Mundo ficciónIniciar sesiónO som distante de caixas de papelão sendo arrastadas no corredor do quarto andar era o único ruído que quebrava o silêncio daquela noite abafada. Eu não deveria estar olhando. Não era do meu feitio ser o vizinho intrometido, o cara que espia pela fresta da cortina. Mas, a partir do momento em que pus os olhos na nova moradora do apartamento da frente, qualquer traço do meu autocontrole simplesmente ruiu. Ela parecia jovem demais. Doce demais. Uma tentação perigosa enrolada em um pvestido leve de algodão que colava em suas curvas a cada movimento. Havia uma inocência quase acidental na forma como ela prendia o cabelo escuro no alto da cabeça, deixando a nuca exposta, enquanto tentava equilibrar mais uma caixa pesada. Eu tinha trinta e oito anos. Um homem feito, moldado pelo cinismo, com a vida perfeitamente sob controle e um império para gerenciar. Ela? Não devia ter mais do que vinte e poucos. Dez anos — ou talvez mais — nos separavam. Uma eternidade. Um abismo moral que eu deveria respeitar. Mas quando ela parou na porta do próprio apartamento, encarando a chave que insistia em emperrar, e soltou um suspiro frustrado, algo dentro de mim rugiu. O calor da noite não era nada comparado ao fogo repentino que se acendeu no meu peito. Fiquei observando a respiração dela descompassar, o subir e descer ritmado do seu peito sob o tecido fino. Minhas mãos coçaram para ir até lá. Para puxar aquela chave dos seus dedos delicados, encostar meu corpo quente atrás do dela e murmurar contra a sua orelha o quanto ela estava vulnerável ali fora. Ela olhou para os lados, como se sentisse o peso do meu olhar sobre a pele. Por um segundo aterrorizante — e absurdamente fascinante —, nossos olhos quase se cruzaram
Leer másO ar dentro do meu quarto parecia ter se transformado em chumbo. A penumbra da noite, cortada apenas pelo brilho azulado e frio da tela do meu computador, tornava o silêncio da casa pesado, quase sufocante. Eu conseguia ouvir o som pausado e descompassado da minha própria respiração, um lembrete constante de que o pânico tinha acabado de se instalar no meu peito. A tela do meu celular ainda brilhava sobre a escrivaninha de madeira, exibindo uma sequência de números desconhecidos que pareciam zombar de mim.A ligação durou pouco menos de um minuto, mas foi o suficiente para estilhaçar a frágil ilusão de segurança que levei meses para construir.— Olá, Rand. Eu sei que foi você quem assassinou o meu marido. Eu sei que pediu para alguém jogar o corpo dele em uma vala qualquer. Eu sei onde você mora, sei onde você estuda e eu juro que irei me vingar de você. O Richard era um bom homem, jamais iria querer uma garota sonsa e insignificante como você. Seus pais e as outras pessoas ao seu red
Essa garota é infinitamente mais perigosa do que eu jamais poderia ter imaginado. Quando olho para ela, vejo uma inocência cristalina brilhando em suas írises, mas, ao mesmo tempo, algo no fundo daquele olhar me diz que ela não é tão inocente assim. Há um fogo adormecido ali, uma faísca de malícia e curiosidade que me instiga de uma forma que eu não previa. Minha vontade, nesse exato segundo, é sequestrá-la da própria vida. Sumir com ela por alguns dias, trancá-la em algum lugar onde apenas eu tenha a chave, apenas para descobrir qual é o seu verdadeiro sabor, para desvendar cada camada de sua personalidade complexa e, acima de tudo, para saciar essa sede inexplicável que ela despertou em mim. Lavei o rosto na pia de mármore do lavabo, tentando afastar aqueles pensamentos predatórios, mas foi inútil. Ao sair, caminhei pelo extenso corredor da mansão de sua família. O ambiente era luxuoso, decorado com obras de arte clássicas e tapetes espessos que abafavam meus passos, mas minha aten
— Hoje faremos um churrasco completo, com direito a tudo do bom e do melhor. Dhehanks merece boas-vindas dignas de quem ele é. Se não fosse por ele e seu pai, não teríamos a vida que sempre pedi a Deus.A voz do meu pai transbordava uma empolgação genuína, iluminando seu rosto de uma forma que há muito tempo eu não via. Olhar para ele assim preenchia meu peito de uma satisfação profunda. Eu sabia o quanto ele havia lutado, as noites em claro, a abdicação diária e os anos de estudos intensos para conquistar cada centímetro do espaço que hoje ocupava. Não viemos do berço de ouro; nossa realidade era dura, cheia de privações e incertezas. Tudo começou a mudar no dia em que ele finalmente concluiu a faculdade de Administração de Empresas e a influente família Dhabajhu enxergou nele um talento raro, concedendo-lhe a oportunidade que reescreveria nosso destino.— Filha, vista sua melhor roupa — meu pai pediu, ajustando a postura com orgulho. — Quero todos impecavelmente apresentáveis para r
O silêncio do meu escritório no topo da torre da família costuma ser o único momento do dia em que realmente controlo meu próprio tempo. Mas a calmaria durou pouco. Assim que fechei a pasta de contratos e deslizei os dedos pelo tampo de mogno polido, o celular sobre a mesa vibrou, emitindo uma notificação que fez minha espinha gelar por um milésimo de segundo. Uma localização em tempo real enviada por Degudenh.Suspirei, passando a mão pelo rosto. Quando decido cruzar as portas da minha casa, preciso de um bom motivo — algo que realmente valha o meu tempo, que me divirta ou desperte meu interesse. No entanto, quando se trata do meu irmão caçula, a motivação é diferente. É dever.Abri a garagem subterrânea e caminhei até o meu Bugatti Chiron. A lataria preta reluzia sob as luzes de LED, espelhando a aura de poder que a nossa família carrega. Ajustei os punhos do terno, dei partida e ouvi o ronco grave do motor W16 ecoar pelas paredes de concreto. Aquele som costuma acalmar meus nervos,





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