Mundo de ficçãoIniciar sessãoLucas não costumava se impressionar com facilidade.
Frequentava bares, restaurantes e eventos desde muito jovem, conhecia pessoas interessantes o tempo todo e já tinha vivido romances intensos o suficiente para saber quando algo era apenas atração passageira. Mas naquela sexta-feira à noite, ao entrar naquele bar aconchegante com música ao vivo, algo saiu completamente do roteiro.
Foi quando ele a viu.
Helena estava sentada à mesa, levemente inclinada em direção à amiga, ouvindo com atenção enquanto sorria de um jeito contido, quase tímido. Não era um sorriso ensaiado. Era natural. Verdadeiro. Havia nela uma delicadeza rara, algo que não gritava para ser notado — simplesmente era.
Lucas sentiu o impacto de imediato.
Não foi só a beleza. Embora ela fosse linda, com traços suaves, olhar expressivo e uma aura de calma que contrastava com o ambiente movimentado, havia algo mais. Uma presença silenciosa que chamava atenção sem esforço. Ele percebeu que estava observando demais quando Renato cutucou seu braço.
— Cara… você tá encarando.
Lucas riu sem graça.
— É impressão sua.
Mas não era.
Quando decidiu se aproximar da mesa, não foi por impulso. Foi por curiosidade genuína. Ele queria ouvi-la falar, entender aquele brilho discreto nos olhos. E quando finalmente conversaram, teve certeza de que tinha feito a escolha certa.
Helena falava com cuidado, mas quando se sentia à vontade, se mostrava divertida, inteligente, sensível. Lucas gostou do jeito como ela ouvia antes de responder, como se realmente se importasse. Aquilo o encantou mais do que qualquer aparência poderia.
Quando pediu o número dela, não esperava que aceitasse. Viu a hesitação, o conflito silencioso no olhar. Aquilo só aumentou seu respeito. Helena não parecia alguém que distribuía confiança facilmente. Quando ela cedeu, com as bochechas levemente coradas, Lucas sentiu algo próximo de vitória — mas não no sentido comum. Era mais como gratidão.
Nos dias seguintes, trocaram mensagens leves. Nada invasivo. Lucas fazia questão de respeitar o espaço dela, sentindo que Helena precisava disso. Ainda assim, a conversa fluía. Ela ria. Ele percebia. E isso bastava.
Foi numa quarta-feira à tarde que ele criou coragem.
— Helena, eu sei que você tem uma rotina puxada, mas… você aceitaria jantar comigo amanhã? Prometo um lugar tranquilo.
A resposta demorou. Minutos que pareceram longos demais.
Do outro lado da cidade, Helena encarava o celular com o coração acelerado. Não queria ir. Não porque Lucas não fosse gentil — ele era —, mas porque sentia que estava abrindo uma porta que talvez não estivesse pronta para atravessar.
Foi Laura, mais uma vez, quem interferiu.
— Helena, você não vai casar com ele amanhã. É só um jantar. Você merece se permitir.
Depois de muita insistência, Helena aceitou.
Lucas ficou genuinamente feliz quando recebeu a mensagem confirmando.
Escolheu um restaurante elegante, mas acolhedor. Nada exagerado. Queria que ela se sentisse confortável. Quando Helena desceu para encontrá-lo no carro, usando um vestido simples e um sorriso nervoso, Lucas teve certeza de que aquela noite seria especial.
— Você está linda — disse, sincero.
Helena agradeceu, visivelmente constrangida, mas aos poucos foi relaxando. Conversaram sobre infância, sonhos, trabalho. Lucas falou sobre seus projetos, Helena contou histórias da escola, das crianças. Em vários momentos, ela ria com vontade, esquecendo-se — ainda que por instantes — do peso que vinha carregando.
Lucas percebeu isso. Percebeu quando ela se soltava. E gostou de ser parte disso.
O jantar seguia leve quando a porta do restaurante se abriu novamente.
Arthur Montenegro entrou.
Vestia um terno escuro impecável, postura firme, expressão fechada. Ao lado dele vinha um amigo, falando animadamente sobre negócios. Arthur caminhava distraído… até seus olhos cruzarem com uma imagem que fez seu peito travar.
Helena.
Sentada à mesa. Sorrindo. Com outro homem.
O impacto foi imediato e violento.
Arthur parou por uma fração de segundo, tempo suficiente para seu amigo notar.
— Ei, tá tudo bem? — perguntou.
— Claro — respondeu Arthur, rápido demais. — Só pensei que tinha esquecido algo no escritório.
Mentira.
Ele sentiu o maxilar endurecer, o estômago se contrair. Não fazia sentido. Ele não tinha direito algum sobre Helena. Não a conhecia. Não falava com ela há dias. Tinha sido ele quem escolhera se afastar.
Ainda assim, o ciúme veio bruto, inesperado, quase irracional.
Sentaram-se em uma mesa estratégica, de onde Arthur podia vê-la sem ser notado. E, contra toda lógica, ele permaneceu ali. Não conseguia ir embora. Não conseguia fingir que não tinha visto.
Observou cada gesto.
O jeito como Helena inclinava levemente a cabeça ao ouvir o homem à sua frente. O sorriso discreto. A forma como seus olhos brilhavam quando ria. Arthur sentiu algo que não experimentava há anos: desconforto emocional.
— Você tá quieto hoje — comentou o amigo, estranhando. — O jantar tá ruim?
Arthur respirou fundo.
— Só estou cansado.
Mas não estava.
Estava inquieto. Incomodado. Provocado por um sentimento que se recusava a aceitar. Cada vez que o homem à frente de Helena sorria, Arthur sentia um impulso estranho de se levantar, atravessar o restaurante e interromper aquela cena absurda.
Não fez nada.
Limitou-se a ficar.
O jantar dele foi um fracasso. Não prestou atenção na conversa, mal tocou na comida. O amigo percebeu, mas não insistiu. Quando finalmente se levantaram para ir embora, Arthur lançou um último olhar para Helena.
Ela não o viu.
E talvez isso tenha sido o que mais doeu.
Enquanto isso, Lucas se despedia de Helena na porta do restaurante, satisfeito. Não sabia quem era o homem de terno que observava discretamente do outro lado. Não sabia do turbilhão silencioso que tinha causado.
Só sabia que queria vê-la de novo.
E, naquela noite, três destinos seguiram caminhos diferentes… mas perigosamente próximos de se cruzarem outra vez.







