Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu estava atravessando o pátio do quartel quando ouvi meu nome.
— Elara. A voz era firme. Autoritária. Não precisei olhar para saber de quem vinha. Mesmo assim, olhei. Darian estava parado perto da entrada do setor de treinamento. Braços cruzados, expressão dura, postura impecável. Como sempre. O Alfa da alcateia Luar de Ferro não parecia alguém que fazia convites. Parecia alguém que dava ordens. — Venha comigo — disse ele. Não perguntou se eu podia. Não explicou o motivo. Apenas virou e começou a andar. Respirei fundo e o segui. Entramos por um corredor lateral, afastado do fluxo principal do quartel. Ele empurrou uma porta pesada e entrou. A sala de treinamento estava vazia. Nenhum guerreiro. Nenhum instrutor. Nenhum som além do eco dos nossos passos. A porta se fechou atrás de mim. Sozinhos. Darian caminhou alguns passos à frente antes de parar. Ficou de costas por um instante, como se estivesse organizando os próprios pensamentos. Ou talvez apenas escolhendo as palavras mais frias. Eu fiquei onde estava. Não era a primeira vez que ficava perto dele. Mas nunca tinha estado sozinha assim. Era impossível não reparar. Darian era bonito. Não de um jeito suave ou convidativo. Bonito de um jeito duro. Traços marcados, olhar afiado, ombros largos. Um homem jovem, perto dos vinte e cinco anos, mas com a seriedade de alguém muito mais velho. Ele me lembrava meu pai. Não fisicamente. Bram tinha marcas do tempo, fios grisalhos, um cansaço que nunca deixava os olhos. Mas os dois compartilhavam a mesma rigidez. A mesma crença de que sentimentos eram fraquezas que precisavam ser contidas. Não era por acaso que Bram era o Beta da alcateia. Ele combinava com Darian. Sempre combinou. — Você pediu transferência — disse Darian, finalmente, sem me olhar. — Sim. Ele se virou devagar. — Não vai acontecer. Direto. Seco. Como um golpe. — Não cabe ao senhor decidir isso sozinho — respondi. Os olhos dele se estreitaram. — Cabe a mim decidir o que acontece dentro da minha alcateia. — Eu sigo ordens — falei, mantendo a voz firme. Ele deu um passo à frente. — Ordens de quem? — Do meu superior imediato. O silêncio se instalou entre nós. Denso. Carregado. — Ontem à noite — continuei —, o Beta Bram me deu uma ordem clara: pedir transferência do esquadrão que ele comanda. Darian soltou um riso curto. Sem humor. — Bram não tem autoridade para isso. — Então, se a ordem for diferente — respondi —, ela precisa ser dada diretamente a ele. Se o senhor deseja que eu permaneça no esquadrão de rastreamento, a ordem deve partir do Alfa para o Beta. Não para mim. Os olhos dele queimaram. — O esquadrão de rastreamento é comandado pelo seu pai — disse, com desprezo evidente. — E fora dele, você é inútil. Aquilo doeu. Mesmo esperando algo assim, doeu. — Inútil? — repeti. — Você não é uma guerreira — continuou. — Não tem força para combate corpo a corpo. Não lidera. Não impõe respeito. Fora do rastreamento, você não serve para nada. Engoli em seco. — Eu nunca pedi para ser colocada em outro esquadrão específico — retruquei. — Pedi apenas para sair daquele. — Conflitos familiares não são problema meu. — Não são apenas conflitos familiares. — São exatamente isso — ele cortou. — Problemas domésticos não justificam mudanças estratégicas dentro da alcateia. — Então o senhor admite que me manter ali é uma decisão estratégica? — questionei. Ele me encarou por alguns segundos longos demais. — Admito que você só é útil ali. — Mesmo quando o Beta em questão não quer mais me comandar? — Bram é o Beta porque sabe separar dever de sentimento. A amargura subiu rápido. — Ele me expulsou de casa ontem à noite — falei, sem rodeios. Darian não pareceu surpreso. — Você tem dezenove anos. A alcateia pode sustentá-la. Isso não significa que precise continuar vivendo sob o teto dele. — Eu não pedi sustento — respondi. — Pedi um quarto na casa coletiva. Vou trabalhar. Vou me manter. — Isso não muda sua posição no esquadrão. — Muda tudo para mim. Ele deu mais um passo à frente. Estava perto demais agora. Perto o suficiente para eu sentir o cheiro dele. Forte. Dominante. Alfa. Meu corpo reagiu antes da minha mente. E foi aí que tudo saiu do controle. Quando ele estendeu a mão. Não foi agressivo. Não foi brusco. Apenas um toque rápido, talvez para enfatizar a fala. Os dedos dele fecharam ao redor do meu pulso. O mundo pareceu parar. O ar ficou pesado. Meu coração disparou. Um choque atravessou meu corpo inteiro, como se algo antigo tivesse despertado à força. O vínculo. Explodiu dentro de mim. Meu corpo respondeu de um jeito que eu nunca tinha sentido. Calor. Dor. Uma necessidade estranha, desesperada, confusa. Os olhos de Darian se arregalaram por um segundo. Foi o suficiente. Puxei o braço com força e dei um passo para trás. — Não — murmurei. — Elara… — ele começou. — Não encosta em mim. Meu coração estava quase saindo pela boca. Minha loba se agitava dentro de mim, inquieta, confusa, assustada. — Você sentiu — ele disse, em voz baixa. — Não sei do que está falando. — Sentiu, sim. — Não importa — respondi, recuando mais um passo. — Seja o que for, não muda nada. — Muda tudo. — Não para mim. A porta estava logo atrás de mim. Eu precisava sair dali. — Eu vou pedir transferência de novo — falei. — Se não for aceita, pedirei dispensa do esquadrão. — Você não pode simplesmente— — Posso — interrompi. — Meu pai deixou claro que eu não sou mais bem-vinda. Nem em casa, nem sob o comando dele. Se a alcateia quer que eu continue servindo, terá que decidir onde. Darian ficou em silêncio. Por um instante, vi algo diferente no olhar dele. Conflito. Dúvida. Algo perigoso demais para ser reconhecido. Então ele se fechou outra vez. — Saia — disse. Não esperei duas vezes. Abri a porta e saí, o coração batendo forte demais, a cabeça girando. Corri. Corri até a floresta. Corri até a cachoeira. Só parei quando minhas pernas não aguentaram mais. A água rugia diante de mim. Fria. Imensa. Indiferente. Caí de joelhos e fechei os olhos. — Deusa da Lua — sussurrei. — Se isso é um teste… me mostra o caminho certo. O vínculo ainda pulsava dentro de mim. E eu soube, naquele instante, que nada seria simples dali em diante.






