Liguei de novo.
Desligado.
Um mês se passou.
Patrícia sofreu queimaduras.
E, para fazer enxerto de pele nela, Jorge finalmente se lembrou de mim.
— Vai continuar com essa guerra fria? Tem graça isso? Aparece aqui em meia hora. Se a Patrícia ficar com cicatriz, eu peço divórcio por liquidação AA!
Liquidação AA.
Significava calcular, centavo por centavo, tudo o que cada um "investiu" no casamento.
E eu… dona de casa… não tinha nada.
Ele tinha certeza de que eu iria correndo.
Mas ele não sabia.
Eu e o filho que carregava no ventre já tínhamos virado cinzas naquele mar de fogo.
Minha alma tinha acabado de sair da casa.
Ainda não tinha me acostumado com aquilo.
Um fantasma me disse uma vez: se a pessoa que você mais ama sentir sua falta, você consegue sair do lugar onde morreu.
Mas já fazia um mês.
E eu não conseguia nem atravessar a porta.
Simplesmente porque meu marido nunca sentiu minha falta.
A única razão pela qual ele me procurava agora era a pele que ele queria tirar de mim… para a Patrícia.
Sorri.
Amargo.
Se, viva, ele já não se importava…
Imagina agora.
Jorge estava ao lado da cama de Patrícia, desinfetando os curativos.
O olhar dele tinha uma dor que eu nunca tinha visto.
O celular tocou.
Ele olhou de relance e, por um segundo, achou que fosse eu.
Soltou um riso de desprezo.
Mas era uma ligação da corporação.
— O subcomandante virou enfeite? Eu já falei: a Patrícia está queimada. Eu vou ficar aqui com ela. Não me importo com avaliação nem promoção. Pela Patrícia, eu cedo essa chance pra ele.
A ligação não durou nem dez segundos.
Mas foi o suficiente.
Meus olhos arderam.
Descobri ali que não era falta de tempo.
Ele simplesmente nunca quis ter tempo para mim.
Ou melhor…
A única pessoa por quem ele abriria exceção… era a Patrícia.
Ela fez um biquinho, os lábios vermelhos, o rosto bonito, intacto, longe do fogo da cozinha.
— Jorge… será que a Franciely não quer doar a pele e por isso está se escondendo? Não tem problema… se eu não puder casar, fico para sempre na portaria do quartel.
Ao ouvir aquilo, o olhar dele ficou ainda mais duro.
Pela primeira vez, ele pegou o celular e ligou para mim por vontade própria.
Chamou.
Chamou.
Ninguém atendeu.
Desesperado, ele ligou para a minha melhor amiga, Samara.
Samara não deixou nem ele falar.
— Jorge! Onde você estava quando a Franciely estava queimando viva?!
— Você sabia que ela estava grávida de um filho seu?!
Ele riu.
Frio.
E, ali mesmo, abriu o celular para agendar o divórcio.
— Vocês combinaram de mentir pra mim, foi? Eu sou capitão dos bombeiros. Você acha que eu não saberia se tivesse acontecido um incêndio?
A voz dele ficou ainda mais cruel.
— Diz pra ela que, se continuar com essa palhaçada, eu vou me divorciar!
Divórcio…
Mesmo sem coração batendo, senti uma dor apertar meu peito.
Olhei para meu corpo semitransparente e sorri, vazia.
Jorge…
A gente não precisa se divorciar.
Você já está livre há um mês.
Samara chamou ele de animal.
Mas ele foi pior ainda:
— Eu sou um animal? Ótimo.
— Então fala pra ela que, se não aparecer aqui, eu vou tirar a mãe retardada dela do asilo e jogar na rua!
Ele desligou na mesma hora.
Do outro lado da linha, Samara chorava.
— Mãe? Ela não tem mais mãe…
A voz dela quebrou.
— A mãe dela morreu atropelada… indo te pedir ajuda…