Mundo ficciónIniciar sesión
Natasha aprendeu cedo que beleza podia ser uma vantagem perigosa.
E que, quando bem usada, tornava-se uma arma silenciosa — daquelas que não deixam vestígios, não fazem barulho e só revelam seus efeitos quando já é tarde demais.
Aos vinte e quatro anos, chamava atenção sem esforço, mesmo quando tentava não chamar. Havia algo em sua presença que ia além da aparência: uma quietude tensa, um magnetismo discreto, como se carregasse sempre um segredo pesado demais para ser dividido.
Os cabelos longos e castanhos caíam pelas costas em ondas bem cuidadas, quase sempre presos em um rabo baixo quando estava em casa, soltos apenas quando precisava “interpretar” uma versão mais acessível de si mesma. Os olhos castanhos eram vivos, atentos, calculistas. Observavam tudo. Registravam tudo. Havia neles uma vigilância constante, uma desconfiança precoce para alguém tão jovem.
Seu corpo era esbelto, firme, definido por rotina, não por acaso. Natasha treinava sozinha, em horários alternados, evitando academias cheias. Corria antes do amanhecer. Fazia exercícios de força no quarto apertado. Alongava-se religiosamente. Não por vaidade, mas por necessidade. Um corpo preparado significava vantagem. Significava sobrevivência.
Morava em um apartamento alugado no centro da cidade. Um prédio antigo, mal iluminado, com corredor estreito e cheiro permanente de mofo misturado a desinfetante barato. As paredes eram finas demais, a ponto de ser possível ouvir a televisão do vizinho, discussões de casais desconhecidos, portas batendo, passos apressados.
O aluguel era baixo. Barato demais para ser confortável. Mas era o que cabia no orçamento.
Dividia o espaço com Laura, a única pessoa que conhecia todas as suas verdades e, mesmo assim, permanecia.
Laura era prática, direta, sem paciência para ilusões. Tinha o tipo de personalidade que não romantizava sofrimento nem dizia que “tudo acontece por um motivo”. Para ela, coisas ruins aconteciam porque o mundo era cruel. E ponto.
A cozinha era pequena, estreita, com um balcão improvisado servindo de mesa. Naquela manhã, o cheiro forte de café preenchia o ambiente, misturado ao aroma de pão torrado. O sol entrava tímido pela janela manchada, desenhando faixas de luz sobre o piso gasto.
Natasha organizava alguns papéis sobre a mesa: cópias, anotações, endereços, horários, nomes sublinhados. Tudo disposto em ordem obsessiva.
Laura apoiou-se no batente da porta, segurando uma caneca.
— Você vai mesmo levar isso adiante? — perguntou, sem elevar a voz, mas com uma tensão evidente.
Natasha não respondeu de imediato.
Recolheu um dos papéis, alisou a folha como se estivesse endireitando algo torto dentro de si, depois encostou-se na bancada. Cruzou os braços. Inspirou fundo.
— Não é como se eu tivesse outra opção.
A voz saiu baixa, controlada.
— Sempre existe opção — Laura rebateu. — Fugir. Recomeçar em outra cidade. Fingir que nada disso é problema seu.
Natasha soltou um suspiro curto, quase irônico.
— E acordar todos os dias lembrando que ele está livre? — ergueu o olhar. — Não. Isso não é opção.
Laura se aproximou alguns passos.
— Esperar não é o mesmo que se jogar no fogo.
— Às vezes é exatamente isso — Natasha respondeu. Um meio sorriso surgiu, rápido demais, sem alcançar os olhos.
Ela nunca teve sorte no amor. Ou talvez nunca tenha permitido.
Depois do que aconteceu, relacionamentos passaram a parecer distrações perigosas. Pessoas criavam expectativas. Esperavam carinho, entrega, vulnerabilidade. Natasha não podia oferecer nenhuma dessas coisas sem se colocar em risco.
Houve um ex-namorado, anos atrás. Um relacionamento intenso demais, rápido demais, com alguém que confundia paixão com posse. Ele a vigiava, queria saber onde estava, com quem falava, por que demorava a responder mensagens.
