Um monumento à frieza.
Vidro espelhado, aço polido, ângulos retos, superfícies que refletiam o mundo sem jamais absorver nada dele. Nenhuma curva acolhedora. Nenhum detalhe hugmano. Tudo ali fora projetado para comunicar poder.
E domínio.
Natasha parou por um instante diante da fachada, observando seu próprio reflexo distorcido nos painéis de vidro.
Você pertence aqui.
Você merece estar aqui.
Você vai entrar.
Atravessou a porta giratória sentindo o peso simbólico daquele gesto. O ar-condicionado era forte demais. O cheiro, uma mistura cara de limpeza e perfume corporativo. O saguão era amplo, silencioso, com funcionários caminhando em trajetórias perfeitamente calculadas.
Saltos firmes.
Coluna ereta.
Rosto neutro.
Por dentro, o ódio pulsava como um coração paralelo.
Cada passo a levava para mais perto do homem que destruíra sua família.
Dante Aragon.
O nome ecoava em sua mente como um mantra sombrio.
O dono do carro.
O dono do dinheiro.
O dono da impunidade.
Você não pode falhar.
Repetiu isso enquanto se aproximava da recepção, entregava o documento, recebia um crachá temporário.
O celular vibrou dentro da bolsa quando aguardava o elevador.
Ela já sabia quem era antes mesmo de olhar.
— Natasha… — a voz da mãe saiu fraca, carregada de preocupação. — Você chegou bem?
Natasha fechou os olhos por um breve segundo.
— Cheguei, mãe.
— Eu sonhei com você essa noite.
O coração de Natasha apertou, apesar de tentar manter a mente blindada.
— Sonhei que você estava andando num lugar muito alto… e sem corrimão.
— Mãe…
— Filha, esse caminho que você escolheu… isso não vai te devolver o que perdeu.
Natasha apertou a alça da bolsa.
— Não é sobre devolver.
— Então é sobre quê?
Ela hesitou.
— É sobre não deixar que fique impune.
Silêncio.
— Vingança não traz descanso, minha filha. Só muda o tipo de dor.
O elevador apitou, abrindo as portas.
— Eu te ligo depois — disse Natasha, encerrando antes que a voz da mãe quebrasse sua armadura.
Dentro do elevador, encarou o próprio reflexo no espelho.
Você é forte.
Você é fria.
Você está no controle.
A entrevista aconteceu em uma sala ampla, minimalista demais para parecer confortável.
A mulher do RH era educada, mas distante. Olhos que mediam, catalogavam, julgavam.
Natasha respondeu tudo corretamente.
Experiência.
Disponibilidade.
Comprometimento.
Mas não sorriu o suficiente.
Não se mostrou empolgada.
Não se curvou.
Percebeu o momento exato em que perdeu pontos.
— Entraremos em contato — disseram ao final.
Palavras bonitas para quase nunca.
Natasha saiu da sala com a mandíbula tensa, irritada consigo mesma.
Talvez tivesse sido rígida demais.
Talvez tivesse deixado transparecer que não precisava da vaga.
Estava tão absorta nesses pensamentos que não percebeu a aproximação de alguém.
Até esbarrar.
— Ei…
O impacto foi leve, mas suficiente para desequilibrá-la.
Mãos fortes seguraram sua cintura.
Por reflexo, Natasha ergueu o olhar.
O homem era bonito de um jeito perigoso. Bem vestido, barba por fazer, sorriso fácil demais para um lugar como aquele. Olhos claros que pareciam observar mais do que deveriam.
— Me desculpa — ele disse. — Você se machucou?
— Não — respondeu Natasha, percebendo que ele ainda não a soltara.
O contato se estendeu um segundo a mais do que o necessário.
— Rafael Montenegro.
Ela avaliou rápido.
— Natasha.
— Prazer, Natasha.
Um sorriso.
— Só Natasha? — ele provocou.
— Por enquanto.
O canto da boca dele se curvou, divertido.
Trocaram poucas frases.
Ela mencionou a entrevista.
Ele comentou, como quem não quer nada:
— Sou um dos sócios daqui.
O estômago de Natasha deu um pequeno salto.
Mas por fora, apenas ergueu levemente as sobrancelhas.
— Então você manda bastante.
— O suficiente para ajudar alguém interessante.
A engrenagem girou na mente dela.
Mudou o corpo.
Mudou o tom.
Deixou os ombros relaxarem.
Baixou levemente a voz.
Sorriu.
— Alguém interessante merece ao menos um café, não?
Rafael gostou.
— Conheço um lugar aqui perto.
No café, Natasha deixou que ele conduzisse a conversa.
Ouviu sobre contratos.
Expansões.
E, casualmente, sobre Dante Aragon.
— Um gênio dos negócios — Rafael comentou. — Frio, mas eficiente.
Natasha apenas assentiu, guardando cada palavra.
Tocou o braço dele ao rir.
Sustentou o olhar.
Não prometeu nada.
Sedução era sugestão, não entrega.
Quando se despediram, Rafael parecia decidido.
— Vou conversar com o RH. Você merece uma chance.
Natasha sorriu.
Dessa vez, o sorriso era real.
Ao se afastar, o coração batia acelerado.
Não de medo.
De conquista.
Ela não tinha perdido a vaga.
Tinha encontrado um atalho.
E, sem perceber…
Acabara de colocar o primeiro pé dentro do verdadeiro covil.
E também ao lado de um homem que, em breve, poderia ser sua maior arma…
Ou sua ruína.