Depois da tempestade de paixão, Patrícia adormeceu, exausta.
Não sei por quê, mas Jorge pensou em mim de repente.
Pegou o celular com cuidado e começou a rolar a lista de contatos.
Quando encontrou o meu, ainda com a frase de status "Amo Jorge para sempre", soltou um suspiro de alívio.
E me mandou mensagem, como quem faz caridade:
[Para de drama. Eu não vou mesmo fazer você pagar. Só doa a pele pra Patrícia.]
[Ela ainda é nova. Como vai casar cheia de cicatriz? Volta logo. Tô te esperando no hospital.]
A tela acendia, apagava.
E nenhuma resposta minha vinha.
Como vingança, ele se inclinou e beijou o rosto de Patrícia.
Eu forcei um sorriso.
Patética… mas, ao mesmo tempo, aliviada.
Patética porque…
Aquela Franciely boba de antes teria respondido na mesma hora, feliz da vida.
Jamais imaginaria que aquela "profundidade emocional" repentina era só culpa depois da traição.
E aliviada porque…
Passei a mão na barriga lisa e sorri, pálida.
Filho… ainda bem que você não nasceu nessa família.
Nos dias seguintes, Jorge acompanhou Patrícia para escolher vestido de noiva e alianças.
Mas, na hora de pagar o sinal, o cartão foi recusado.
Todos os bens estavam congelados.
— Como assim?! O que a Franciely fez com o cartão que eu dei pra ela?!
Eu só senti impotência.
Que cartão?
Depois de casados, senha de banco, do celular, até do cartão do mercado… ele nunca me contou.
Fora os mil reais mensais, eu não tinha acesso a mais nada.
E agora ele me culpava.
— Patrícia, eu preciso ir atrás dela. Me espera no hospital.
— Tá bom, Jorge. Vai rápido.
Ele saiu apressado.
Patrícia levantou da cama logo em seguida e começou a procurar algo na bolsa.
Quando Jorge chegou em casa, ficou em choque.
Do quarto pequeno, aconchegante e iluminado, restavam só cinzas e paredes queimadas.
Ao olhar aquele chão carbonizado, senti como se estivesse queimando de novo.
Meu corpo encolheu sozinho.
A dor, o desespero de sentir a pele derreter, voltaram com força.
— O que diabos aconteceu aqui?!
Pela primeira vez, vi pânico de verdade nos olhos de Jorge.
Nesse momento, o celular dele vibrou.
[Liquidação do Divórcio AA às 16h. Compareça pontualmente.]
Uma esperança estranha brilhou no olhar dele.
No caminho para o tribunal, ele ligou para a corporação.
— Confirma se no dia da premiação a Franciely registrou algum incêndio!
Do outro lado, veio uma risada seca.
— Algum incêndio? Sua querida Patrícia não te contou?
O rosto de Jorge escureceu.
Quem atendeu foi o subcomandante — os dois nunca se suportaram.
— Para com isso e me responde!
— Você não pediu o divórcio AA? Vai lá. Você vai encontrar ela.
O carro derrapou na pista.
— Como você sabe disso?!
— Não só eu. O mundo inteiro sabe.
A ligação caiu.
Jorge dirigiu como um louco até o local do julgamento.
Já tinha muita gente.
Eu flutuava no ar, vendo as pessoas apontarem para a minha foto no telão.
— Essa mulher não tem vergonha. Jorge arrisca a vida por ela e ela ainda pede divórcio.
— Quero ver quanto ela vai ter que pagar.
Apertei os dedos, nervosa.
Foi então que vi Samara, de cabeça erguida, no meio da multidão.
Jorge também a viu.
Mas, antes que pudesse falar com ela, foi chamado ao palco.
O valor da contribuição dele para o casamento apareceu no telão.
2.000.000
A plateia murmurou admirada.
— Além de herói, ainda sustenta a casa.
— A esposa dele é uma parasita mesmo.
Quando chegou a "minha vez", Jorge olhou em volta, procurando por mim.
Não me encontrou.
E, no meio da plateia, Patrícia apareceu — quando deveria estar no hospital.
Com um sorriso satisfeito no rosto.
— Acho que ela sabe que não tem como pagar e nem teve coragem de vir.
— Pena que esse pedido não pode ser cancelado. Pra divorciar, tem que acertar a conta.
Olhei para Samara, andando de um lado para o outro, nervosa.
Casa no nome dele.
Carro no nome dele.
Eu sem emprego.
Como competir?
Quando todos já davam como certo que eu não apareceria…
Samara respirou fundo, os olhos cheios d’água, e subiu no palco.
Acima da cabeça dela, surgiu um número.
Negativo.
A plateia explodiu em gargalhadas.
Mas, segundos depois…
Jorge levantou a cabeça.
E o olhar dele mudou completamente.