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Entre linhas e riscos

Narrado por Helena

O caderno estava sobre minha mesa, como se fosse uma bomba-relógio.

 Cada linha escrita por Lucas latejava como um grito abafado.

 Eles queriam silenciar aquele menino. E, por um tempo, conseguiram. Mas eu ainda ouvia a voz dele em cada página.

"O policial de jaqueta preta sabe demais."

"Eles fazem justiça pelas próprias mãos."

Eu lia e relia, sem saber se chorava ou gritava.

Era noite quando Theo me mandou uma mensagem:

“Hoje não dormi. Sonhei com o Rafael. Acho que esse caso tá mexendo com a gente mais do que devia. Se cuida. Me avisa se sair.”

Rafael. O irmão dele.

 Ele ainda não me contou o que aconteceu, mas eu sabia que essa dor moldava quem ele era. E por isso ele tentava tanto proteger o mundo — mesmo quando esse mundo o esmagava todos os dias.

Mas naquele momento, quem precisava proteger o Lucas... era eu.

Theo pediu para que eu ficasse fora disso. Disse que era perigoso. Que os nomes por trás dessa trama eram grandes demais. Que eu poderia me machucar.

Mas eu sou professora.

 E ensinar nunca foi só passar conteúdo.

 É resistir. É proteger.

 É ir até o fim, mesmo quando o fim assusta.

Na manhã seguinte, fui até uma amiga antiga da faculdade. Lívia. Jornalista investigativa. Já tinha batido de frente com políticos, empresários, policiais. E ainda assim continuava inteira.

— Você enlouqueceu, Helena? — ela disse, assim que leu as anotações do caderno. — Isso aqui é coisa de milícia, de esquadrão da morte. Você sabe o que tá fazendo?

— Sei que um menino de 15 anos está desaparecido. E que a última pista que temos é um policial corrupto e três ameaças explícitas. Eu preciso saber mais.

— Isso é papel da polícia.

— E se parte da polícia for o problema?

Silêncio.

Ela suspirou fundo. Depois pegou o caderno.

— Eu conheço um cara que investiga o Negão há anos. É discreto. É sério. Mas se envolver com ele significa ultrapassar uma linha. E quando você cruza essa linha, Helena, não tem como voltar.

— Então me leva até ele.

Quando Theo me ligou à noite, não contei.

 Não ainda.

— Onde você está? — ele perguntou, com a voz baixa. Cansada. Mas cheia de preocupação.

— Em casa — menti. — Só pensando em tudo. E em você.

Houve uma pausa do outro lado.

— Não quero te envolver nisso. — ele disse, enfim. — Já perdi gente demais. Não vou perder você também.

Fechei os olhos. Senti um nó na garganta.

— Talvez você precise entender que me envolver é o que me mantém viva. Que lutar por alguém é a única forma que eu conheço de amar.

Ele não respondeu na hora. Mas quando falou, foi quase um sussurro.

— Você é mais corajosa do que eu. E isso me assusta. Porque no fundo, eu queria ser como você.

Meu coração apertou.

Theo era o homem mais forte que eu já conheci. Mas só agora eu via... a verdadeira força dele não estava na arma que carregava, mas na dor que escondia.

Naquela noite, não dormi.

 Fiquei encarando o teto, lembrando do rosto do Lucas, da voz da minha aluna Clara dizendo que ele andava assustado. Lembrei das ameaças. Do olhar dos garotos na viela. Do caderno com palavras que ninguém quis ler.

E então escrevi em meu diário:

"Talvez eu não mude o mundo. Mas se eu puder mudar o destino de um garoto invisível, já terei feito mais do que muitos que governam essa cidade. E se, no caminho, eu perder meu coração por um policial ferido… que seja. Porque amar também é um ato de coragem."

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