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Capítulo 4- O Encontro

Natasha acordou antes do despertador.

O quarto ainda estava mergulhado na penumbra suave da madrugada, e o teto branco foi a primeira coisa que seus olhos encontraram.

Piscou algumas vezes, sentindo a consciência despertar antes do corpo. Não houve transição suave entre sono e vigília. Foi como ser puxada abruptamente para a realidade.

O estômago estava apertado.

A mente, em marcha.

Hoje.

A palavra não precisava de complemento.

Virou de lado, sentou-se na cama e deixou os pés tocarem o chão frio. O arrepio que percorreu seu corpo não tinha relação apenas com a temperatura.

Tomou banho em silêncio.

Deixou a água quente escorrer pelas costas, pelos ombros, pelo cabelo, tentando — inutilmente — dissolver a tensão acumulada sob a pele. Fechou os olhos, respirou fundo, apoiou as mãos na parede do box.

Você pediu por isso.

Você escolheu isso.

Vestiu-se com método.

Blusa neutra.

Calça de corte simples.

Sapatos confortáveis, mas elegantes.

Nada que chamasse atenção.

Nada que sugerisse fragilidade.

Elegância contida.

Profissional.

Funcional.

Invisível.

Prendeu o cabelo em um coque baixo, passou um pouco de hidratante no rosto, nada de maquiagem pesada. Quanto menos marcante, melhor.

Na cozinha, o celular vibrou sobre o balcão.

Laura.

Boa sorte hoje, tive que sair cedo não consegui esperar voce acordar...

Cabeça fria. Pé no chão.

E lembra: você é mais forte do que pensa.

Natasha encarou a mensagem por alguns segundos.

O canto da boca se ergueu, quase imperceptível.

Digitou:

Eu sei.

Mas, ao guardar o celular, sentiu o peso diferente da frase.

Você é mais forte do que pensa.

Não soava como certeza.

Soava como aposta.

O caminho até a Aragon Corp pareceu mais curto do que no dia anterior. Ou talvez fosse sua mente que já estivesse lá, atravessando corredores invisíveis, antecipando rostos, desenhando cenários.

Quando o prédio surgiu à frente, imponente, cortando o céu com suas linhas retas e frias, Natasha sentiu um aperto no peito.

Vidro.

Aço.

Poder.

Atravessou a porta giratória e foi recebida novamente pelo ar gelado, pelo cheiro padronizado, pelo silêncio coreografado.

Desta vez, o crachá em seu pescoço não era provisório.

Funcionária.

A palavra reverberou dentro dela como um sino distante.

Foi conduzida até o setor designado, recebeu um rápido tour, um computador, uma mesa.

Colegas sorriram.

Apresentaram-se.

Disseram nomes.

Ela assentiu.

Sorriu de volta.

Mas nada ficou.

Natasha estava em outro lugar.

Observava.

A disposição das mesas.

Quem falava com quem.

Quem evitava quem.

Quem parecia mandar sem ter cargo formal.

Aqui, pensou, ninguém errava em público.

Sentou-se, ligou o computador, organizou alguns papéis vazios de significado imediato.

Mas não por muito tempo.

Porque, para ela, tudo era potencialmente útil.

Um e-mail esquecido.

Um comentário solto.

Um nome repetido.

A vingança não era explosão.

Era construção.

O telefone tocou.

O som cortou o ambiente como uma lâmina.

Natasha demorou um segundo a mais do que o aceitável antes de atender.

— Aragon Corp, bom dia.

— Natasha? — a voz feminina soou objetiva, sem emoção. — Pode levar um café para a sala da diretoria, por favor?

O coração falhou um compasso.

Sala da diretoria.

— Claro.

Desligou devagar.

Sentiu os dedos levemente dormentes.

Nada grave.

Nada visível.

Mas suficiente para denunciar que algo dentro dela se preparava para o impacto.

Levantou-se.

Na copa, seus movimentos foram automáticos.

Filtro.

Pó.

Água quente.

Xícaras.

Bandeja.

O cheiro forte do café subiu e invadiu seus sentidos.

Alerta.

Predador farejando território inimigo.

Você está no controle.

Repetiu como um mantra.

O corredor até a diretoria parecia mais estreito do que deveria.

Mais longo.

Mais silencioso.

Cada passo ecoava alto demais em sua cabeça.

Parou diante da porta de vidro fosco.

Inspirou.

Expirou.

Bateu.

— Pode entrar.

A voz masculina veio grave, firme.

Natasha abriu a porta.

A sala era ampla, sofisticada, fria.

Mesa grande.

Cadeiras caras.

Janelas enormes.

Rafael estava ali, de pé, próximo à janela, conversando com alguém fora do seu campo de visão.

E então…

Ela o viu.

Dante Aragon.

Sentado à cabeceira.

O tempo perdeu coerência.

O ar ficou denso.

Os sons se afastaram.

O mundo encolheu até caber apenas naquele homem.

O rosto que ela conhecia de fotos.

De reportagens.

De pesadelos.

Os olhos escuros se ergueram lentamente.

Fixaram-se nela.

Sem pressa.

Sem surpresa.

Como se a estivesse esperando.

Natasha sentiu um frio atravessar seu corpo de cima a baixo.

As pernas ameaçaram falhar.

O café na xícara tremeu quando deu um passo à frente.

Rafael lançou-lhe um olhar curioso.

— Obrigado — disse ele.

Natasha não ouviu.

Porque Dante Aragon continuava olhando.

Como se estivesse desmontando cada camada dela.

Como se enxergasse algo que ninguém mais via.

O silêncio durou segundos demais.

Natasha colocou a bandeja sobre a mesa.

Cuidou para não derramar.

Cuidou para não correr.

Cuidou para não olhar rápido demais.

Quando ergueu o rosto novamente, os olhos dele ainda estavam nela.

Fixos.

Intensos.

Avaliadores.

Não havia hostilidade.

Nem simpatia.

Havia interesse.

E aquilo era pior.

Dante inclinou levemente a cabeça.

Um gesto pequeno.

Quase educado.

Mas carregado de significado.

Natasha entendeu, com uma clareza aterradora:

Ela não era mais invisível.

Não era mais apenas a moça do café.

O predador tinha notado sua presença.

E, naquele instante silencioso, enquanto sustentava o olhar do homem que jurara destruir, Natasha soube:

O jogo acabara de mudar.

E nada, absolutamente nada, seria simples a partir dali.

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