Capítulo 6 - O Mundo Que Criei

Layla

E então, como se o universo tivesse pressa em apagar a sensação ruim, ouvi a buzina curta do carro de Bart no portão.

E o coração, obediente, relaxou.

Bart desceu do carro com aquele sorriso que parece ter luz própria. Abriu os braços, eu fui, sem pensar duas vezes.

— Que saudade de você. — ele sussurrou no meu cabelo — Senti falta do seu caos.

— Eu sou um caos organizado. — brinquei, me afastando um pouco — E você está cheiroso.

— Para combinar com você. — ele segurou meu rosto de leve — Vamos?

Assenti. Sarah balançou os dedos em despedida, com um “me liga” mudo que eu entendi. Soraya soprava beijos de longe, como figurante em novela.

No carro, a cidade começava a acender, janelas virando constelações.

— Você comeu hoje? — Bart perguntou, atento.

— Um biscoito que eu achei numa gaveta. — confessei.

— Isso não é comida, amor. — ele riu — Escolhi um lugar que você vai amar. Prometo carboidratos de verdade.

Ele colocou uma playlist baixa, perguntou de cada animal da ONG pelo nome, como se lembrasse de todos, ouviu minhas fofocas dos voluntários, riu das piadas de Helen que contei de segunda mão. Eu fui relaxando. É impressionante o quanto alguém pode organizar a gente só com cuidado.

No restaurante, ele puxou a cadeira, tirou meu casaco, ajeitou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Coisas simples. Coisas que somam.

— Quase liguei de madrugada. — ele disse, quando as massas chegaram — Fiquei com vontade de te ouvir.

— Por que não ligou?

— Porque você precisava dormir. E eu precisava aprender a ter autocontrole quando o assunto é você.

Corei por dentro, ri por fora. Dei um gole no suco.

— Você viu a mensagem que postaram do evento? — perguntei — Parece que amanhã sai matéria grande.

— Vi. — ele sorriu — E o mundo vai ver também. Eu sei o quanto você trabalha.

— Às vezes parece que não é suficiente.

— Com você, é sempre demais. — ele apertou minha mão em cima da mesa.

Eu ia agradecer quando, por reflexo, peguei o celular para ver a hora. A tela acesa jogou luz no aviso ainda aberto:

— “Não adianta fugir de mim, Layla. Nem a morte vai te libertar de mim.”

Encostei o aparelho com a tela virada para a mesa, rápido demais. Bart percebeu.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não. — respondi, rápido demais também — Só lembrei de um relatório.

Ele me observou por meio segundo, os olhos buscando algo. Depois sorriu, como quem decide acreditar.

— Quer que eu te leve depois pra casa mais cedo?

— Não. — Respirei fundo — Quero aproveitar agora.

O garçom trouxe pão, azeite, e eu foquei em mastigar, conversar, existir ali. Aos poucos, a tensão foi saindo do corpo como água morna. Na hora da sobremesa, Bart pediu nosso clássico tiramisù “para dividir”.

— Quem inventou dividir sobremesa por achar romântico não te conhecia. — ele brincou — Você tem fome de maratonista.

— Eu aceito o título. — ri.

A noite avançou fácil. No caminho de volta, Bart diminuiu a marcha perto de uma praça e estacionou.

— Quero te mostrar uma coisa.

Descemos. Ele me levou até a grade de um canteiro, apontou para um canto de terra recém-reformado.

— Patrocinei essa revitalização com o meu time, mas pedi para deixarem essa plaquinha para você. — ele se abaixou, limpando um pouco de poeira com os dedos. — Espaço de descanso. Projeto Layla Santos.

Fiquei sem ar.

— Você… fez isso por mim?

— Por você, pelas crianças, pelos bichos, pela cidade. — ele deu de ombros — Mas, principalmente, por você.

Joguei os braços no pescoço dele, sem cerimônia, e o beijei. Doce, sincero, com gratidão transbordando.

— Obrigada. — sussurrei, com a testa encostada na dele.

— Qualquer coisa por você. — ele respondeu.

Voltamos para o carro em silêncio bom. Eu estava pronta para me entregar ao sono quando o celular vibrou outra vez. Mesma janela. Mesmo número desconhecido.

Abri, com o coração batendo no lugar errado.

— “Não corra de mim, Layla. Correr só deixa a caça mais bonita.”

Senti a pele do braço arrepiar por baixo do casaco. Olhei para o vidro, e por um instante tive certeza de ver o reflexo de olhos muito azuis numa vitrine distante. Pisquei. Era só o meu próprio medo tentando achar forma.

— Está tudo bem? — Bart voltou a perguntar, gentil.

Eu devia contar? Devia mostrar a mensagem? Abri a boca, fechei. Ele tinha me dado uma praça, um gesto, um carinho desarmante. Não queria jogar essa sombra em cima.

— Estou. — respondi, escolhendo a parte menos pesada da verdade — Só estou exausta.

Ele me levou para casa, encostou o carro, tirou o cinto e segurou minha mão antes de eu descer.

— Se precisar de qualquer coisa, qualquer hora… liga. — Ele beijou meus dedos — Eu estou aqui.

Assenti. Beijei a bochecha dele e saí. Sorri até o portão, como quem usa o sorriso como guarda-chuva. Quando entrei, o corredor estava escuro, e a casa inteira dormia.

No quarto, tomei banho, vesti o moletom mais macio e sentei na borda da cama com o celular na mão. Toquei a tela, reli as mensagens. A primeira, seca. A segunda, pior. Pensei em bloquear. Pensei em responder. Pensei em ignorar.

Antes de qualquer decisão, outra notificação. Agora sem texto. Um único emoji: uma rosa azul.

Não conheço ninguém que mande rosas azuis.

A imagem me atravessou. Um flash da varanda, chuva, voz baixa, proximidade que não devia existir. Eu fechei os olhos, como quem fecha portas por dentro.

— Chega. — falei para o quarto vazio.

Apaguei a luz, encostei o celular virado para baixo na mesinha e me enfiei embaixo da coberta. Fiquei ouvindo minha respiração até ela se ajustar a um ritmo que parecia paz.

Mas o coração… o coração não obedecia. Ele batia num compasso estranho, como se estivesse dividido entre dois mundos… o que é seguro e o que é perigoso, o que é certo e o que, de algum jeito, me acorda por dentro.

Quando finalmente o sono veio, trouxe junto a memória do toque de uma mão que eu não devia lembrar. E uma frase, fria como fio de faca, circulando em volta do meu nome:

— “Não adianta fugir de mim, Layla. Nem a morte vai te libertar de mim.”

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