Mundo de ficçãoIniciar sessãoSofia abriu a boca, mas nada saiu.
Dante viu o pulso dela acelerar na base do pescoço. Viu a respiração prender. Viu o modo como ela tentou se afastar meio passo e falhou porque a cama estava atrás dela.
Ele deveria ter recuado.
Não recuou.
— Responda — ele disse baixo.
— Eu não sei.
— Sabe.
Os olhos dela subiram para os dele.
Havia medo ali.
Mas não apenas medo.
Esse foi o problema.
Dante sentiu uma tensão lenta atravessar seu corpo. Não era novidade desejar uma mulher. Desejo era simples. Biológico. Controlável.
Mas o que surgiu diante de Sofia Ricci não pareceu simples.
Pareceu inconveniente.
Ela era filha de um homem acusado de traição.
Possível isca.
Possível cúmplice.
Possível inocente.
A última possibilidade era a pior.
Porque criminosos ele sabia destruir.
Inocentes exigiam outro tipo de cuidado.
— Eu quero sair daqui — ela disse, a voz mais baixa.
— Não.
— Tenho que enterrar meu pai.
A frase o atingiu de maneira inesperada.
Dante ficou imóvel.
Sofia engoliu em seco, mas continuou:
— Você pode me odiar. Pode achar que ele traiu sua família. Pode achar o que quiser. Mas ele era meu pai. E eu não vou deixá-lo sozinho em um necrotério enquanto você decide se sou culpada.
Dante desviou o olhar para a janela.
Por alguns segundos, Roma pareceu pesar sobre seus ombros.
Ele podia negar.
Seria mais seguro.
Mais simples.
Mas havia dor na voz dela. E Dante, por mais que odiasse admitir, conhecia exatamente aquela dor. A urgência absurda de honrar um corpo quando todo o resto havia sido arrancado.
— O enterro será amanhã — ele disse.
Sofia piscou.
— O quê?
— Meus homens providenciarão tudo.
— Seus homens?
— Você irá.
Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas ela as segurou.
— Irei sozinha?
— Irá comigo.
A gratidão desapareceu antes mesmo de nascer.
— Claro. Como uma criminosa escoltada.
— Como uma mulher que talvez tenha assassinos esperando do lado de fora do cemitério.
— Você sempre transforma tudo em ameaça?
— Só quando é.
Sofia passou as mãos pelo rosto, cansada.
De repente, pareceu muito jovem.
Muito sozinha.
O vestido preto, o cabelo solto, os pés descalços sobre o tapete caro. Ela não combinava com aquela casa. Não combinava com o mundo dele. Era como uma vela acesa no meio de um arsenal.
E, ainda assim, Dante não conseguia parar de olhar.
— Por que meu pai mandaria que eu viesse até você? — ela perguntou.
A pergunta era quase um sussurro.
Dante poderia ter dado uma resposta cruel.
Porque ele era culpado.
Porque queria salvar a própria pele.
Porque usou você.
Mas nenhuma dessas respostas era certa ainda.
— Talvez porque acreditasse que eu sou o único homem em Roma capaz de mantê-la viva.
Sofia soltou uma risada triste.
— Ou o único capaz de me matar se eu souber demais.
Dante não respondeu.
E o silêncio dele foi resposta suficiente.
Ela abraçou o próprio corpo.
— Eu nunca quis fazer parte disso.
— Ninguém quer nascer dentro de uma guerra.
— Você nasceu?
Dante olhou para ela.
Sofia pareceu se arrepender da pergunta, mas não a retirou.
— Nasci dentro de um nome — ele disse. — A guerra veio junto.
— E você nunca quis fugir?
A pergunta era absurda.
Quase infantil.
Mas havia algo nela que o segurou.
Dante se lembrou de si mesmo aos dezessete anos, com sangue nas mãos e a mãe morta nos braços. Lembrou-se do pai colocando uma arma sobre a mesa, uma semana depois, e dizendo: “Homens como nós não choram. Cobram.”
Ele não fugira.
Ele aprendera a cobrar.
— Não existe fuga para um Bellucci — respondeu.
Sofia o observou com uma atenção estranha.
Como se, por um segundo, tivesse enxergado o homem por baixo do chefe.
Dante não gostou.
— Durma — ele ordenou, virando-se para sair. — Amanhã será longo.
— Eu não vou conseguir dormir.
— Tente.
— Dante.
Ele parou.
Foi a primeira vez que ela disse seu nome sem formalidade.
O som atravessou a distância entre eles de um jeito perigoso.
Ele olhou por cima do ombro.
— O quê?
Sofia hesitou.
— Meu pai... ele sofreu?
Dante ficou em silêncio.
A resposta verdadeira provavelmente era sim. Antonio Ricci sabia demais. Homens que sabiam demais quase nunca morriam rápido.
Mas Sofia não precisava carregar aquela imagem.
