Arthur estava sentado à mesa da cozinha, mas não via o café à sua frente. O vapor subia lentamente da xícara, dissipando-se no ar como os pensamentos que ele não conseguia organizar. O peito apertava de um jeito estranho, dolorido, como se algo estivesse sendo arrancado de dentro dele aos poucos, sem aviso, sem anestesia. Ele levou a mão ao centro do tórax, respirou fundo, tentando ignorar aquela sensação sufocante.
Foi inútil.
As lágrimas começaram a escorrer sem que ele percebesse. Não vieram com soluços nem com barulho. Apenas desceram, silenciosas, pesadas, como tudo o que ele vinha guardando há anos.
— Arthur… — a voz de Dona Maria soou baixa, cuidadosa.
Ele ergueu os olhos, surpreso por ter sido visto naquele estado. Tentou limpar o rosto rapidamente, como se ainda fosse possível esconder alguma coisa.
— Eu tô bem — disse, a voz falhando no meio da frase.
Dona Maria não respondeu de imediato. Apenas puxou uma cadeira e sentou-se à sua frente. O movimento foi lento, respeitoso. D