A cidade que engole

Narrado por Helena

São Paulo tem um cheiro específico de urgência.

 É como se cada esquina gritasse por atenção, como se cada muro carregasse histórias que ninguém quer ouvir.

 Mas eu ouvia.

Sempre ouvi.

Na manhã seguinte, voltei para a escola como se aquilo fosse me devolver alguma normalidade. Mas não havia mais normalidade. Os corredores estavam vazios, e a sala do Lucas... um eco triste da ausência dele.

A diretora pediu que eu “mencionasse o caso o mínimo possível em aula”.

— Nossos alunos são muito sensíveis, professora. Melhor não agitá-los.

Agitar?

Lucas estava desaparecido. Um homem morreu na porta da escola. E a prioridade era manter tudo calmo, limpo, domesticado?

Saí da sala antes que ela terminasse a frase. Fui para a biblioteca, o único lugar onde ainda conseguia respirar.

Foi lá que o reencontrei.

 Theo.

Ele estava de pé, encostado na parede, com as mãos nos bolsos da calça jeans e a farda aberta sobre uma camiseta preta. Não era o sargento de antes. Era o homem que tinha passado a noite inteira tentando encontrar um menino que ele nem conhecia. E eu vi nos olhos dele: ele não tinha dormido.

— Descobrimos algo — ele disse, direto, com a voz rouca.

Sentei-me à mesa mais próxima, o coração acelerado.

— Lucas não voltou pra casa naquele dia. Mas um vizinho viu ele entrando num carro preto por volta das seis. Sozinho. Sem mochila.

— Você acha que ele fugiu?

Theo fez que não com a cabeça.

— Acho que foi levado.

As próximas horas foram um redemoinho.

 Theo me levou com ele para conversar com a avó de Lucas, a única parente que o garoto confiava. Fomos até uma ocupação onde alguns dos amigos dele viviam. Descobrimos que Lucas tinha se afastado de todos nos últimos dias. Estava assustado. Silencioso. Carregava um caderno escondido com anotações que ninguém entendia.

— Eu queria ter percebido. — murmurei, saindo de um dos becos, depois de falar com uma amiga dele. — Eu deveria ter feito algo.

— Você tentou. — Theo disse, parando ao meu lado. — Tem muito professor que só decora conteúdo. Você se importa. Isso já te coloca no outro lado da trincheira.

Olhei para ele. Estávamos tão perto que podia ver a cicatriz fina que cortava sua sobrancelha esquerda. Ele percebeu meu olhar e desviou.

— Você sempre foi assim? — perguntei, sem pensar. — Tão... fechado?

Ele soltou um meio sorriso. Quase imperceptível.

— Eu já fui muita coisa. Hoje, eu só tento ser alguém que não falha com quem não tem mais ninguém.

Silêncio.

Mas era um silêncio diferente. Um silêncio cúmplice.

Naquele instante, soube que o que estávamos vivendo não era só sobre o Lucas. Era sobre o que ainda restava de humano em nós. Sobre o que nos conectava num mundo onde tudo parecia desconexo.

Quando voltamos ao carro, Theo recebeu uma ligação. Um informante. Tinham encontrado um caderno com o nome do Lucas em uma viela da zona leste.

— Pode ser perigoso. — ele disse, olhando pra mim. — Quer que eu te leve pra casa?

— Não. — respondi, firme. — Eu vou com você. O Lucas é meu aluno. Isso também é minha luta.

Ele assentiu, com um olhar intenso.

— Então vamos, professora.

 Vamos encontrar o seu aluno.

 E talvez... encontrar a gente mesmo no meio do caminho.

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