Mundo de ficçãoIniciar sessão
Narrado por Helena
Não foi o som das sirenes que me acordou naquela manhã. Foi o silêncio. Um silêncio denso, cortante, quase ensurdecedor. Em São Paulo, o silêncio não é paz — é presságio. Algo estava errado.
Eu morava no oitavo andar de um prédio antigo em Perdizes, e minha janela dava para uma rua movimentada. Eu sabia o som de cada manhã. O padeiro gritando ofertas, o ônibus soltando fumaça, a vizinha do 304 brigando com o filho. Aquilo era vida. Aquilo era caos. Mas aquela manhã... foi diferente.
Olhei pela janela e vi viaturas. Duas. Uma ambulância. E um corpo coberto com lençol branco no chão da calçada em frente à escola onde eu dava aula. Meu coração parou por segundos.
Aquela escola era mais do que meu trabalho. Era minha trincheira. Meu pequeno campo de batalha onde eu tentava, a cada aula de história, fazer com que meus alunos acreditassem que o mundo podia ser melhor — mesmo quando tudo dizia o contrário.
Peguei meu casaco, desci as escadas correndo e atravessei a rua. Foi quando o vi pela primeira vez. Ele estava em pé, ao lado do corpo, com as mãos na cintura e o olhar pesado. Usava a farda da Polícia Militar, mas não era isso que me chamou atenção. Foi o olhar. O tipo de olhar que você só vê em quem já viu demais.
— Professora Helena? — ele perguntou, antes que eu dissesse qualquer coisa.
— Como...?
— Seu nome está na lista de emergência da escola. Sou o sargento Theo Andrade. Precisamos conversar. Infelizmente, o que aconteceu tem ligação com um de seus alunos.
Meus joelhos fraquejaram. Me apoiei no portão enferrujado e tentei entender o que ele estava dizendo. Ligação? Qual aluno? Quem?
— Foi o Lucas. — ele continuou, com a voz mais baixa. — Achamos a mochila dele ao lado do corpo. Precisamos saber se ele estava envolvido... ou se ele é a próxima vítima.
Eu conhecia o Lucas. Um menino quieto, tímido, inteligente. A mãe vivia sumida, o pai... nunca conheci. Mas ele sempre ficava depois da aula, me ajudando a organizar a sala, conversando sobre livros. Tinha sonhos. Sonhos grandes. Sonhos demais pra alguém cercado por pesadelos.
— Eu não acredito nisso. Ele nunca... ele não faria nada de errado!
Theo me encarou. Seu olhar era ao mesmo tempo duro e compreensivo
— Professora... nem tudo é o que parece. E às vezes, os meninos bons são os que mais se perdem. Porque ninguém olha por eles.
Aquele dia mudou tudo.
O que começou como uma tragédia virou o início de algo muito maior. Eu e Theo, cada um à sua maneira, começamos a procurar respostas. Ele com o distintivo, eu com a palavra. Ele com a lei, eu com a história. E no meio dessa busca, nos encontramos. Não da forma clichê. Mas da forma real: dois humanos tentando não afundar numa cidade que engole gente.
E foi assim que eu percebi.
A justiça não tem uma só cor. Ela é feita de tons. De cinzas. De sangue. De esperança. De amor.
E às vezes, no meio do caos, ela também tem o cheiro de café compartilhado entre um policial e uma professora às três da manhã, enquanto discutem como salvar um menino invisível..







