Mundo de ficçãoIniciar sessãoKaleo
A cidade acorda com a delicadeza de um soco. Do alto da minha torre, observo as artérias de asfalto enchendo de carros, gente apressada, promessas que terão o mesmo destino de todas: o chão. Bebo meu café preto como ácido e visto o terno como armadura. Quando a porta do elevador abre no último andar, meu império já espera com a respiração presa. — Bom dia, senhor Donovan. — a recepcionista sorri com tudo o que tem. — Economize. — Passo sem olhar — Energias e sorrisos. Na sala de reuniões, vinte e dois executivos e apenas uma cadeira que importa. Eu me sento. O restante se acomoda como peças em volta do rei. — Relatórios. — Bato o relógio de pulso no tampo de mármore, três toques — Sem poesia. O CFO começa a falar de projeções. Corto na segunda frase. — Taxa de churn? — Um vírgula seis por cento, senhor. Tendência de… — Aceitável para medianos. — Viro o rosto para o diretor de operações — E nós somos o quê? — Excepcionais, senhor. — Então abaixe para um. — Olho fixo — Em dois trimestres. O diretor de RH pigarreia, o que para mim é um voto de morte. — Senhor Donovan, sobre o downsizing da unidade de Tampa… talvez seja prudente espaçar as demissões. O clima… — O clima? — Sorrio — Quer prever a chuva? Traga nuvens. Quer prever lucro? Traga números. Corte hoje. Ponto. Ele engole em seco. Do outro lado, a diretora de marketing apresenta uma campanha que usa animais fofos para falar de responsabilidade social. O timing me fere e me diverte. — Adorável. — Inclino a cabeça — Mas nós não vendemos filhotes. Vendemos poder. Troque as imagens. Sem coraçõezinhos. Quero aço, vidro, futuro. E um slogan que não faria vergonha a um tirano. — Sim, senhor. O gerente de produto tenta exibir um protótipo. O aplicativo engasga na tela. Duas vezes. O silêncio fica pesado. — Três segundos. — Falo baixo — É o tempo que o mundo nos dá antes de fechar o app. Você me gastou seis com vergonha. — Inclino o corpo — Trinta dias para resolver. Um dia a mais e você não tem crachá. Ele aperta o tablet como se engolisse cascalho. Eu fecho a pasta. — Reunião encerrada. — Levanto — E alguém remarca minha conversa com o procurador-geral. Quero a licitação da Zona Leste sem ruídos. No corredor, Élio me acompanha como um cão que sabe onde o dono morde e onde afaga. — A senhora Margareth confirmou o almoço, senhor. Meia-dia, na cobertura. — Ótimo. — Ajusto a gravata — Traga flores. — As de sempre? — As de sempre. A manhã escorre por contratos e batalhas com luvas. Assino, veto, compro, vendo. Monto e derrubo. Sou eficiente como tempestade que não explica. Às onze e quarenta, me trancam por cinco minutos numa cabine de vidro com respiração de felino, a lembrança de Layla, o cheiro do seu cabelo na chuva, os olhos intensos que me chamam pelo pior de mim. Fecho os punhos até voltar a ser aço. Élio aparece no batente. — O senhor tem uma ligação… pessoal. — Quem? — A senhorita Soraya. Franzo o cenho, impaciente. Pego o telefone no viva-voz. — Fale. — “Senhor Donovan!” — a voz dela derrama doçura — “Queria apenas agradecer pelo apoio no evento da Layla. Foi inspirador ver o senhor lá.” — E daí? — Apoio o queixo nos nós dos dedos. — “E daí…” — ela ri, baixa — “que algumas pessoas nasceram para ganhar, não é? Pensei que poderíamos conversar sobre… colaborações futuras.” — Procure meu time de patrocínios. — Corto — E, Soraya? — “Sim?” — Evite usar meu nome para subir degraus que você não vê. — “Claro, senhor.” Desligo. Sorrio sozinho. Bart escolheu bem as companhias, belos rostos, estômagos vazios. Meio-dia e meia. Fecho o notebook e subo pela escada privativa que leva à cobertura. O apartamento respira silêncio caro. Cheiro