Mundo de ficçãoIniciar sessãoNarrado por Theo
Existem lugares em São Paulo onde a justiça não entra.
Pelo menos, não a justiça de toga e bandeira.
Mas eu aprendi a andar por esses cantos.
Aprendi a sobreviver.
Naquela noite, eu me infiltrei em um dos encontros clandestinos promovidos por ex-policiais, agentes “aposentados” à força — ou mantidos por redes obscuras. Eles se reúnem em galpões abandonados, fingem que jogam cartas, mas o que rola ali é tráfico de informação, lavagem de dinheiro e, às vezes, julgamentos silenciosos de quem deve viver ou morrer.
Helena queria ir.
Disse que podia ajudar.
Mas ali não era lugar para esperança.
Era lugar de monstros.
Fui sozinho.
Entrei com o capuz abaixado, olhos atentos. Fui cumprimentado por um ou dois que me conheciam de operações antigas. Dei uma desculpa qualquer sobre "estar insatisfeito com o sistema" e logo me deixaram sentar.
Foi quando vi ele.
Sentado à mesa do canto, óculos discretos, barba por fazer, jogando cartas como se não estivesse prestando atenção em nada… mas prestava em tudo.
Não o reconheci de imediato.
Só percebi que havia algo de diferente. Ele não era como os outros. Era discreto, calmo, mas havia um ar de estratégia no modo como observava.
— Você não é daqui, né? — ele disse, de repente, me encarando com firmeza.
— E você é?
Ele sorriu de lado.
— Mais do que pareço.
O silêncio que se seguiu era feito de tensão comprimida.
— Estou investigando o nome de um velho conhecido: Ricardo Nogueira. — soltei, medindo a reação dele.
— O Negão. — ele respondeu sem hesitar. — Um câncer que o sistema insiste em não extirpar. Você sabe com quem está se metendo?
— E você sabe quem eu sou?
Ele me encarou por um segundo mais longo do que o normal. Depois, estendeu a mão.
— Juiz Miguel Barbosa. STF. Infiltrado há oito meses numa operação que envolve corrupção dentro da própria justiça e ligações com forças armadas paralelas. Você é o sargento Theo Andrade, certo? Aquele que denunciou o próprio superior e que perdeu o irmão num caso mal resolvido há anos.
Fiquei imóvel.
Ele sabia tudo.
— Calma. Estou do mesmo lado. — ele disse. — Se eu quisesse te derrubar, já teria feito. Mas se você veio até aqui... talvez esteja pronto pra ouvir o que ninguém quer contar.
Saímos do galpão juntos, disfarçando os passos. Só quando entramos num carro descaracterizado, Miguel abriu o jogo.
— O nome do pai do seu garoto, o tal Lucas, aparece em uma escuta que foi abafada. Ele tentou denunciar uma operação que envolvia assassinatos extrajudiciais liderados por Ricardo Nogueira. Foi afastado, depois desapareceu. A justificativa oficial? Abandono de função. Mas ele foi silenciado.
Senti a raiva subir, quente e pesada.
— O filho dele sabia.
— Sabia. E tentou fazer o que o pai não conseguiu. Mas o problema é que ele sabia demais... e confiou nas pessoas erradas.
— Ele está vivo?
— Ainda não sabemos. Mas recebemos um vídeo. Foi mandado de forma anônima para a central da corregedoria. O menino aparece, amarrado, dizendo que não quer morrer como o pai.
Meus punhos se fecharam.
O carro inteiro pareceu pequeno demais para conter o que eu sentia.
— Por que ninguém fez nada?
— Porque esse vídeo foi interceptado. Só chegou até mim porque alguém dentro da corregedoria me protegeu. E agora, chegou até você... porque a luta vai precisar de mais do que um juiz infiltrado e uma professora corajosa. Vai precisar de você.
— Então me diga, Miguel... — encarei o juiz com a intensidade de quem já não tem mais nada a perder — onde isso termina?
Ele respirou fundo.
— Isso não termina. Isso recomeça. E recomeça com o nome de Lucas sendo ouvido. Com a verdade vindo à tona. Com o risco de perdermos tudo. Mas também… com a chance de fazermos história.
Na volta, passei na casa da Helena.
Ela me esperava com um café na mão e olhos que falavam mais do que mil palavras.
— E então?
— Conheci o juiz. Miguel. Está infiltrado há meses. Ele quer a mesma coisa que a gente: justiça. Mas agora... agora é guerra.
Ela não disse nada.
Apenas se aproximou.
Aproximou tanto que minha dor silenciou por segundos.
— Então vamos pra guerra juntos. — ela disse. — E que a verdade seja nossa arma.
Abracei Helena como se fosse a última vez.
Porque no fundo, já sabíamos:
Não sairemos os mesmos disso.
Mas sairemos vivos.
Ou faremos a cidade lembrar os nossos nomes.







