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Capítulo 5 — Migalhas

Voltei para a casa coletiva quando a noite já tinha se fechado por completo.

O quarto era pequeno. Limpo. Silencioso demais.

Deitei na cama sem tirar a roupa. O corpo exausto, a mente em guerra. Sempre que fechava os olhos, sentia o gosto dele, o peso da rejeição, a violência contida no “você não é suficiente”.

Virei de lado.

Nada.

O vínculo pulsava como um aviso constante, uma presença que não me deixava esquecer.

Quando adormeci, foi raso. Fragmentado. Acordei antes do sol, com o peito apertado e o gosto amargo da ansiedade na boca.

Levantei.

O refeitório ainda estava quase vazio. Peguei café preto, forte, e sentei sozinha, tentando convencer meu corpo de que aquilo era só mais um dia.

Não era.

— Elara?

Levantei o olhar.

Um homem do setor administrativo segurava uma pasta fina, expressão neutra demais para aquela hora.

— Sim.

Ele estendeu o documento.

— Transferência oficial. Você foi realocada para o esquadrão pessoal do Alfa.

O mundo inclinou.

— O quê?

— Ordens diretas — disse. — Deve se apresentar em trinta minutos para iniciar o treinamento.

Minhas mãos tremeram ao pegar o papel.

Assinatura de Darian.

Alfa da Luar de Ferro.

O café virou ácido no estômago.

— Deve haver algum erro — falei.

— Não há.

Ele se afastou como se aquilo não fosse nada.

Fiquei sentada, olhando para o papel, tentando entender como o homem que tinha me mandado esquecer tudo agora me puxava para mais perto.

Troquei de roupa às pressas.

Trinta minutos depois, estava diante do escritório dele.

Bati.

— Entre.

Ele estava de pé, de costas, mãos apoiadas na mesa.

— Isso é algum tipo de jogo? — perguntei assim que a porta fechou.

Ele se virou devagar.

— Não.

— Então explica — exigi, erguendo o papel. — Porque ontem você disse que eu não era suficiente. Hoje me coloca no seu esquadrão pessoal?

— Feche a porta — disse.

— Já está fechada.

— Tranque.

Obedeci, o coração acelerando sem pedir permissão.

— Você não deveria estar aqui — ele continuou. — Mas está.

— Ótima explicação.

Ele se aproximou.

— Eu tentei manter distância.

— Tentou pouco — retruquei.

O silêncio entre nós era pesado demais.

— Eu não sei como lidar com isso — disse, finalmente. — O vínculo… você… isso não estava nos meus planos.

— E mesmo assim você me trouxe para perto.

— Porque se você vai ser a Luna… — ele parou. — Vai precisar ser treinada.

Engoli em seco.

— Então agora eu sirvo?

— Não distorça.

— É exatamente isso que você está fazendo.

Ele deu mais um passo. Perto demais.

— Eu não quero você fraca — disse. — Não quero uma Luna quebrável.

— E você acha que me quebrar vai me fortalecer?

O olhar dele escureceu.

— Você aceita ou não?

Era isso.

Não um pedido.

Uma escolha cruel.

— Aceito — respondi.

Ele pareceu surpreso.

— Mesmo sabendo que eu vou exigir mais do que você pode dar?

— Eu sobrevivi a coisas piores.

O vínculo explodiu entre nós. Forte. Urgente.

A mão dele segurou minha cintura antes que eu pudesse pensar. A outra prendeu meu rosto.

O beijo não foi gentil.

Foi necessidade.

Passei as mãos pelo peito dele, sentindo cada músculo rígido, cada tensão acumulada. Ele gemeu baixo, como se estivesse lutando contra si mesmo.

— Você disse que não queria — sussurrei contra a boca dele.

— Eu disse muita coisa ontem.

Ele me prensou contra a mesa. O corpo dele inteiro dizia o contrário das palavras.

— Isso é errado — murmurei.

— Eu sei.

— Você é o Alfa.

— Eu sei.

— Então para.

Ele não parou.

