Mundo ficciónIniciar sesiónO apartamento de Natasha parecia menor naquela noite.
Ela deixou a bolsa sobre o balcão estreito, largou as chaves ao lado e tirou os sapatos sem pressa, como se cada gesto fosse uma tentativa inútil de desacelerar por dentro.
Caminhou até a janela.
A cidade pulsava abaixo dela: faróis cruzando ruas, prédios iluminados, vidas acontecendo em camadas invisíveis. Gente indo e vindo sem imaginar quantos monstros se escondiam atrás de fachadas elegantes.
Rafael Montenegro.
O nome soava errado.
Mas planos, Natasha sabia, nunca sobreviviam intactos ao primeiro contato com a realidade.
Apoiou a testa no vidro frio por um instante.
Não era uma distração.
Sentou-se no sofá, cruzou as pernas, deixou o corpo afundar nas almofadas gastas enquanto a mente assumia o comando.
Rafael era sócio.
Interesse genuíno.
— Você pode ser útil — murmurou, quase como uma ordem.
Não havia espaço para culpa.
Ou, pelo menos, era assim que precisava ser interpretado.
Porque a alternativa — admitir que alguém a intrigara — era perigosa demais.
O celular vibrou em sua mão.
Laura.
Natasha atendeu.
— Então? — a voz veio direta, sem rodeios. — Sobreviveu ao covil?
— Mais do que isso — Natasha respondeu, andando lentamente pela sala. — Entrei.
— Entrou como
Ela contou.
Do outro lado da linha, silêncio absoluto.
— Natasha… — Laura falou por fim, com cuidado. — Você está falando de se aproximar de um dos donos da empresa do homem que você quer destruir.
— Eu sei exatamente onde estou pisando.
— Isso é uma linha vermelha gigante.
Natasha parou diante da janela novamente.
— Todo esse plano é uma linha vermelha.
— E se você se envolver demais?
— Não vou.
— Todo mundo acha que não vai.
Natasha respirou fundo.
— Eu não estou buscando amor. Estou buscando acesso.
— E se ele perceber que está sendo usado?
Um pequeno sorriso surgiu no canto da boca de Natasha.
— Homens como ele confundem atenção com conquista. Confundem silêncio com submissão.
— Mesmo assim… promete que não vai se perder nisso.
Natasha encarou o próprio reflexo no vidro.
Os olhos que a encaravam não eram mais os de uma garota.
— Eu já me perdi há muito tempo, Laura. Agora eu só sei exatamente onde estou.
Na manhã seguinte, o telefone tocou cedo.
Número desconhecido.
Natasha atendeu sem alterar o tom.
— Alô?
— Natasha? Aqui é o Rafael.
O coração deu um pequeno salto, traiçoeiro.
— Bom dia.
— Espero não estar atrapalhando.
— Não está.
Houve uma pausa breve.
— Falei com o RH. A vaga é sua.
Natasha fechou os olhos por um segundo.
Controle.
— Que eficiência.
— Gosto de resultados rápidos. Especialmente quando reconheço potencial.
— Agradeço.
— Pensei que poderíamos comemorar. Um almoço. Algo fora do ambiente corporativo.
Ela deixou o silêncio durar o tempo exato para parecer ponderação.
— Um almoço é aceitável.
— Ótimo. Te busco ao meio-dia.
Quando a ligação caiu, Natasha permaneceu imóvel no centro da sala.
O plano avançava.
E planos rápidos demais costumavam cobrar preços altos.
Ao meio-dia, Rafael chegou pontualmente.
Terno bem cortado.
Natasha observou tudo.
O tipo de homem que abria portas sem pedir.
No restaurante, elegante sem ser ostentoso, ele puxou a cadeira para ela.
— Obrigada.
— Você parece confortável em qualquer ambiente — ele comentou, avaliando-a com interesse. — Isso é raro.
— Aprendi cedo a observar antes de agir.
— E agora? Está observando… ou agindo?
Ela sustentou o olhar dele um segundo a mais do que o necessário.
— Depende de quem está à minha frente.
Rafael riu, genuinamente.
Natasha falou pouco.
Nada explícito.
Sedução era matemática emocional.
Quando se despediram, ele segurou sua mão.
— Tenho a sensação de que você vai bagunçar muita coisa lá dentro.
Natasha sorriu, suave.
— Espero que você goste de bagunça.
Ao se afastar, o peso real do que estava fazendo caiu sobre seus ombros.
Ela não estava apenas entrando na Aragon Corp.
E, pela primeira vez desde que começara esse plano, Natasha entendeu algo perturbador:
A vingança não exigia apenas ódio.
Controle emocional absoluto.







