Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio na sala da diretoria era denso.
Pesado.
Quase sólido.
Natasha permanecia de pé, as mãos firmes demais ao redor da bandeja, sentindo o peso do olhar de Dante como se fosse uma mão invisível pressionando sua pele.
Ele não dizia nada.
Apenas observava.
Sem pressa.
Sem gentileza.
Como quem estuda uma peça rara.
— Coloque ali.
A voz veio baixa, seca, carregada de autoridade. Ele nem sequer se deu ao trabalho de olhá-la ao apontar para a mesa.
Natasha avançou.
O ar parecia espesso.
Cada passo exigia esforço.
O tremor voltou.
Não teatral.
Não planejado.
Real.
Quando inclinou a bandeja, seus dedos falharam.
A xícara escorregou.
O estilhaço da porcelana contra o chão cortou o ar como um tiro.
Café se espalhou.
Cacos.
Silêncio absoluto.
O tipo de silêncio que grita.
Natasha congelou.
O coração batia tão alto que ela jurava que todos podiam ouvir.
— Você é sempre assim desastrada… — Dante disse, finalmente erguendo os olhos — …ou isso é um talento especial?
Ela sentiu o calor subir pelo pescoço, invadir o rosto, descer pelo peito.
— Eu… me desculpe, senhor.
Dante a encarou diretamente agora.
Sem expressão.
Sem piedade.
— Desculpas não limpam incompetência. — inclinou-se levemente para frente. — Aqui não é lugar para gente despreparada. Saia.
Rafael deu um passo instintivo.
— Dante—
— Eu disse saia.
A palavra veio como uma ordem militar.
Final.
Inegociável.
Natasha se ajoelhou rapidamente, recolhendo os cacos.
Os dedos tremiam.
O peito apertado.
Os olhos arderam.
Ela manteve a cabeça baixa.
Levantou-se sem olhar para nenhum dos dois.
E saiu.
No corredor, apenas quando dobrou a esquina, soltou o ar que prendia.
Apoiou a mão na parede.
Fechou os olhos.
Então deixou escapar um soluço.
Pequeno.
Quebrado.
Perfeito.
Um choro frágil, calculado.
Passos se aproximaram.
— Natasha, espera.
Ela virou devagar.
Os olhos estavam marejados.
O rosto levemente corado.
Respiração irregular.
— Eu não quis… — a voz falhou no ponto exato. — Eu só queria fazer certo.
Rafael sentiu algo se contrair dentro do peito.
— Ele foi um idiota. Isso não vai ficar assim.
Ele tocou seu braço.
Com cuidado demais.
Natasha não recuou.
Nem avançou.
Permaneceu.
Uma permissão silenciosa.
— Está tudo bem… — ela murmurou. — Eu só… fiquei surpresa.
Rafael sustentou o olhar dela.
— Não deveria ser tratada assim. Por ninguém.
Natasha baixou os olhos.
Um gesto pequeno.
Que significava muito.
E Rafael soube:
Já estava envolvido.
Sozinho novamente na sala da diretoria, Dante permanecia parado, encarando um ponto inexistente.
A discussão com Rafael não importava.
O erro.
O café.
Nada disso importava.
O que permanecia era outra coisa.
O olhar dela.
Não era olhar de medo comum.
Não era submissão.
Era controle mascarado de fragilidade.
Ele conhecia aquele tipo de olhar.
E odiava não lembrar de onde.
Chamou sua secretária.
Helena entrou minutos depois.
Bonita.
Impecável.
Disponível.
Ela fechou a porta.
Não houve conversa.
Dante a puxou pela cintura com força suficiente para colar seus corpos.
A boca encontrou a dela num beijo duro, dominador, sem gentileza.
Helena arquejou contra seus lábios.
As mãos dele desceram pelas costas, possessivas, urgentes.
Roupas sendo afastadas.
Respirações descompassadas.
Corpos se chocando.
Era sexo.
Mas não intimidade.
Era descarga.
Controle.
Uma tentativa inútil de silenciar algo que se agitava por dentro.
Helena tentou aprofundar o beijo.
Dante não permitiu.
Manteve tudo rápido.
Direto.
Bruto.
Quando terminou, afastou-se primeiro.
— Pode ir.
Helena o encarou por um segundo.
Queria mais.
Nunca tinha.
Vestiu-se em silêncio.
— Um dia você vai perceber que está sempre tentando fugir de alguma coisa.
Ele não respondeu.
Horas depois, Dante atravessava o estacionamento do prédio.
Cansado.
Irritado.
E então viu Rafael.
Encostado próximo à saída.
Falando com uma mulher.
Dante diminuiu o passo sem perceber.
Rafael se inclinou.
Beijou a mulher.
Um beijo lento.
Íntimo.
O estômago de Dante se contraiu violentamente.
Sem entender por quê.
A mulher virou levemente o rosto.
A luz atingiu seu perfil.
Natasha.
O mundo pareceu inclinar.
O beijo terminou.
Ela sorriu.
Um sorriso pequeno.
Satisfeito.
Dante sentiu algo antigo, esquecido, perigoso, despertar dentro de si.
Instinto.
Possessividade.
Alerta.
Não era desejo comum.
Era reconhecimento.
Como se uma peça errada tivesse acabado de entrar no tabuleiro.
E, naquele instante, Dante Aragon soube:
Aquela garota não era um acidente.
Não era irrelevante.
Ela era um problema.
E problemas sempre exigiam atenção.
O jogo não estava apenas começando.
O jogo já estava sujo.
E ambos ainda não faziam ideia de quão fundo estavam prestes a afundar.