As mãos dele exploraram minhas costas, minha cintura, como se precisasse memorizar cada centímetro. O vínculo ardia, exigente.

Quando ele se afastou, o fez bruscamente.

— Chega.

Fiquei ali, respirando com dificuldade, o corpo traindo tudo o que eu tentava manter firme.

— É isso? — perguntei. — Você me puxa, me beija e depois manda parar?

— Eu não posso perder o controle — disse. — Não com você.

— Já perdeu.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Se você ficar — falou —, eu vou te treinar pessoalmente. Combate. Resistência. Liderança. Até você se tornar uma Luna aceitável.

A palavra cortou.

Aceitável.

— Mesmo que doa — acrescentou.

Olhei para ele.

— E se eu não for o suficiente?

— Então você aprende a ser.

Aceitei.

Porque migalhas ainda eram algo.

Saímos do prédio sem trocar mais nenhuma palavra.

O campo de treino ficava atrás do quartel, um espaço amplo de terra batida, cercado por estacas de madeira e marcas antigas de combate. Não havia espectadores. Só nós dois.

Darian tirou a jaqueta, jogando-a sobre um banco.

— Sem armas — disse. — Quero ver como você se move.

Assenti.

Ele entrou na área primeiro, postura aberta, pés firmes no chão. Não parecia alguém prestes a lutar — parecia alguém que já tinha vencido antes mesmo de começar.

— Ataque — ordenou.

Avancei.

Ele desviou com facilidade, segurou meu braço e me puxou para frente, usando meu próprio impulso contra mim. Caí de lado, o ar escapando dos meus pulmões.

— Levanta.

Me ergui rápido demais, ainda desequilibrada.

Ele veio em seguida. Um golpe direto, controlado, mas forte o suficiente para me fazer recuar dois passos. Defendi como pude, os braços queimando com o impacto.

— Você pensa demais — disse. — O inimigo não espera.

Tentei um chute baixo. Ele pulou para trás, girou o corpo e me derrubou de novo, dessa vez com a perna presa na minha.

— E você se anuncia — continuou. — Seus ombros entregam o movimento.

Rolei no chão e levantei com raiva.

Ataquei outra vez, mais rápido, mais agressiva. Acertei o braço dele. Pouco, mas acertei.

Ele sorriu de canto.

— Melhor.

Veio para cima de mim com força total agora. Cada golpe era preciso, sem desperdício. Ele não queria me machucar — queria me cansar.

Conseguiu.

O suor escorria pelas minhas costas. A respiração ficou irregular. Mesmo assim, continuei.

— De novo — ele disse.

Avancei fingindo um ataque frontal e mudei o eixo no último segundo. Ele percebeu tarde demais. Meu ombro acertou o peito dele. Não o derrubei, mas o fiz recuar.

— Você aprende rápido — murmurou, antes de me pegar pela cintura e me lançar ao chão.

Dessa vez, caí de costas. Ele ficou sobre mim, um joelho ao lado do meu quadril, mão firme prendendo meu pulso acima da cabeça.

— Morta — disse, baixo.

O vínculo pulsou forte demais.

Usei a perna livre para empurrá-lo, girei o corpo e consegui escapar, ainda que por pouco. Levantei arfando, as mãos tremendo.

— Você luta com raiva — ele observou. — Isso te dá força… e te deixa vulnerável.

— Então me ensina a controlar — retruquei.

Ele me encarou por um segundo longo demais.

— É isso que estou fazendo.

Avançou mais uma vez. Dessa vez, não recuei. Aguentei. Defendi. Cedi quando precisava e ataquei quando vi brechas.

Quando ele me derrubou de novo, eu já estava rindo sem fôlego.

— O quê? — perguntou.

— Você ainda vai se arrepender de ter começado isso.

Ele estendeu a mão para me ajudar a levantar.

— Provavelmente.

Segurei.

E naquele instante, eu soube:

ele não estava me poupando.

Estava me preparando para sobreviver a qualquer coisa.

Mesmo a ele.

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Andrômeda Starmeadow Amei que tensão entre eles
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