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Entre a farda e o abismo

Narrado por Theo

Eu não escolhi ser policial.

 Pelo menos não do jeito romântico que as pessoas imaginam. Não foi um sonho de criança, não foi uma vocação. Foi necessidade. Sobrevivência. Quando você cresce num bairro onde todo dia alguém morre e ninguém pergunta o nome, vestir uma farda parece uma forma de se proteger da estatística.

Só que a farda... não protege por dentro.

 Ela pesa. Pesa como concreto depois da chuva.

A morte daquele homem na frente da escola foi só mais uma em uma lista suja que carrego comigo. Mas o que me atingiu não foi o corpo estirado no chão — foi o olhar da professora. A forma como ela correu, sem pensar, sem se importar com o risco. Aquilo... aquilo me desmontou.

Helena.

 O nome ficou martelando na minha cabeça a tarde toda, enquanto eu tentava entender o que o tal do Lucas tinha a ver com tudo. Os colegas dele não sabiam de nada. A diretora parecia mais preocupada com a reputação da escola do que com o sumiço do garoto. Mas Helena… ela se importava. De verdade.

Ela falava com um tipo de dor que eu conheço bem: a de quem tenta salvar gente que o mundo já desistiu.

— Sargento, ele não faria parte disso. O Lucas tem um bom coração. — ela me disse, depois, em uma sala vazia da escola, com os olhos cheios de raiva e compaixão ao mesmo tempo.

— Às vezes, professoras apaixonadas pela esperança não veem as rachaduras. — retruquei, mais seco do que deveria. Ela abaixou os olhos, mas não recuou.

— E às vezes, policiais endurecidos pela rotina esquecem que meninos como o Lucas precisam de alguém que acredite neles.

Silêncio.

Ela tinha razão.

 Mas a verdade é que eu não podia me dar ao luxo de acreditar em todo mundo. Já confiei demais. Já perdi demais.

Meu irmão, Rafael, por exemplo. Morto aos dezessete por segurar uma arma que não era dele. Eu vi o corpo. Eu carreguei o caixão. Eu jurei que nunca mais ia acreditar em histórias de inocência.

Mas a Helena… ela bagunçava isso tudo. Ela não usava escudo. Ela enfrentava o mundo com palavras, com livros, com olhos transparentes demais para essa cidade.

— Ele está vivo, Theo. Eu sei. — ela sussurrou, quando nos despedimos.

Ela me chamou pelo nome.

 Não por “sargento”, não por “senhor”. Theo. Assim, como se me conhecesse. Como se falasse com o que restava de mim antes da farda, antes das perdas, antes das escolhas erradas.

Naquela noite, não consegui dormir.

 Fiquei olhando a foto do Lucas no boletim escolar. A caligrafia pequena. A nota alta em história. A frase no canto da folha escrita pela professora: “Você tem talento. Nunca se esqueça disso.”

E ali, no meio da madrugada, percebi:

 Eu precisava achá-lo. Não só como policial. Mas como alguém que devia a si mesmo uma chance de acreditar.

Helena estava certa.

 E eu estava cansado de viver como se a justiça fosse apenas tinta preta no papel de um boletim de ocorrência.

Talvez... ela fosse feita de cores.

 Das que sangram. Das que resistem.

 Das que ensinam.

 E das que amam.

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