meu orgulho.

MIGUEL: Escuta… você não é do tipo que abaixa a cabeça. Eu sei disso. Mas, dessa vez, tenta olhar além. Não é sobre ele mandar. É sobre você ficar viva. E o único que pode te ajudar a sair de toda essa confusão é ele. O seu irmão está com sérios problemas e colocou você no meio.

Silêncio. Eu odiei o jeito como as palavras dele acertaram. Miguel não tinha aquela voz de deboche agora. Era sério.

“Eu não gosto de dever nada a ninguém.”

MIGUEL: E quem disse que você deve? Ele quer ajudar porque quer você bem. Só isso.

Fiquei quieta por alguns segundos, tentando decidir se dava ou não o braço a torcer. Do lado de fora, ouvi passos pesados no corredor. Aposto que era o próprio Conde Drácula rosnando pela terceira vez no dia.

Miguel percebeu meu silêncio e se levantou, abrindo um sorriso vitorioso.

MIGUEL: Ótimo. Vou dizer que você vai aceitar. Ele vai ficar feliz.

 “Eu não disse nada!”

MIGUEL: Não precisa, pequena Fontana. Eu sei ler olhares.

Ele piscou para mim e saiu, deixando a porta entreaberta. Eu me joguei contra o travesseiro, bufando. Maldito Miguel. Maldito Ethan. Maldito mundo que acha que pode decidir por mim.

“ Porque eu tenho que viver tantas coisas ruins? Por que isso foi acontecer comigo?”

Eu não sei como Miguel fez isso, mas dois dias depois estava dentro do elevador luxuoso do prédio de Ethan Ravelli, que parecia mais caro do que tudo o que já tive na vida. A cada andar que passava, meu estômago se contorcia. Era raiva misturada com cansaço e um medo que eu não queria admitir nem para mim mesma.

Quando as portas do elevador se abriram, dei de cara com Miguel. Miguel abriu os braços como se fosse o anfitrião.

MIGUEL: Bem-vinda ao lar doce lar! Ou, como eu gosto de chamar, a jaula do lobo.

Revirei os olhos, apertando a alça da mochila contra o ombro.

“Uma jaula dourada continua sendo uma jaula, Miguel.”

Ele sorriu como quem não ligava para veneno nenhum e pegou minha mochila da mão sem pedir permissão.

MIGUEL: Anda, pequena Fontana. Vou te mostrar o quarto. Prometo que não tem grades. Ainda.

Dei uma olhada rápida pelo ambiente, esperando ver Ethan aparecer para dar aquele discurso de macho alfa controlador. Mas ele estava lá no fundo, perto do balcão da cozinha, parado, com as mãos nos bolsos e uma expressão que eu não sabia decifrar. Parecia desconfortável. Como se não soubesse o que fazer comigo dentro do território dele.

E eu gostei disso. Muito.

Ele se aproximou devagar, e eu senti os olhos dele percorrendo cada centímetro do meu corpo como se quisesse ter certeza de que eu estava bem. Mas ficou calado. Nada daquele tom autoritário. Nada de ordens. Só silêncio.

Miguel, claro, não deixou passar.

MIGUEL: Que lindo, vocês dois parecendo um casal que brigou e agora não sabe como conversar. Querem que eu acenda umas velas? Coloque uma música romântica?

ELLA: Miguel, cala a boca!

MIGUEL: Olha a intimidade! Ela já manda em mim também. Ethan, meu amigo…

Antes que ele pudesse terminar, Ethan o interrompeu.

ETHAN: Já pode ir Miguel.

Miguel o ignorou e em seguida beijou minha testa de forma irritante. Em seguida saiu rindo de forma debochada.

ETHAN: O quarto é o último à direita.

Olhei para ele, arqueando a sobrancelha.

 “Só isso? Sem discurso? Sem regras? Sem um “não saia daqui sem minha permissão”? Estou decepcionada.”

ETHAN: Já chega de gracinhas Isabella. Só me envolvi com seus problemas porque de certa forma me sinto culpado. Eu te chamei aqui naquela noite… se estivesse em casa nada disso teria acontecido.

“Talvez Miguel tenha razão, o conde Drácula não é tão ruim.”

ETHAN: Senhor escuridão, conde Drácula… o que mais Ella? Vamos, abre a boca. O que aconteceu, ficou sem palavras?

Enquanto o senhor escuridão me repreendia. Miguel e Lia se divertiam no andar de baixo. Todos na expectativa de como íamos nos matar.

“ Porque tanto interesse em mim? Abre o jogo Ethan Ravelli. Seja claro comigo e me diga a verdade. Só assim eu irei confiar em você!”

Ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas fechou de novo. Vi a tensão no maxilar, os punhos cerrados dentro dos bolsos. E, por um segundo, ele vacilou.

ETHAN: Se precisar de algo, estou no escritório no fim do corredor do outro lado.

Fui para o quarto e coloquei minhas coisas na cama. Era tudo muito luxuoso, nada comparado à vida que sempre tive. A minha consciência me castigava.

“Eu estou dependendo dele, mesmo não gostando nem um pouco disso tudo. O que está fazendo Isabella? você não é assim!”

Tranquei a porta do quarto e em seguida entrei no banheiro. Eu queria tirar aquela roupa com cheiro de hospital, mas estava com medo demais para me despir no banheiro de um estranho.

Tranquei a porta, como sempre faço. Estava tão cansada que nem percebi os detalhes daquela tecnologia absurda. O banho quente escorreu pelo meu corpo, trazendo um pouco de alívio, mas não o suficiente para silenciar a tempestade na minha cabeça.

Enrolei-me na toalha e respirei fundo antes de girar a maçaneta. Só que ela não girou. Tentei de novo, com mais força. Nada. Apertei o painel ao lado da porta, toquei na tela como se aquilo fosse ajudar. Um bip soou, vermelho.

“Não, não, não…”

O pânico tomou conta de mim. Comecei a bater com força. A respiração acelerou, os olhos se encheram de lágrimas e o som dos meus próprios gritos ecoou naquele espaço luxuoso.

“Socorro! Tem alguém aí? Me tira daqui! Pelo amor de Deus!”

Bati mais forte. O coração parecia que ia explodir. Estava trancada, sozinha, enrolada numa toalha, e a sensação de vulnerabilidade foi como um soco no estômago.

Ouvi passos apressados no corredor, depois a voz grave dele.

ETHAN: Ella? O que houve? O que está acontecendo?

Minha garganta doía, mas respondi entre soluços:

“Estou trancada aqui, senhor Ravelli! Por favor… me ajuda!”

A porta do quarto se abriu com força. Senti a presença dele do outro lado da barreira que me prendia.

ETHAN: Tudo bem, calma. Apenas digite o código que está num cartão na primeira gaveta à sua direita.

Olhei em volta, desesperada. Gaveta? Direita? Meu corpo tremia tanto que nem sabia onde era o quê. A toalha escorregava, minhas mãos estavam molhadas, eu mal conseguia respirar.

“Eu não sei… eu não acho nada! Me ajuda, por favor! SOCORRO!”

O choro tomou conta de mim. Os soluços vinham com tanta força que eu já nem falava direito. Do outro lado, ouvi um barulho seco.

ETHAN: Merda!

O som de algo sendo arrancado me fez parar por um segundo. Ethan não hesitou: socou o painel da porta com as próprias mãos, os fios se soltaram num estalo e, segundos depois, a trava fez um clique.

A porta se abriu de repente. Eu nem pensei. Simplesmente corri para ele.

Me joguei nos braços dele como se minha vida dependesse daquilo. E, naquele momento, dependia. Meu corpo colidiu com o dele, e eu desabei. Senti as mãos grandes segurando firme minha cintura, o calor dele contra minha pele fria, a respiração pesada dele misturada à minha.

ETHAN: Shhh… está tudo bem. Eu estou aqui.

A voz dele era grave, mas suave. Um tom que eu nunca tinha ouvido antes. Eu chorava tanto que mal conseguia falar. Apertei o rosto contra o peito dele, sentindo o tecido da camisa encharcar com minhas lágrimas.

“Eu… eu pensei… eu não conseguia sair… eu achei que…”

ETHAN: Acabou, Ella. Escuta a minha voz: você está segura.

Ele me apertou mais contra si, uma das mãos subiu para minha nuca, os dedos se enrolaram nos fios molhados do meu cabelo. O coração dele batia forte, e, por algum motivo, isso me acalmava.

ETHAN: Respira comigo… isso… devagar.”

Fechei os olhos e tentei seguir o ritmo da respiração dele. Aos poucos, meus soluços diminuíram, mas as lágrimas ainda corriam. Eu odiava isso. Odiava me sentir fraca. Mas naquele instante, no meio daquele desespero, eu só conseguia me agarrar nele.

Quando finalmente consegui erguer o rosto, encontrei os olhos dele. Estavam mais escuros do que nunca, carregados de algo que eu não soube decifrar. Ele também parecia abalado.

ETHAN: Eu não vou deixar nada acontecer com você.” Ele disse baixo, mas com tanta firmeza que eu acreditei. Pela primeira vez, eu realmente acreditei.

Fiquei ali, envolvida pelo cheiro dele, pelo calor dele, pelo silêncio que pesava mais do que qualquer palavra. Um silêncio que dizia tudo.

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