Capítulo 19

Dante

O pesadelo veio como uma onda, arrastando-me para o passado com uma clareza cruel. Eu estava no carro, as mãos firmes no volante, o ronco do motor um eco distante sob a voz desafinada de Laura, minha esposa, cantando uma música antiga que ela adorava. Seu cabelo loiro brilhava sob a luz do sol poente, e ela virava o rosto para mim, rindo, os olhos verdes cheios de vida.

— Você vai assustar o bebê com esse som — brinquei, a voz leve, um sorriso escapando enquanto a olhava. Era raro me sentir tão leve, tão humano, mas com ela, eu era apenas Dante, não o chefe do cartel.

Laura riu, um som que aquecia meu peito, e virou-se para o banco de trás, onde Luca dormia na cadeirinha, o rostinho tranquilo.

— Ele dorme tão pesado quanto o pai — disse ela, a voz suave, cheia de carinho.

Olhei pelo retrovisor, confirmando que Luca estava bem, mas meu sorriso morreu quando notei um carro preto colado na nossa traseira. As janelas escuras, a velocidade constante — algo estava errado. Meu instinto, afiado por anos no comando, gritou perigo, mas eu não disse nada a Laura. Não queria assustá-la. Em vez disso, pisei no acelerador, o carro ganhando velocidade na estrada sinuosa.

— Dante, por que está indo tão rápido? — perguntou ela, a voz agora tingida de preocupação, os olhos voltando para Luca.

— Acho que estamos sendo seguidos — respondi, mantendo a voz firme, mas meu coração disparava. — Fique calma.

Laura não hesitou. Abriu a bolsa com um movimento rápido, tirando a pistola que sempre carregava, seus olhos endurecendo com a determinação que eu sempre admirara. Peguei minha arma no coldre sob o paletó, e nossos olhares se encontraram — um entendimento silencioso, forjado em anos de confiança.

— O carro é blindado — garanti, tentando tranquilizá-la, mas as palavras mal saíram quando o som dos tiros ecoou, as balas atingindo o metal com estalidos secos. Laura segurou a arma com firmeza, virando-se para proteger Luca, enquanto eu mantinha o volante, acelerando por instinto.

Então, o pneu estourou, o carro sacudindo violentamente. Perdi o controle, o mundo girando enquanto caíamos por um penhasco. O impacto foi brutal, o som de metal retorcido misturando-se aos gritos de Laura. Quando abri os olhos, minha cabeça latejava, sangue escorrendo pelo rosto. Laura estava desmaiada, o cinto a segurando contra o assento destruído. Virei-me para Luca, seu choro cortando o ar, um som que rasgava meu coração. Ele estava vivo, preso na cadeirinha, os olhos arregalados de medo.

— Shh, estou aqui — murmurei, a voz rouca, lutando para me soltar do cinto. Lá fora, vozes se aproximavam, duras, carregadas de intenção.

— Ouço o bebê chorando — disse um homem, a voz fria. — Eles ainda estão vivos.

Meu sangue gelou. Sabia que, se tentasse tirar Laura, não teríamos chance. Com as mãos trêmulas, soltei Luca da cadeirinha, puxando-o para meu peito. Cada movimento era uma agonia, o sangue escorrendo, mas corri, o choro dele abafado contra meu ombro. A floresta ao redor do penhasco era densa, mas os passos dos homens estavam próximos. Então, uma emboscada — sombras surgiram entre as árvores, e antes que eu pudesse reagir, um homem arrancou Luca dos meus braços.

— Não! — gritei, a voz rasgando a garganta, mas o mundo escureceu.

Acordei com um sobressalto, o coração disparado, o corpo coberto de suor. O quarto estava escuro, o silêncio da mansão quebrado apenas pelo som da minha respiração ofegante. Era um pesadelo, mas tão real que eu ainda sentia o peso de Luca nos braços, o desespero de perdê-lo. A cicatriz no meu rosto pulsava, um lembrete do que realmente acontecera naquela noite — Laura não sobrevivera, mas eu conseguira salvar Luca, mesmo que isso tivesse custado tudo. O medo, no entanto, nunca me deixou. Ele era minha fraqueza, minha razão para continuar.

Levantei-me, o chão frio sob os pés descalços, e caminhei até o quarto de Luca, movido por um instinto que não podia ignorar. Abri a porta com cuidado, a luz do corredor iluminando o rostinho dele, tranquilo no sono, o peito subindo e descendo. Toquei a testa dele, aliviado, mas a culpa ainda pesava. Eu não podia protegê-lo de tudo, não podia apagar o passado.

Ao sair, esbarrei em algo — alguém. Emma. Ela estava parada no corredor, os olhos arregalados, o cabelo solto caindo sobre os ombros. Por um instante, o pânico dela espelhou o meu, mas então ela falou, a voz baixa.

— Ouvi um barulho no quarto de Luca — disse, hesitante. — Quis ver se ele estava bem.

Olhei para ela, o coração ainda acelerado, mas agora por outro motivo. Emma se preocupava com Luca, genuinamente. Não era apenas obrigação. Sorri, um gesto raro, quase estranho.

— Só vim ver meu filho — respondi, a voz rouca. — Às vezes, preciso saber que ele está seguro.

Ela assentiu, um leve sorriso surgindo em seus lábios.

— Ver Luca dormir me acalma também — confessou, os olhos suavizando enquanto olhava para a porta do quarto.

O momento era frágil, como se o ar entre nós pudesse se romper com um movimento errado. Olhei para ela, realmente olhei, e vi o carinho em sua expressão, o mesmo que eu sentia por Luca. Sorri novamente, um calor inesperado no peito.

— Então você ama o filho do diabo? — perguntei, o tom leve, quase brincalhão.

Emma riu, um som suave que ecoou no corredor.

— Luca é um inocente — disse ela, os olhos brilhando. — Se dependesse de mim, ele nunca se tornaria o diabo.

Inclinei a cabeça, o tom brincalhão escondendo a dor que suas palavras tocaram.

— Quer tornar meu filho um fraco? — brinquei, mas havia um fundo de verdade na pergunta.

Ela se aproximou, o olhar firme, desafiador, mas com uma suavidade que me desarmava.

— Isso, Dante, você não pode tirar de mim — disse, a voz baixa, mas decidida. — Não pode me impedir de dar amor a Luca.

As palavras dela me acertaram, e por um instante, vi além da garota que me desafiava. Vi a mulher que cuidava do meu filho, que enfrentava o monstro que eu era com coragem.

— Nunca faria isso — respondi, a voz mais suave do que pretendia. Minha mão, movida por um impulso que não controlei, tocou o queixo dela, o polegar roçando a pele macia. Seus olhos se arregalaram, mas antes que eu pudesse parar, inclinei-me, meus lábios roçando os dela, um toque leve, quase etéreo. O sabor dela era doce, proibido, e por um segundo, o mundo parou.

Emma recuou, o rosto corado, o choque evidente. Eu me afastei, o coração disparado, a vergonha misturada ao desejo.

— Precisava sentir o sabor dos seus lábios — murmurei, a voz rouca. — Nem que fosse só uma vez.

Sem esperar resposta, virei-me e caminhei pelo corredor, o peso do que fizera me acompanhando. No meu quarto, deitei-me, o pesadelo ainda vivo, mas agora misturado com a imagem de Emma, seus olhos, seu carinho por Luca. Ela estava mudando tudo, e eu, o homem que controlava o mundo, não sabia como controlar isso.

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