Mundo ficciónIniciar sesión— Complicado — Enzo murmurou.
— Não gosto dessa palavra.
— Então escolha outra. Perigoso. Sujo. Conveniente demais.
Dante apoiou-se na cadeira.
— Conveniente?
— Antonio é acusado de trair você. Morre antes de ser interrogado. A filha aparece com documentos apontando para um inimigo que já queremos destruir. Parece quase uma história feita para nos distrair.
Dante pensara o mesmo.
O que o irritava era Enzo ter dito em voz alta.
— A menina estava assustada — Dante disse.
— Medo também pode ser encenado.
— Não por ela.
Enzo olhou para ele.
Dante percebeu o erro antes que a frase terminasse de pesar no ar.
Não por ela.
Que certeza era aquela?
Ele não tinha nenhuma.
Sofia Ricci poderia ser exatamente o que parecia: uma jovem enlutada, assustada, inocente, jogada num jogo grande demais para suas mãos pequenas.
Ou poderia ser a arma mais delicada que a Mano Nera já enviara para dentro de sua casa.
O problema era que Dante tinha olhado nos olhos dela.
E havia visto dor.
Não a dor performada de quem tentava comover um inimigo. Dor crua. Raiva verdadeira. Luto ainda sangrando.
Ele conhecia mentiras.
Tinha sido criado entre elas.
Sofia Ricci não mentia sobre o pai.
Mas isso não significava que soubesse toda a verdade.
— Quero todos os passos de Antonio nos últimos seis meses — Dante ordenou. — Contatos, ligações, contas, reuniões, amantes, médicos, padres, qualquer maldito café que ele tenha tomado fora da rotina.
Enzo assentiu.
— E a garota?
Dante olhou para a taça de uísque, ainda cheia.
— Fica aqui.
— Como prisioneira?
— Como garantia.
— Dante...
O tom de Enzo mudou. Pouca coisa. Mas Dante ouviu.
— Diga.
— Uma mulher inocente dentro desta casa pode virar problema.
— Uma mulher culpada fora dela vira guerra.
— E uma mulher bonita perto demais de você vira fraqueza.
O silêncio caiu.
Dante se levantou devagar.
— Escolha melhor suas próximas palavras.
Enzo não recuou. Talvez por ser velho demais. Talvez por conhecê-lo desde menino. Talvez por achar que tinha esse direito.
— Seu pai morreu porque amou a mulher errada.
A frase atravessou o escritório como uma lâmina antiga.
Dante sentiu a velha ferida abrir, mas não deixou que o rosto mostrasse. Nunca deixava.
Seu pai, Salvatore Bellucci, havia sido um homem temido, respeitado, brutal. Mas tivera uma fraqueza: a esposa. Elena Bellucci. A mãe de Dante.
E os inimigos descobriram.
Dante tinha dezessete anos quando encontrou a mãe caída no jardim de inverno, usando um vestido claro manchado de sangue, os olhos abertos para o teto de vidro. Lembrava do cheiro das flores. Lembrava da mão dela fria entre as suas. Lembrava do pai gritando ordens, prometendo vingança, quebrando o mundo em pedaços.
Depois daquela noite, Salvatore nunca mais fora o mesmo.
E Dante aprendera a lição.
Amor era uma porta aberta.
E portas abertas convidavam assassinos.
— Sofia Ricci não significa nada para mim — Dante disse.
Enzo o estudou por um instante.
— Ótimo. Então não será difícil usá-la como isca, se necessário.
Algo escuro e imediato se moveu dentro de Dante.
Pequeno.
Violento.
Irracional.
Ele se aproximou de Enzo com calma demais.
— Você não usará ninguém nesta casa sem minha ordem.
Enzo ergueu as sobrancelhas.
— Naturalmente.
Dante sustentou o olhar dele.
— Principalmente ela.
A segunda frase não deveria ter sido dita.
Dante percebeu.
Enzo também.
Mas o conselheiro apenas inclinou a cabeça.
— Como quiser.
Um ruído discreto soou no corredor. Passos rápidos. Uma batida na porta.
— Entre — Dante ordenou.
Marco apareceu.
Seu primo por parte de mãe e chefe da segurança interna da mansão. Forte, leal, impulsivo. Tinha uma cicatriz fina atravessando a sobrancelha esquerda e o hábito irritante de dizer o que pensava quando deveria calar.
— Temos um problema — Marco disse.
— Só um? A madrugada está generosa.
— A garota Ricci tentou sair do quarto.
Dante não se surpreendeu.
Na verdade, algo parecido com diversão ameaçou tocar sua boca.
— Já?
— Pela janela.
Enzo soltou um som baixo, quase um riso.
— Corajosa.
Dante lançou-lhe um olhar frio antes de voltar a Marco.
— Ela se feriu?
Marco piscou.
A pergunta saíra rápido demais.
— Não. Mas quase quebrou o pescoço tentando alcançar a varanda lateral. Lucia a segurou a tempo.
