A cachoeira sempre foi meu refúgio porque não fazia perguntas.
Ela só caía. Com força. Sem piedade. Como a vida.
Eu cheguei lá com o peito em chamas e as mãos trêmulas. Joguei as botas no chão e afundei os pés na água gelada, deixando o choque me ancorar no presente. Precisava sentir algo que não fosse o vínculo pulsando dentro de mim como uma ferida aberta.
Fechei os olhos.
Respirei.
Não funcionou.
O cheiro dele ainda estava em mim. O toque. A presença. A certeza que eu nunca deveria ter permitido.
— Estúpida — murmurei para mim mesma.
Eu sabia como aquilo terminava. Sempre soube.
Passos atrás de mim.
Meu corpo reagiu antes da mente. Ombros rígidos. Mandíbula travada. Coração disparado.
Não precisei olhar para saber quem era.
— Você corre como se estivesse fugindo da própria sombra — disse Darian
— Vai embora.
Não me virei.
— Elara.
— Não me chama assim.
— Precisamos conversar.
— Não precisamos de nada — respondi. — Você já disse tudo o que tinha para dizer no quartel.
O silêncio dele durou mais do que eu esperava.
Quando me virei, ele estava a poucos metros.
Postura firme. Olhar fechado. O Alfa completo, no controle de tudo… menos do que realmente importava.
— Aquilo não foi o fim da conversa — disse ele.
— Foi sim — retruquei. — Você é muito bom nisso.
Em fingir que as coisas não acontecem.
Os olhos dele se estreitaram.
— Não é justo—
— Justo? — interrompi, sentindo a raiva subir de uma vez. — Você quer falar de justiça agora?
Ele deu um passo à frente. Eu não recuei.
— Você é o Alfa — continuei, a voz firme apesar do nó na garganta. — Sua irmã é casada com o meu pai. Você sempre soube.
O ar mudou.
— Soube do quê? — perguntou, mesmo sabendo.
— Dos abusos — cuspi a palavra. — Psicológicos.
Físicos. Anos deles.
O maxilar dele se contraiu.
— Elara—
— Não — cortei. — Você não vai fazer isso. Não vai fingir surpresa. Você sabia quando ainda era apenas o herdeiro. Sabia quando assumiu como Alfa. E mesmo assim… nunca fez nada.
— As coisas não são tão simples—
— São simples, sim — rebati. — Você tinha poder.
Autoridade. Voz. E escolheu o silêncio.
Ele respirou fundo.
— Era uma questão familiar.
— Era uma criança apanhando — corrigi. — Era uma Ômega sendo quebrada todos os dias.
O vínculo entre nós reagiu. Não como desejo. Como dor.
— Você nunca mandou sua irmã parar — continuei. — Nunca me tirou de lá. Nunca impôs limites. Nunca me protegeu.
— Eu não podia interferir diretamente—
— Podia. Você não quis.
O silêncio caiu pesado entre nós.
— Então não venha até mim agora — falei, a voz mais baixa, porém mais afiada. — Não venha fingir que se importa. Você perdeu esse direito há muito tempo.
Ele parecia… abalado. Não culpado. Não arrependido. Mas atingido.
— Eu não imaginava que fosse tão grave — disse, finalmente.
Soltei uma risada amarga.
— Claro que não. Porque você nunca perguntou.
Ele deu mais um passo à frente.
— Você está machucada — disse.
— Estou viva — respondi. — Contra todas as expectativas.
O cheiro dele me atingiu de novo. Minha loba se mexeu, traidora. O corpo reagiu mesmo quando a mente gritava para manter distância.
— O que aconteceu entre nós não muda isso — ele disse. — Não apaga o passado.
— Então por que veio? — perguntei. — Para se sentir melhor consigo mesmo?
— Vim porque o vínculo despertou.
— O vínculo não te absolve.
Ele ficou muito perto agora. Perto demais.
— Olha para mim — pediu.
— Não.
— Elara.
— Não faz isso — sussurrei. — Não mistura coisas que você nunca teve coragem de enfrentar.
A mão dele tocou meu rosto.
Gentil.
Cautelosa.
Como se eu fosse feita de algo que pudesse quebrar.
Meu corpo reagiu imediatamente. O vínculo explodiu, intenso, violento, impossível de ignorar.
— Isso é real — murmurou ele. — Quer você aceite ou não.
— Real não significa justo — respondi, a voz falhando.
Ele inclinou a testa contra a minha. Respiração pesada.
— Eu senti você a vida inteira — disse. — Sem entender o porquê.
— E mesmo assim nunca me viu.
O beijo aconteceu rápido. Forte. Carregado de tudo o que estava preso entre nós há anos. Não foi doce. Foi urgente. Desesperado. Doloroso.
Por um instante, eu esqueci.
Então ele se afastou.
De repente.
Como se tivesse sido puxado para trás.
— Não — disse ele, duro. — Isso não pode continuar.
O frio foi imediato.
— Por quê? — perguntei.
Ele ergueu o olhar. O Alfa voltou. A muralha se ergueu.
— Porque você é uma Ômega fraca.
A palavra doeu mais do que qualquer golpe que eu já tivesse levado.
— Repete.
— Você não tem força suficiente para ser uma Luna — continuou. — Não tem presença. Não tem domínio. O vínculo confundiu meu julgamento.
— Você me beijou.
— Foi um erro.
— Você me seguiu.
— Para encerrar isso.
— Então faz — desafiei. — Encerra olhando para mim e assumindo o que realmente é.
Ele desviou o olhar.
— Esqueça o que sentiu — disse. — Esqueça o que aconteceu.
— Você não consegue — respondi. — E sabe disso.
Ele se virou.
— Não volte a me procurar — falou, sem olhar para trás. — E eu farei o mesmo.
E foi embora.
Fiquei ali, sozinha, com a água caindo, o vínculo pulsando e a certeza cruel se formando dentro de mim.
Darian não era apenas o Alfa que me rejeitava.
Era o Alfa que sempre esteve presente… e escolheu não me salvar.
Caí de joelhos.
— Deusa da Lua — sussurrei. — Se esse é o destino… ele é cruel demais.
A cachoeira continuou caindo.
E eu entendi, pela primeira vez, que amar Darian talvez fosse a maior punição que eu poderia receber.