Quando ele conseguiu uma bolsa para estudar fora do país, Natasha sentiu alívio.
Não tentou impedir.
Não chorou.
Não pediu para manter contato.
Desde então, nunca mais se permitiu envolvimento real.
Emoções confundiam.
Apego enfraquecia.
E ela precisava de clareza.
Sua família vinha de um lugar simples. Um sítio afastado da cidade, quase uma roça. Estrada de terra, cercas tortas, árvores antigas espalhadas sem organização. A mãe ainda morava lá com a filha mais nova.
A casa era modesta, com paredes descascadas, telhado antigo e móveis herdados de gerações anteriores. Galinhas soltas pelo quintal. Cachorro magro dormindo à sombra. Terra vermelha que grudava no pé e na memória.
E um passado que insistia em não morrer.
Eram três filhas.
Ou eram.
O pai e a irmã mais velha morreram quando Natasha tinha quinze anos.
A lembrança vinha sem aviso.
Sempre do mesmo jeito.
Ela estava no portão naquela tarde, segurando um copo d’água. O sol começava a descer, pintando o céu de laranja. O barulho distante de um motor alto demais chamou sua atenção.
Depois, tudo aconteceu rápido demais e lento demais ao mesmo tempo.
O carro surgiu levantando poeira.
O impacto seco.
O corpo da irmã sendo lançado.
O pai tentando puxá-la para fora da estrada.
O grito que morreu dentro do peito de Natasha.
O mundo girando.
Depois, silêncio.
Um silêncio pesado, espesso, definitivo.
Chamaram de acidente.
Disseram que a estrada era perigosa.
Que o motorista se assustou.
Que Natasha era jovem demais para depor.
Que estava em choque.
Que memória traumatizada não era confiável.
Natasha lembrava de tudo.
Da cor do carro.
Do símbolo na traseira.
Do formato da placa.
Nunca esqueceu.
Nunca confundiu.
Nunca perdoou.
Guardou aqueles números como quem guarda um nome sagrado — ou amaldiçoado.
Durante anos, procurou.
Usou computadores de lan house.
Bibliotecas públicas.
Registros antigos.
Sites obscuros.
Planilhas improvisadas.
Cruzou nomes.
Empresas.
Mudanças de CNPJ.
Transferências de propriedade.
Até encontrar.
O dono do carro.
O homem que jamais foi responsabilizado.
Um CEO poderoso.
Dono de um conglomerado com tentáculos em dezenas de setores.
Um homem acostumado a comprar silêncios, versões oficiais e consciências.
Ela tentou denunciar.
Foi ignorada.
Tentou procurar advogados.
Riram.
Disseram que era impossível.
Que ela não tinha provas.
Que era palavra de uma garota pobre contra um império.
Então Natasha entendeu algo fundamental:
Justiça não viria.
Precisaria ser construída.
— Você ainda pode desistir — Laura disse, mais baixo agora. — Antes de cruzar essa linha.
Natasha colocou os papéis dentro da bolsa, um a um, com cuidado quase cerimonial. Fechou o zíper. Pendurou a alça no ombro.
Ergueu os olhos.
Não havia raiva visível.
Não havia lágrimas.
Apenas determinação.
— Eu não sobrevivi a tudo isso pra viver como se nada tivesse acontecido.
Laura engoliu em seco.
— E se isso te destruir?
Natasha caminhou até a porta.
— Já destruiu. O que eu estou fazendo agora é juntar os pedaços.
Abriu a porta.
O corredor estreito parecia mais escuro do que o normal.
Ao sair do apartamento, sentiu algo que não sentia há anos.
Não esperança.
Não paz.
Propósito.
Ela não buscava justiça.
Não buscava redenção.
Buscava vingança.
E estava disposta a entrar no inferno disfarçada de alguém inofensivo.
A garota educada.
A candidata humilde.
A funcionária invisível.
A moça que passava o café.
Sem que ninguém suspeitasse…
…que por trás do sorriso treinado, caminhava uma mulher que lembrava exatamente da placa daquele carro.







