Mundo ficciónIniciar sesiónNarrado por Helena
Na primeira vez que vi o nome Ricardo Nogueira escrito no caderno de Lucas, ele não significava nada. Era apenas um rabisco entre tantos.
Mas agora... ele era um portal.
Um nome que carregava medo. Silêncio. E histórias que nunca foram contadas — ou que foram contadas por corpos calados.
Theo não me disse tudo sobre esse homem. Mas eu vi no olhar dele o mesmo pavor que vi uma vez em uma aluna minha, quando descrevia o pai alcoólatra.
Era algo mais profundo.
Algo pessoal.
Nos dias seguintes, passamos a viver no fio da navalha. A corregedoria aceitou a denúncia, mas o aviso foi claro: sem provas concretas, sem gravações ou testemunhos, não há como abrir um processo formal contra o tenente.
Em outras palavras: estávamos sozinhos.
Foi então que decidi ir mais fundo.
Voltei à casa da avó do Lucas. Levei frutas, como desculpa. E um coração apertado.
Ela me recebeu com olhos cansados.
— Ele não é um menino de sumir, professora. Ele é dos que esperam até o fim da aula pra dizer “obrigado”. O mundo engole gente assim.
Senti um nó na garganta. Mas foi quando ela me ofereceu um álbum velho que tudo mudou.
— Achei isso ontem. Tava junto das coisas do pai dele. Talvez ajude.
Ali, entre as fotos, encontrei algo que me fez gelar.
Uma imagem antiga. Uma roda de amigos, todos de farda. E no centro... um homem negro, grande, usando uma jaqueta preta, o rosto mais jovem, mas inconfundível.
Negão.
Atrás dele, sorrindo com orgulho... o pai do Lucas.
— Ele também foi policial? — perguntei, quase sem voz.
A senhora assentiu.
— Por pouco tempo. Saiu depois de uma operação que deu errado. Disse que ia recomeçar. Mas depois disso... nunca mais foi o mesmo.
Meu coração batia tão forte que eu mal ouvia as palavras.
Lucas não estava apenas no lugar errado na hora errada.
Ele era filho de alguém que provavelmente sabia demais.
Alguém que talvez tenha morrido por isso.
E Lucas... talvez estivesse tentando provar algo.
Ou terminar o que o pai começou.
Voltei pra casa sem pensar. Theo me ligou quatro vezes. Eu não atendi. Não porque queria esconder, mas porque precisava entender. Precisava respirar. Precisava processar.
Coloquei a foto sobre a mesa. Peguei o caderno. Abri uma das páginas rabiscadas no final e li novamente uma frase que, até então, não fazia sentido:
"O que meu pai sabia... eu sei também. Só preciso contar do jeito certo."
Quando Theo finalmente bateu à minha porta, eu estava sentada no chão, com as mãos trêmulas.
— Helena, pelo amor de Deus. Eu fui até a escola. Liguei pra sua amiga jornalista. Achei que...
— Eu descobri. — interrompi. — Descobri quem é o Lucas.
— O quê?
— O pai dele era policial. Trabalhou com o Negão. Estava na mesma operação onde algo deu errado. E depois disso... sumiu da história. Acho que foi apagado. E o Lucas... ele quer justiça.
Theo sentou no sofá, sem conseguir falar.
Então completou, em um fio de voz:
— Eu conheci o pai dele. Rafael e eu éramos meninos quando ele treinava recrutas. Era um dos únicos homens decentes no meio daquele esgoto. Foi ele quem tentou alertar o Rafael antes dele morrer.
Eu me aproximei.
— Então tudo está conectado, Theo. Tudo.
— Helena... — ele olhou pra mim, e havia algo ali. Algo além da dor. Além do medo. — Se isso for verdade, não estamos apenas buscando um menino. Estamos cutucando um ninho de cobras. E você precisa me prometer uma coisa.
— Prometer o quê?
— Que vai continuar viva.
Mesmo que eu não consiga estar ao seu lado até o fim.
Meu coração parou por um instante.
E então eu disse a única coisa que fazia sentido naquele momento:
— Eu só continuo viva… se você estiver comigo. Não me peça pra desistir de você. Nem da verdade. A justiça tem cor, Theo. Mas também tem rosto. E agora… tem nome.
Lucas.
E nós iríamos encontrá-lo.
Nem que fosse a última coisa que faríamos.







