Capítulo 5 – Entre Dois Mundos

Layla

A chuva da noite anterior ficou martelando no meu telhado como se quisesse compor uma trilha sonora para pensamentos que eu não pedi.

Acordei cedo, antes do despertador, com a garganta seca e a estranha sensação de que alguém tinha passado por dentro de mim e reorganizado as gavetas.

No espelho, dei de cara com meus próprios olhos um pouco mais escuros do que o normal.

— É só cansaço. — falei, prendendo o cabelo com pressa.

Desci para a cozinha e encontrei minha mãe fazendo café, como sempre.

— Dormiu bem? — ela perguntou, virando a panqueca na frigideira.

— Dormi um pouco. O evento foi longo.

— Mas foi bonito. — ela sorriu, orgulhosa — Vi as fotos. Você estava radiante.

— Aquelas luzes fazem milagre. — respondi, tentando rir — E as crianças estavam tão felizes…

Antes que eu terminasse, Helen apareceu com um pijama de estrelas e um pente enroscado no cabelo.

— Alguém viu o meu celular? — perguntou, encarando o vazio como se o aparelho fosse aparecer do nada — Ah, e Layla, a sua cara de “comi o mundo e esqueci de digerir” está belíssima.

— Bom dia pra você também. — ergui a caneca.

Bianca veio logo depois, já vestida como se fosse conquistar o mundo e salto nos pés.

— Preciso da tua assinatura naquele documento da ONG sobre a auditoria. — disse, prática — E parabéns, aliás. A imprensa cobriu bem. Vi teu nome em dois portais.

— Sério? — o estômago deu um salto — Que bom para os animais. Isso ajuda nas doações.

— Ajuda e muito. — Bianca me entregou uma pasta — Só… cuida de descansar, tá? Você está com olheiras de reunião do Senado.

— Amor de irmã é isso. — resmunguei, assinando.

Quando saí de casa, a cidade ainda secava as calçadas com um vento frio. Peguei ônibus, fones, uma playlist que eu sempre uso quando preciso fingir que a vida é simples.

No caminho para a ONG, recapitulei momentos do evento, a alegria das crianças, os cheques assinados, minhas falas no palco… e a sombra dele.

Kaleo.

A lembrança do jeito como ele chegou perto demais, das palavras que ele solta como quem brinca com isqueiro, da sensação contraditória que me deixou elétrica e irritada ao mesmo tempo. Balancei a cabeça, como se pudesse sacudir um nome para fora.

— Não. — sussurrei para mim mesma — Não.

Na ONG, Sarah me esperava no portão com um casaco extra.

— Toma. — ela pendurou nos meus ombros — O vento virou. E você parece que lutou com uma ventania.

— A ventania usa terno e fala baixo. — respondi antes de pensar.

Sarah arqueou uma sobrancelha.

— Ele de novo?

— Ele apareceu, falou besteira, sumiu. Fim. — Empurrei o portão — Não quero dar palco.

— Mas ele sempre arruma o próprio palco. — ela resmungou, caminhando ao meu lado — E você… você pelo menos está bem?

Parei por um segundo, assistindo dois meninos entrarem correndo para ver os filhotes resgatados.

— Estou. — respondi — Só… cansada.

O dia correu como um rio cheio, banho em cachorro assustado, remédio em gato teimoso, reunião com voluntários, ligação para fornecedor. A rotina é um abraço.

Perto do meio-dia, meu celular vibrou. Bart.

— “Amor?” — a voz dele tinha aquele cuidado que esquenta por dentro — “Como você está? Ontem foi lindo, eu fiquei tão orgulhoso de você.”

Sorri sem ver meu reflexo.

— Obrigada. Foi uma loucura, mas deu tudo certo.

— “Eu passo aí às seis pra te levar pra jantar. Você escolhe o lugar, tá?”

— Às seis? — olhei a agenda mental — Fechado.

— “Senti sua falta.” — ele disse, e a frase me desmontou na medida certa.

— “Também senti a sua.” — respondi.

Desliguei mais leve. Sarah, que fingia arrumar uma prancheta perto, fez um “hm” suspeito.

— O príncipe vai te buscar?

— Vem me buscar. — confirmei, rindo — E vai me ouvir falar de ração e boletos.

— Coitado. — Sarah piscou — Vai se apaixonar de novo.

No fim da tarde, Soraya apareceu de surpresa, linda como se o vento fizesse escova no cabelo dela e o sol só batesse na cara em ângulo bom.

— Minha estrela! — me abraçou forte — Vi suas fotos, você estava deslumbrante.

— Mérito do fotógrafo. — respondi, rindo.

— E do coração. — ela apertou minha bochecha — Você tem o dom.

Sarah ficou um passo atrás, observando como quem mede distâncias. Soraya percebeu e abriu um sorriso para ela também.

— Você anda sumida, Sarah.

— Trabalho. — Sarah levantou o queixo — E alergia a perfume caro.

Soraya riu alto, e eu mudei de assunto antes que o ar ficasse estranho.

— Vou me trocar. Bart chega já.

— Ai, que romântico. — Soraya suspirou — Ele é tão… correto.

— Ele é. — respondi, sentindo um calor de gratidão por poder dizer isso sem hesitar.

Sarah cruzou os braços, semicerrando os olhos. Eu a ignorei, porque é isso que a gente faz com as pequenas implicâncias das amigas, a gente ignora e continua amando.

No vestiário, prendi o cabelo, passei batom, respirei. Deixei o celular na bolsa e voltei para a recepção para encerrar o expediente.

Foi quando vibrou de novo. Um número sem identificação.

Abri.

— “Não adianta fugir de mim, Layla. Nem a morte vai te libertar de mim.”

O chão fez um barulho de metal por dentro de mim. O corredor ficou mais estreito, como se as paredes tivessem dado um passo.

— Lay? — Sarah tocou meu cotovelo — O que foi?

— Nada. — guardei o telefone, a pele formigando — Mensagem errada.

— Mensagem errada não usa teu nome. — ela disse, fria.

— É algum trote. — forcei um sorriso — Crianças… sabe como é.

Sarah me encarou mais um segundo do que eu queria. Depois suspirou.

— Se for preciso, eu viro guarda-costas.

— Você já é. — eu disse, e aquilo foi verdade.

Respirei. Varri o corredor com os olhos, como se “o desconhecido que escreve ameaças” pudesse estar encostado em alguma sombra.

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