de flor fresca, de pão no forno, de casa, uma palavra que eu só uso aqui. — Achou que eu ia deixar você almoçar sozinho? — a voz de Mag chega antes do passo. E está atrasado, mas eu já esperava por isso. Ela está na varanda, casaco de tricô por cima do vestido estampado, cabelo preso num coque torto. Os olhos azuis ainda podem me julgar e me salvar no mesmo movimento. — Eu nunca almoço sozinho quando tenho um general escalado. O atraso não foi proposital. — Beijo sua testa — Como está, Mag? — Eu existo. O resto é bônus. — Ela mede meu rosto — Você fica mais bonito quando não dorme. O pecado fica melhor com olheiras. — Estou treinando para o inferno. — respondo, puxando a cadeira para ela. — Já é sócio. Sentamos. A mesa é simples… sopa, pãezinhos, queijo. Mag desdenha banquetes, sempre disse que fartura posa mal para fotos. — E a menina? — ela pergunta, mexendo o pão na sopa. — Qual delas? — provoco — Eu ando cercado de meninas com intenções pesadas. — A única que te faz falar baixo. — Ela ergue o olhar — Layla. Toco a colher no prato e o metal b**e no fundo. Fico um segundo a mais com o gesto no ar. — Ela segue… — respiro — atrapalhando minha respiração. — Hum. — Mag assente, como quem já sabia — E o rapaz? — O rapaz que usa gel demais? — Inclino o corpo, preguiçoso — Bart. Um idiota com bons modos. Engana a menina. É bom nisso. — E você é bom no quê, Kaleo? — Em tudo que não presta. — Sorrio sem dentes — Inclusive em odiar a pessoa errada. Mag apoia o queixo na mão, atenta. — Diga em voz alta o que só diz nos corredores da sua cabeça. Eu olho além da varanda, por cima da cidade, até onde a memória guarda seu próprio mapa. A frase nasce áspera, antiga, com gosto de sangue seco. — Ela é a razão de eu enterrar meu irmão. Mag fecha os olhos por um instante. O vento move a franja branca dela. Quando ela fala, não há pena nem censura, só esse humor de quem já viu todos os fins do mundo. — Adrian morreu por decisão dele, Kaleo. Amor é decisão. Heróis também erram de cálculo. Você erra de propósito. — Eu não erro. — Afasto o prato, sem fome — Eu escolho. E escolhi transformar a lembrança dela em faca. — E por que não corta? A pergunta pousa entre nós como um pássaro teimoso. Eu rio, baixo. — Porque toda vez que ergo a lâmina, minha mão reconhece um corpo que não quer ferir. — Passo o polegar pelo lábio, compulsivo — E porque eu sempre preferi possuir a destruir. — Ah. — Mag inclina o rosto, satisfeita com a confissão — Agora chegamos ao centro da sua maldição. — Qual delas? — A de amar quem você jurou odiar. — Não confunda obsessão com amor, vó. — Eu não confundo nada. — Ela pega minha mão, pequena dentro da minha — Você é o menino que aprendeu a vencer sozinho. E agora encontrou uma mulher que não se curva. Isso te envenena… e te cura. Fico quieto. Deixo a mão ali, coisa que não faço com ninguém. O telefone vibra no bolso. Eu não olho. Aqui, o mundo espera. — Tem mais. — Mag me encara por cima dos óculos — Você usa o ódio para não admitir que deseja ser perdoado, por não ter salvado Adrian, por não ter sido mais cedo o homem que é agora. — Ela dá de ombros — O destino é sádico, sim. Às vezes condena a gente a amar justamente quem deveria receber nossa bala. Sorrio torto. — Eu sempre preferi facas. Bala é barulhenta. — Facas, então. — Ela mastiga, pensativa — Mas lembre… todo carrasco que vive muito vira guardião de alguma coisa. — Guardião? — Do que ama. — Mag bebe um gole de água como quem termina uma tese — Não adianta se enganar. Eu me levanto, ando até a beira da varanda. Lá embaixo, ônibus espirram água, um cachorro puxa alguém pela coleira, um casal briga em mímica. Eu sou o que nesse caos?






