Mundo de ficçãoIniciar sessãoLayla
A chuva da noite anterior ficou martelando no meu telhado como se quisesse compor uma trilha sonora para pensamentos que eu não pedi. Acordei cedo, antes do despertador, com a garganta seca e a estranha sensação de que alguém tinha passado por dentro de mim e reorganizado as gavetas. No espelho, dei de cara com meus próprios olhos um pouco mais escuros do que o normal. — É só cansaço. — falei, prendendo o cabelo com pressa. Desci para a cozinha e encontrei minha mãe fazendo café, como sempre. — Dormiu bem? — ela perguntou, virando a panqueca na frigideira. — Dormi um pouco. O evento foi longo. — Mas foi bonito. — ela sorriu, orgulhosa — Vi as fotos. Você estava radiante. — Aquelas luzes fazem milagre. — respondi, tentando rir — E as crianças estavam tão felizes… Antes que eu terminasse, Helen apareceu com um pijama de estrelas e um pente enroscado no cabelo. — Alguém viu o meu celular? — perguntou, encarando o vazio como se o aparelho fosse aparecer do nada — Ah, e Layla, a sua cara de “comi o mundo e esqueci de digerir” está belíssima. — Bom dia pra você também. — ergui a caneca. Bianca veio logo depois, já vestida como se fosse conquistar o mundo e salto nos pés. — Preciso da tua assinatura naquele documento da ONG sobre a auditoria. — disse, prática — E parabéns, aliás. A imprensa cobriu bem. Vi teu nome em dois portais. — Sério? — o estômago deu um salto — Que bom para os animais. Isso ajuda nas doações. — Ajuda e muito. — Bianca me entregou uma pasta — Só… cuida de descansar, tá? Você está com olheiras de reunião do Senado. — Amor de irmã é isso. — resmunguei, assinando. Quando saí de casa, a cidade ainda secava as calçadas com um vento frio. Peguei ônibus, fones, uma playlist que eu sempre uso quando preciso fingir que a vida é simples. No caminho para a ONG, recapitulei momentos do evento, a alegria das crianças, os cheques assinados, minhas falas no palco… e a sombra dele. Kaleo. A lembrança do jeito como ele chegou perto demais, das palavras que ele solta como quem brinca com isqueiro, da sensação contraditória que me deixou elétrica e irritada ao mesmo tempo. Balancei a cabeça, como se pudesse sacudir um nome para fora. — Não. — sussurrei para mim mesma — Não. Na ONG, Sarah me esperava no portão com um casaco extra. — Toma. — ela pendurou nos meus ombros — O vento virou. E você parece que lutou com uma ventania. — A ventania usa terno e fala baixo. — respondi antes de pensar. Sarah arqueou uma sobrancelha. — Ele de novo? — Ele apareceu, falou besteira, sumiu. Fim. — Empurrei o portão — Não quero dar palco. — Mas ele sempre arruma o próprio palco. — ela resmungou, caminhando ao meu lado — E você… você pelo menos está bem? Parei por um segundo, assistindo dois meninos entrarem correndo para ver os filhotes resgatados. — Estou. — respondi — Só… cansada. O dia correu como um rio cheio, banho em cachorro assustado, remédio em gato teimoso, reunião com voluntários, ligação para fornecedor. A rotina é um abraço. Perto do meio-dia, meu celular vibrou. Bart. — “Amor?” — a voz dele tinha aquele cuidado que esquenta por dentro — “Como você está? Ontem foi lindo, eu fiquei tão orgulhoso de você.” Sorri sem ver meu reflexo. — Obrigada. Foi uma loucura, mas deu tudo certo. — “Eu passo aí às seis pra te levar pra jantar. Você escolhe o lugar, tá?” — Às seis? — olhei a agenda mental — Fechado. — “Senti sua falta.” — ele disse, e a frase me desmontou na medida certa. — “Também senti a sua.” — respondi. Desliguei mais leve. Sarah, que fingia arrumar uma prancheta perto, fez um “hm” suspeito. — O príncipe vai te buscar? — Vem me buscar. — confirmei, rindo — E vai me ouvir falar de ração e boletos. — Coitado. — Sarah piscou — Vai se apaixonar de novo. No fim da tarde, Soraya apareceu de surpresa, linda como se o vento fizesse escova no cabelo dela e o sol só batesse na cara em ângulo bom. — Minha estrela! — me abraçou forte — Vi suas fotos, você estava deslumbrante. — Mérito do fotógrafo. — respondi, rindo. — E do coração. — ela apertou minha bochecha — Você tem o dom. Sarah ficou um passo atrás, observando como quem mede distâncias. Soraya percebeu e abriu um sorriso para ela também. — Você anda sumida, Sarah. — Trabalho. — Sarah levantou o queixo — E alergia a perfume caro. Soraya riu alto, e eu mudei de assunto antes que o ar ficasse estranho. — Vou me trocar. Bart chega já. — Ai, que romântico. — Soraya suspirou — Ele é tão… correto. — Ele é. — respondi, sentindo um calor de gratidão por poder dizer isso sem hesitar. Sarah cruzou os braços, semicerrando os olhos. Eu a ignorei, porque é isso que a gente faz com as pequenas implicâncias das amigas, a gente ignora e continua amando. No vestiário, prendi o cabelo, passei batom, respirei. Deixei o celular na bolsa e voltei para a recepção para encerrar o expediente. Foi quando vibrou de novo. Um número sem identificação. Abri. — “Não adianta fugir de mim, Layla. Nem a morte vai te libertar de mim.” O chão fez um barulho de metal por dentro de mim. O corredor ficou mais estreito, como se as paredes tivessem dado um passo. — Lay? — Sarah tocou meu cotovelo — O que foi? — Nada. — guardei o telefone, a pele formigando — Mensagem errada. — Mensagem errada não usa teu nome. — ela disse, fria. — É algum trote. — forcei um sorriso — Crianças… sabe como é. Sarah me encarou mais um segundo do que eu queria. Depois suspirou. — Se for preciso, eu viro guarda-costas. — Você já é. — eu disse, e aquilo foi verdade. Respirei. Varri o corredor com os olhos, como se “o desconhecido que escreve ameaças” pudesse estar encostado em alguma sombra.






