Mundo ficciónIniciar sesiónCasados há cinco anos, meu marido bombeiro, que nunca tinha tempo para uma cerimônia, de repente ficou livre. No dia do ritual, eu não conseguia contatá-lo de jeito nenhum. Até que vi um vídeo no grupo da família. Patrícia estava de braços dados com ele, recebendo a medalha de "Herói dos Bombeiros" entregue pessoalmente pelo prefeito. Os familiares no grupo estavam cheios de inveja: [A esposa do Jorge é linda mesmo. Nada a ver com aquela mulher da roça que ele dizia que só servia pra limpar a casa.] [Pois é. Elegante, tranquila. Dá pra ver que é a grande parceira por trás do sucesso dele.] Minhas mãos calejadas tremiam sobre o celular. Eu estava prestes a digitar: eu sou a esposa do Jorge. Foi quando uma explosão de gás sacudiu a cozinha. O calor veio como uma parede de fogo. Mesmo sentindo a pele queimar, eu consegui pegar o celular e ligar para ele, pedindo socorro. Do outro lado, só ouvi a impaciência na voz dele: — O que você tá inventando agora? Eu só falei que ia fazer a cerimônia pra você não criar confusão. Ele continuou, frio: — O pai da Patrícia morreu me salvando. Deixar ela subir no palco como minha esposa é pedir demais? Eu fiquei em choque. E a ligação foi encerrada, sem a menor hesitação.
Leer más— Alô… aqui é o Jorge. A mãe da Franciely ainda está no asilo?— Cuidem bem dela. Eu vou buscá-la mais tarde.Cuidar da minha mãe era a única "reparação" que ele conseguia imaginar.Mas a resposta da enfermeira fez algo dentro dele morrer de vez.— Eu já te disse da outra vez… a mãe da Franciely não está mais aqui.— F-foi pra onde?— Ela morreu num acidente de carro. Bem na porta do quartel dos bombeiros. Jorge… você não sabia?O celular escorregou da mão dele.Jorge ficou olhando para o nada.Samara não aguentou. Correu e deu um tapa na cara dele.— Seu animal!A voz dela tremia de ódio.— A mãe da Franciely tinha a mente de uma criança de sete anos! Não entendia nada! Mas sabia que tinha que salvar a filha!— Ela achava que você ia salvar a Franciely! Até o último suspiro, caída na poça de sangue, ela chamava o seu nome!Meu peito apertou com violência.Eu queria correr até minha mãe.Mas, presa àquilo, eu não conseguia sair dali.Naquele momento, a liquidação do divórc
Aquelas palavras caíram como um raio.Jorge arregalou os olhos, sem acreditar.Franciely… morta?— Impossível! No dia do casamento eu não recebi nenhum chamado de incêndio! Ela não pode estar morta!Wilson soltou uma risada amarga, cheia de desprezo.— Você não recebeu. Mas a sua Patrícia recebeu.O silêncio ficou pesado.— Se ela tivesse avisado a gente um pouco antes… só um pouco antes…Wilson cerrou os punhos.Eu abaixei os olhos.Sim.Só alguns minutos antes.Talvez eu tivesse sobrevivido.Mas foram justamente aqueles minutos de atraso proposital que me fizeram morrer sufocada na fumaça.— Ela queria muito viver. Se arrastou, toda queimada, até a porta… mas não conseguiu sair.A voz dele falhou.— Ninguém aguentaria chegar até ali… a não ser uma mãe.Samara chorava enquanto tirava algo da bolsa.O ultrassom.Oito semanas.— Ela queria te contar isso no casamento! Mas você mentiu pra ela do começo ao fim!— Você só queria a Patrícia! Por isso afastou ela de prop