Não naquela noite.
— Não — ele mentiu.
Ela fechou os olhos por um segundo.
Uma lágrima escapou.
Apenas uma.
Dante teve uma vontade absurda de tocá-la.
Secar a lágrima com o polegar.
Puxá-la contra o peito.
Dizer algo que não soasse como ordem, ameaça ou condenação.
A vontade durou pouco.
Ele a matou antes que crescesse.
— Boa noite, Sofia.
Saiu antes que ela respondesse.
Do lado de fora, Marco o aguardava no corredor.
— Ela vai dar trabalho — o primo comentou.
Dante ajustou o punho da camisa.
— Mulheres assustadas costumam fazer isso.
Marco o estudou com um meio sorriso.
— Ela não parece só assustada.
— Não?
— Parece capaz de enfiar uma faca em você enquanto dorme.
Dante olhou para a porta fechada.
— Então é bom que eu não durma.
Marco riu baixo, mas parou ao ver que Dante não estava brincando.
— O que quer que eu faça?
— Dobre a segurança. Ninguém entra no corredor sem minha autorização. Ninguém fala com ela sem minha permissão. E descubra quem seguiu o táxi.
— Já mandei verificar as câmeras da rua.
— E Marco?
— Sim?
Dante virou-se para ele.
— Se alguém tentar chegar até ela, eu quero vivo.
Marco ergueu as sobrancelhas.
— Vivo? Isso é raro.
— Quero respostas antes de cadáveres.
— Entendido.
Dante caminhou de volta pelo corredor, mas não retornou ao escritório imediatamente. Parou diante da janela que dava para o jardim interno. A chuva começava a diminuir. As primeiras linhas cinzentas do amanhecer arranhavam o céu sobre Roma.
Em poucas horas, a cidade acordaria fingindo inocência.
Padres abririam igrejas. Turistas tirariam fotos. Cafeterias serviriam espresso em xícaras pequenas. Políticos dariam entrevistas. Homens beijariam esposas sem mencionar onde passaram a noite.
Roma era especialista em esconder pecados sob mármore e sol.
Dante também.
Mas Sofia Ricci havia entrado em sua casa encharcada de chuva, luto e perigo, carregando uma pasta que podia expor uma traição impossível.
E agora estava no quarto leste, tentando parecer corajosa enquanto o mundo desabava sobre sua cabeça.
Ele deveria vê-la como peça.
Como risco.
Como ferramenta.
Mas, ao lembrar da lágrima silenciosa descendo pelo rosto dela, Dante sentiu uma raiva fria crescer dentro dele.
Não dela.
De quem a havia colocado naquele caminho.
Seu telefone vibrou.
Uma mensagem de um número desconhecido.
Dante abriu.
Havia apenas uma foto.
Sofia saindo de sua antiga casa, naquela noite, segurando a pasta contra o peito.
Abaixo da imagem, uma frase:
A filha do traidor não sobreviverá ao luto.
Dante ficou imóvel.
Então seus dedos se fecharam ao redor do aparelho com tanta força que a tela quase estalou.
Marco, que ainda estava a poucos passos, percebeu a mudança.
— Dante?
Dante ergueu os olhos.
Toda a frieza havia voltado ao rosto.
Mas por baixo dela havia algo pior.
Algo antigo.
Algo letal.
— Acorde todos os homens — ele disse. — Ninguém dorme nesta casa hoje.
Marco endireitou a postura.
— O que aconteceu?
Dante olhou mais uma vez para a mensagem.
Depois para a porta do quarto onde Sofia estava.
— A Mano Nera sabe que ela está aqui.
Marco praguejou baixo.
Dante guardou o telefone.
— E se eles querem a garota Ricci...
Fez uma pausa.
O nome dela queimou em sua mente de um jeito que não deveria.
Sofia.
Ele respirou fundo, frio, controlado, mortal.
— Vão ter que atravessar Roma inteira e passar por mim primeiro.
Sofia acordou com o som de passos do lado de fora da porta.
Por alguns segundos, não soube onde estava.
O teto acima dela era alto, pintado em tons claros, com molduras antigas e um lustre pequeno de cristal apagado. A cama era grande demais, macia demais, coberta por lençóis que cheiravam a lavanda e sabão caro. A luz cinzenta da manhã entrava pelas cortinas pesadas, desenhando faixas pálidas sobre o tapete.
Não era seu quarto.
Não era sua casa.
Então a memória voltou.
Seu pai morto.
A pasta escondida.
A chuva.
O portão negro.
Dante Bellucci.
Sofia sentou-se rápido demais, e uma tontura breve a obrigou a fechar os olhos. Levou a mão ao peito, sentindo o coração bater de maneira desordenada.
Estava na mansão Bellucci.
Sob o teto de um mafioso.
Sob vigilância.
Prisioneira.
A palavra lhe causou náusea.