Dante saiu do escritório sem dizer mais nada.
Os corredores da mansão estavam silenciosos, mas não vazios. Homens armados se moviam discretamente pelas sombras. A casa Bellucci parecia dormir apenas para quem não conhecia seus segredos. Na verdade, a mansão nunca dormia. Sempre havia olhos. Sempre havia armas. Sempre havia alguém pronto para matar ou morrer.
Ao se aproximar do quarto leste, Dante ouviu a voz de Sofia antes de vê-la.
— Eu não sou uma criminosa! Não podem me trancar aqui como se eu fosse um animal!
Lucia, a governanta, respondeu com a calma de quem já sobrevivera a três gerações de Bellucci.
— Signorina, ninguém a trancou.
— Tem dois homens na porta!
— Exatamente. Na porta. Não dentro do quarto.
— Que gentileza. Devo agradecer?
Dante parou por um segundo do lado de fora.
Não deveria gostar daquela insolência.
Não gostou.
Não exatamente.
Mas sentiu o canto da boca querer se mover outra vez.
Isso o irritou.
Ele abriu a porta.
Sofia estava no meio do quarto, descalça, usando ainda o vestido preto simples que vestira ao chegar, embora agora estivesse seco. O cabelo castanho caía solto pelos ombros, ligeiramente bagunçado. As bochechas estavam coradas de raiva. Os olhos verdes brilhavam como se ela preferisse incendiar a mansão a permanecer ali.
A janela atrás dela estava aberta.
A cortina balançava com o vento frio da madrugada.
Lucia estava ao lado da cama, impassível.
Dois seguranças ocupavam a entrada.
Sofia virou-se para Dante.
Por um instante, o quarto inteiro pareceu perder importância.
Ela era pequena demais para a fúria que carregava.
E bonita demais para a paz dele.
Dante odiou perceber.
— Tentando fugir? — ele perguntou.
— Tentando ir embora. Fugir é o que prisioneiros fazem.
— Então estamos de acordo.
Ela apertou os lábios.
— Você é arrogante.
— E você é imprudente.
— Eu tinha uma vida ontem de manhã.
— Ontem de manhã seu pai ainda estava vivo.
A frase foi cruel.
Ele soube assim que disse.
O rosto de Sofia perdeu parte da cor. A raiva nos olhos dela tremeu, cedendo espaço à dor.
Dante sentiu algo incômodo no peito.
Não remorso.
Ele não tinha esse luxo.
Mas algo próximo o suficiente para desagradá-lo.
— Saia, Lucia — ele ordenou.
A governanta hesitou apenas um segundo.
— Signore.
Lucia deixou o quarto. Os seguranças também.
Sofia ficou mais rígida ao perceber que estava sozinha com ele.
Dante notou.
— Tem medo de mim?
Ela ergueu o queixo.
— Tenho bom senso.
— Não foi o que pareceu quando me bateu.
— Quer que eu peça desculpas?
— Não.
Ela franziu a testa.
— Não?
— Prefiro desculpas sinceras. Você não está arrependida.
— Não estou.
Dante caminhou devagar pelo quarto. Era amplo, decorado em tons de creme e dourado antigo, com móveis elegantes, uma cama grande demais e uma lareira apagada. Um quarto feito para hóspedes importantes. Ou reféns valiosos.
— Você entende o risco que correu tentando sair pela janela?
— Entendo o risco que corro ficando.
— Não entende nada.
Ela soltou uma risada amarga.
— Então explique, senhor Bellucci. Explique como manter uma mulher trancada em sua casa é para protegê-la.
Dante parou diante dela.
— Dois homens seguiram seu táxi até aqui.
Sofia congelou.
— O quê?
— Você não percebeu porque estava ocupada demais tremendo no banco de trás.
— Está mentindo.
— Não preciso mentir para assustar você. A verdade faz isso melhor.
Ela desviou o olhar por um instante. Pela primeira vez, a raiva vacilou.
— Quem eram?
— Ainda não sei.
— Homens da Mano Nera?
— Talvez.
— Ou seus homens?
Dante estreitou os olhos.
— Cuidado.
— Não. Eu estou cansada de ter cuidado. Meu pai está morto. Minha casa está revirada. Eu trouxe os documentos para você porque ele confiou em você. E agora você me acusa, me prende e espera que eu aceite tudo calada?
— Sim.
A resposta, seca e simples, a deixou ainda mais furiosa.
— Você é impossível.
— E você é ingênua.
— Pare de me chamar assim.
— Pare de agir assim.
Sofia deu um passo na direção dele.
— Ingênua seria acreditar que um homem como você pode proteger alguém sem querer algo em troca.
Dante baixou os olhos para ela.
— E o que acha que eu quero de você?
A pergunta mudou o ar.
Sofia percebeu.
Ele também.
O silêncio entre os dois deixou de ser apenas raiva. Tornou-se outra coisa. Mais quente. Mais perigosa.