O clima na plateia mudava a cada segundo.Olhavam para os números no telão, agora em silêncio, convencidos.Samara soltou uma risada fria e avançou:— Jorge, você lembra que, quando casaram, disse que ia amar a Franciely pra sempre?— Então era isso? Dar mil reais por mês e deixar ela viver nessa miséria era amor?— Olha direito o que você tá devendo pra ela!Jorge levantou a cabeça, atordoado.Faltavam pouco mais de vinte mil para o valor chegar aos dois milhões que tinha aparecido antes.De repente, ele lembrou de algo.Os lábios começaram a tremer.— Não… não é possível…— Cinco mil setecentos e oitenta e seis… esse número te diz alguma coisa?!Samara já chorava.Os olhos vermelhos, cheios de dor por mim.— Suas mensalidades por três anos! Dezessete mil trezentos e cinquenta e oito! Cada centavo foi juntado por ela!— Pra pagar seus estudos, ela emagreceu sete quilos em seis meses!No telão, minha imagem apareceu de novo.Bares.Lojas de conveniência.Barracas de chu
As pessoas na plateia começaram a reclamar:— Isso é obrigação de mulher casada. Por que cobrar por isso?— O homem trabalha fora, a mulher cuida da casa. Não é o natural?O funcionário do tribunal sorriu e perguntou com calma:— Contratar babá custa dinheiro?— Custa.— Contratar faxineira custa dinheiro?— Custa.— Contratar cuidador custa dinheiro?— Custa!Ele então concluiu:— Se custa, é porque tem valor. Então por que, depois do casamento, o trabalho da mulher — principalmente da dona de casa — passa a ser tratado como se não valesse nada?O lugar ficou em silêncio.Mas dava para ouvir soluços baixos.Ninguém sabia de onde vinham.Talvez de cada mulher ali que já tinha se anulado em silêncio.Ao ouvir aquele choro, eu sorri.Eu me casei com Jorge querendo ser feliz.Mas, no fim, só ele foi.Patrícia, irritada com o público que já não xingava, bateu o pé e apontou para o valor que ainda restava sobre a cabeça de Jorge.— E o resto desse dinheiro? Isso não dá pra neg
— Como isso é possível?!— Como eu posso dever tanto dinheiro pra Franciely? Ela é só uma dona de casa!— Cadê ela? Por que você subiu no lugar dela? Isso não é justo!Jorge olhava, atônito, o número no telão.O valor que antes mostrava um milhão zerou… e começou a ficar negativo.Ao mesmo tempo, o número negativo acima da cabeça de Samara disparava.Dois milhões.A plateia começou a gritar.— Isso é trapaça! Ela não é a Franciely!— Esse sistema tá errado!Patrícia pegou uma garrafa de água do chão e jogou na direção de Samara.— Que sistema ridículo! Cadê a Franciely? Manda ela aparecer pra pagar!— Isso! Paga! Paga!A multidão entrou no coro.A garrafa voou.Instintivamente, eu me coloquei na frente de Samara.Mas ela atravessou meu corpo.Por sorte, alguém segurou a garrafa no ar.O subcomandante Wilson.— Você tá bem?Samara assentiu, os olhos cheios de lágrimas.Os dois encararam Patrícia, que ainda mantinha aquela expressão arrogante.Funcionários do tribunal
Depois da tempestade de paixão, Patrícia adormeceu, exausta.Não sei por quê, mas Jorge pensou em mim de repente.Pegou o celular com cuidado e começou a rolar a lista de contatos.Quando encontrou o meu, ainda com a frase de status "Amo Jorge para sempre", soltou um suspiro de alívio.E me mandou mensagem, como quem faz caridade:[Para de drama. Eu não vou mesmo fazer você pagar. Só doa a pele pra Patrícia.][Ela ainda é nova. Como vai casar cheia de cicatriz? Volta logo. Tô te esperando no hospital.]A tela acendia, apagava.E nenhuma resposta minha vinha.Como vingança, ele se inclinou e beijou o rosto de Patrícia.Eu forcei um sorriso.Patética… mas, ao mesmo tempo, aliviada.Patética porque…Aquela Franciely boba de antes teria respondido na mesma hora, feliz da vida.Jamais imaginaria que aquela "profundidade emocional" repentina era só culpa depois da traição.E aliviada porque…Passei a mão na barriga lisa e sorri, pálida.Filho… ainda bem que você não nasceu ne
Último capítulo