Mundo ficciónIniciar sesiónEle deu a volta na mesa e se aproximou.
Sofia teve vontade de recuar, mas se obrigou a ficar parada.
Dante parou diante dela. Perto demais.
Ele era muito mais alto. A presença dele parecia ocupar todo o espaço, esmagando o ar ao redor. Sofia sentiu o perfume dele, discreto e caro, misturado ao cheiro de chuva que vinha de suas próprias roupas molhadas.
— Você tem ideia do que trouxe até mim? — ele perguntou.
— Tenho ideia de que meu pai morreu por causa disso.
— Seu pai morreu porque brincou com forças que não podia controlar.
— Ou porque tentou avisar você.
Dante a encarou.
— Você acredita nisso?
— Acredito.
— Então é mais ingênua do que parece.
A palavra a feriu de um jeito estranho.
Ingênua.
Talvez fosse. Talvez fosse mesmo uma idiota por estar ali, diante de um mafioso, esperando justiça de um homem conhecido por enterrar seus inimigos sem remorso.
Mas ela não tinha mais ninguém.
— Meu pai me disse para confiar no senhor.
Dante riu sem humor.
— Seu pai foi um tolo até o fim.
Sofia ergueu a mão antes de pensar.
O tapa estalou no rosto dele.
O mundo parou.
Dois homens na entrada se moveram imediatamente, armas quase sacadas.
Dante ergueu uma mão.
Eles congelaram.
Sofia sentiu o sangue fugir do próprio rosto. Só então percebeu o que havia feito.
Ela tinha acabado de bater no homem mais perigoso de Roma.
Dante virou o rosto lentamente de volta para ela.
A marca de seus dedos começava a surgir na pele dele.
Ele não parecia chocado.
Parecia interessado.
Muito lentamente, Dante segurou o pulso dela. Não apertou a ponto de machucar, mas o suficiente para mostrar que poderia.
— Você tem coragem — ele disse baixo.
Sofia tentou puxar a mão.
— Solte-me.
— Coragem ou estupidez. Ainda não decidi.
— Meu pai está morto. Não permito que fale dele assim.
— Você está na minha casa, diante dos meus homens, com documentos que podem iniciar uma guerra. E ainda assim se preocupa com permissão?
Os olhos dela ardiam.
— Eu me preocupo com a verdade.
Dante a observou por alguns segundos longos demais.
Depois soltou seu pulso.
— A verdade, Sofia Ricci, é que você não vai sair daqui esta noite.
O coração dela disparou.
— Como assim?
— Até eu saber exatamente o que seu pai fez, para quem ele trabalhava e qual é o seu papel nisso, você ficará sob minha proteção.
— Proteção? — ela repetiu, incrédula.
— Vigilância, se preferir.
— O senhor não pode me manter aqui.
Dante se aproximou mais um passo.
— Posso.
A palavra foi simples.
Terrível.
Definitiva.
Sofia olhou para a porta, para os homens armados, para a chuva batendo nas janelas, para a pasta sobre a mesa. Entendeu que entrar ali tinha sido fácil.
Sair seria outra história.
— Eu vim pedir ajuda — ela disse, com a voz mais baixa.
Dante a encarou sem piedade.
— E talvez tenha vindo. Mas até que eu tenha certeza, você é uma ameaça.
— Eu não sou sua inimiga.
— Ainda não sei o que você é.
O olhar dele desceu rapidamente pelo rosto dela, pela boca, pelo casaco molhado, pelas mãos trêmulas que ela tentava esconder. Não foi um olhar vulgar. Foi pior. Foi como se ele visse demais.
Como se percebesse cada rachadura.
Cada medo.
Cada segredo que nem ela sabia possuir.
— Leve-a para o quarto leste — Dante ordenou, sem tirar os olhos dela.
A mulher de preto apareceu novamente à porta.
Sofia deu um passo para trás.
— Eu não vou ficar presa aqui.
— Vai.
— O senhor não tem esse direito.
— Nesta cidade, eu tenho todos os direitos que consigo impor.
Ela odiou a calma dele.
Odiou a beleza fria daquele rosto.
Odiou o modo como seu corpo tremia não apenas de medo, mas de uma consciência absurda, perigosa, daquele homem diante dela.
— Eu vou fugir — ela disse.
Dante finalmente permitiu que um sorriso mínimo surgisse.
Não era um sorriso gentil.
Era uma ameaça vestida de elegância.
— Tente.
Sofia sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Dante pegou a pasta novamente e voltou para trás da mesa, como se ela já tivesse deixado de ser uma visita e se tornado um problema arquivado sob controle.
Mas antes que a mulher a conduzisse para fora, Sofia ouviu a voz dele mais uma vez.
