Mundo ficciónIniciar sesiónA sexta-feira à noite chegou trazendo um cansaço diferente para Helena. Não era físico, mas emocional. Ela estava sentada na cama, ainda com a roupa de casa, olhando distraidamente para o celular quando a tela se iluminou com o nome de Laura.
— Amiga, se arruma. Hoje a gente vai sair.
Helena suspirou antes mesmo de responder.
— Laura, eu não tô com cabeça pra isso. Só queria dormir e esquecer a semana.
Do outro lado, Laura não se deu por vencida.
— Justamente por isso você vai sair. Você tá presa demais na sua cabeça. Um barzinho, música ao vivo, conversa boa. Vai ser bom pra você. Vai ser bom pra nós.
Helena ficou alguns segundos olhando para a mensagem. A ideia de sair, sorrir e fingir normalidade parecia cansativa. Mas também parecia melhor do que passar mais uma noite sozinha, sendo invadida por pensamentos e imagens que insistiam em levá-la sempre ao mesmo nome.
— Eu não prometo ficar muito tempo — respondeu por fim.
— Perfeito. Me dá trinta minutos da sua vida. Se não gostar, a gente volta.
Trinta minutos depois, Helena estava pronta. Usava um vestido simples, mas que valorizava sua delicadeza natural. O cabelo solto caía em ondas suaves pelos ombros, e o rosto quase sem maquiagem refletia exatamente quem ela era: natural, doce e discreta.
O bar escolhido por Laura era aconchegante, iluminado por luzes amareladas e decorado com madeira rústica. Um pequeno palco ocupava o centro do ambiente, onde um cantor e um violonista tocavam música sertaneja ao vivo. O som era suave, nostálgico, e atingiu Helena de um jeito inesperado.
Assim que se sentaram, ela sentiu o coração apertar.
A música a transportou imediatamente para sua cidade do interior. As festas simples, os encontros na praça, os domingos em família. Pensou nos pais, nos irmãos, na tranquilidade que sempre encontrava lá. Um nó se formou em sua garganta.
— Essa música… — murmurou, emocionada.
Laura percebeu.
— Te lembra de casa, né?
Helena assentiu, sorrindo com saudade.
— Lembra de quem eu era antes de tudo ficar confuso. Acho que… nas férias eu vou pra lá. Preciso descansar a mente. Respirar outros ares. — fez uma pausa, antes de completar em voz mais baixa: — Talvez tirar o Arthur da cabeça.
Laura não respondeu de imediato. Apenas segurou a mão da amiga por cima da mesa.
— Às vezes, a gente precisa mesmo voltar pra onde tudo começou pra se reencontrar.
Enquanto conversavam, duas presenças chamaram atenção do outro lado do bar. Dois homens altos, bem vestidos, postura confiante, mas sem arrogância. Era o tipo de elegância que não precisava ser exibida. Um deles, de cabelos escuros e sorriso fácil, olhou diretamente para Helena mais de uma vez.
Ela percebeu. E ficou desconcertada.
— Amiga… — Laura murmurou, divertindo-se. — Você tá sendo observada.
— Para com isso — Helena respondeu, corando levemente.
Poucos minutos depois, os dois homens se aproximaram da mesa com educação.
— Boa noite — disse o moreno, sorrindo. — Desculpem a interrupção. Eu sou Lucas, e esse é o meu amigo Renato. A gente estava ali conversando e… bom, resolvemos criar coragem.
Laura sorriu imediatamente, simpática.
— Boa noite. Eu sou a Laura, e essa é a Helena.
Lucas olhou para Helena com atenção sincera, não invasiva. Havia algo gentil no olhar dele.
— Prazer em conhecê-las. Podemos nos sentar um pouco?
Helena hesitou por um segundo, mas Laura respondeu antes.
— Claro, sentem-se.
A conversa fluiu de forma surpreendentemente leve. Lucas tinha 29 anos, era empresário do ramo imobiliário. Renato, de 30, trabalhava com investimentos. Ambos demonstravam educação, bom humor e respeito. Não havia cantadas forçadas, nem olhares invasivos. Apenas conversa, risadas e interesse genuíno.
Helena se pegou sorrindo mais do que esperava. Pela primeira vez na semana, sentiu a mente realmente se distrair. Lucas fazia perguntas, ouvia com atenção, parecia interessado em quem ela era — não apenas na aparência.
— Você é professora, né? — ele perguntou.
— Sou. Educação infantil.
— Dá pra perceber. Você tem um jeito calmo. Tranquiliza quem tá perto — disse ele, sincero.
Helena sentiu o rosto esquentar.
Quando a noite já avançava, Lucas respirou fundo, como quem toma uma decisão.
— Helena… eu gostei muito de te conhecer. De verdade. Se você se sentir confortável, eu adoraria continuar essa conversa outro dia. Posso te ligar?
O silêncio durou apenas alguns segundos, mas para Helena pareceu longo demais. O coração acelerou. Uma parte dela quis recusar. Outra quis aceitar. E, inevitavelmente, a imagem de Arthur cruzou sua mente.
Ela hesitou.
Foi então que sentiu um cutucão discreto por baixo da mesa. Olhou para Laura, que lhe lançou um olhar significativo, quase implorando.
Helena respirou fundo.
— Eu… — começou, sentindo as bochechas corarem. — Tudo bem.
Pegou o celular e passou o número para Lucas, que sorriu satisfeito, mas sem exagero.
— Prometo ser respeitoso — disse ele. — E paciente.
Aquelas palavras soaram como um alívio inesperado.
Ao saírem do bar mais tarde, Helena caminhava ao lado da amiga com pensamentos confusos, mas um pouco mais leves. Talvez não fosse esquecer Arthur tão cedo. Talvez nem quisesse. Mas, pela primeira vez, permitiu-se dar um pequeno passo fora da própria prisão emocional.
E isso, por ora, era suficiente.