— E, Sofia?
Ela parou, contra a própria vontade.
— Sim?
Dante ergueu os olhos dos documentos.
— Se descobrir que você mentiu para mim, nem a memória do seu pai será suficiente para salvá-la.
A garganta dela secou.
Mas Sofia não baixou a cabeça.
— E se eu descobrir que o senhor está errado?
Por um instante, o escritório pareceu prender a respiração.
Dante a encarou com aqueles olhos escuros, frios e perigosos.
— Então talvez eu peça desculpas.
Sofia soltou uma risada amarga.
— O senhor parece o tipo de homem que morreria antes disso.
Dante não respondeu.
Mas o brilho sombrio nos olhos dele disse que ela talvez tivesse acabado de despertar algo que deveria ter permanecido adormecido.
A mulher tocou levemente seu braço, conduzindo-a para fora.
Sofia atravessou o corredor com o coração martelando.
Atrás dela, as portas do escritório se fecharam.
E, pela primeira vez desde que encontrara o corpo do pai, Sofia entendeu uma coisa com clareza absoluta:
Antonio Ricci havia lhe deixado uma pasta, um segredo e uma sentença.
Porque Dante Bellucci não era sua salvação.
Era sua prisão.
E talvez fosse também o homem que destruiria seu coração antes mesmo que ela descobrisse a verdade.
Dante Bellucci não dormiu naquela noite.
Não porque Sofia Ricci estivesse sob seu teto.
Não porque a chuva continuasse batendo nas janelas da mansão como dedos insistentes de mortos.
E muito menos porque a marca do tapa dela ainda queimava discretamente em seu rosto.
Ele não dormiu porque Antonio Ricci, mesmo depois de morto, havia conseguido fazer aquilo que poucos homens vivos ousavam: levar uma ameaça até dentro da casa Bellucci.
Dante permaneceu sozinho no escritório, com a pasta aberta sobre a mesa e uma taça de uísque intocada ao lado. Seus olhos percorriam os documentos pela terceira vez, mas sua mente já estava muitos passos à frente.
Contas offshore.
Transferências mascaradas.
Nomes codificados.
Rotas de importação.
E, no canto inferior de uma das folhas, escrito à mão com a caligrafia apressada de Antonio Ricci:
A Mano Nera está dentro da casa.
Dante fechou a mão devagar.
O papel amassou sob seus dedos.
— Filho da puta — murmurou.
Não sabia se falava de Antonio, da Mano Nera ou de si mesmo por ainda não ter descoberto aquilo antes.
La Mano Nera.
O nome não era novo.
Durante anos, eles tinham sido apenas uma sombra. Uma organização antiga, escondida atrás de famílias menores, políticos comprados e empresários aparentemente respeitáveis. Gente que não mostrava o rosto, mas deixava corpos como assinatura.
Nos últimos meses, porém, a sombra começara a se mover.
Dois carregamentos Bellucci haviam sido interceptados.
Um restaurante usado para encontros discretos explodira em Trastevere.
Um dos homens de Dante fora encontrado morto no porta-malas de um carro, com a mão direita arrancada e um pedaço de tecido negro enfiado na boca.
A mensagem era clara.
La Mano Nera queria Roma.
Mas Roma era de Dante Bellucci.
E ninguém tomava o que era dele sem pagar em sangue.
A porta do escritório se abriu sem batidas.
Apenas um homem tinha permissão para fazer isso.
Enzo Vitale entrou usando um sobretudo escuro, o cabelo grisalho perfeitamente penteado para trás e a expressão cansada de quem atravessara a madrugada resolvendo problemas sujos. Tinha cinquenta e poucos anos, mas carregava nos olhos a frieza de alguém que sobrevivera a mais guerras do que gostava de admitir.
Enzo não era sangue Bellucci.
Era pior.
Era conselheiro.
Amigo do pai de Dante.
Homem antigo da família.
Alguém que Dante havia aprendido a respeitar antes mesmo de aprender a matar.
— Soube que a menina Ricci apareceu — Enzo disse, fechando a porta.
Dante ergueu os olhos.
— As notícias correm rápido demais nesta casa.
— Quando a filha de um traidor atravessa o portão no meio da noite, as paredes comentam.
— As paredes não. Os homens.
Enzo sorriu de leve.
— Homens são paredes com ouvidos.
Dante não sorriu.
Pegou uma das folhas e a jogou sobre a mesa.
— Antonio deixou isso.
Enzo se aproximou, pegou o papel e leu em silêncio. Seu rosto não se alterou, mas Dante o conhecia o bastante para notar o pequeno endurecimento ao redor da boca.







