Mundo ficciónIniciar sesiónFaína Stepanov
Ouvia os gritos de ordens e depois eles avisavam que havia homens morrendo. Continuava correndo com aqueles dois desconhecidos.
Tudo ao nosso redor, enquanto corríamos, era puro e absoluto caos. Começaram a apagar luzes que se acendiam em intervalos aleatórios, Usamos essas brechas para correr em direção a saídas.
Quando vi o céu escuro e salpicado de estrelas, consegui finalmente entender o que estava acontecendo. Minha mente dopada não conseguia processar a informação rápido o suficiente. Só lembro de alguém me puxando pelo braço com força, mas não era violento, era somente urgente. Era uma mão quente envolvendo meu pulso magro e me tirando daquele lugar onde me tornaram uma boneca onde homens malvados faziam obscenidades com o meu corpo nu.
Conseguia ouvir uma voz jovem que parecia destoar completamente daquele ambiente de homens malvados e negócios sujos. Sua voz era urgente também, como se cada segundo perdido fosse um segundo a mais de perigo.
— Ei! Fica comigo, olha para mim! A gente vai sair daqui, mas você precisa ficar acordado, você entende? — Ele disse em italiano para o outro rapaz que estava com ele. — Precisa olhar nos meus olhos e me dizer que entende!
— Eu consigo, Henrique!
Eu não conseguia focar no que estava acontecendo, minha visão embaçava e clareava em ondas, como se estivesse dentro de um barco em alto mar, mas lembro dos olhos dele. Determinados de uma forma que nunca tinha sido. Os olhos do italiano diziam:
“Vou com você até o final”
“Você é minha missão”
“Nunca esteve sozinha, a entregaremos a sua família”.
Confirmei com a cabeça, ele parecia tão jovem quanto me sentia pequena naquele momento. Com certeza, ele tem a idade de Zakhar, era difícil dizer com o rosto coberto pelo capuz e, quando comecei a ver sangue manchando a sua roupa escura, chamei por Henrique que começou a falar algo desesperado e colocou algo para cobrir seus ferimentos.
Estávamos em um beco e ele apontou na direção de um prédio do outro lado da rua, era no máximo cinquenta metros. Mattias foi ferido porque ele cobria nossa saída.
Eles não pareciam homens do mundo do meu pai, não tinham os ternos caros, nem os anéis de ouro, nem os sorrisos falsos que escondiam dentes afiados. Pareciam jovens demais para aquilo, jovens demais para estarem em um lugar como aquele, jovens demais para estarem arriscando suas vidas por uma garota que nunca tinham visto antes.
Mas para a minha sorte, eles estavam ali. Por mim. E isso era mais do que qualquer pessoa tinha feito por mim desde que eu fui arrancada da minha cama.
Ouvi mais tiros atrás de nós, tão perto que me assustei com o barulho. Passos correndo em nossa direção, eram muitos passos e estavam pesados pelas botas que ecoavam no beco estreito. Alguém gritou em outra língua e percebi com um choque que percorreu minha espinha e o medo que eu pensava ter superado voltou com força total.
Mattias começou a perder as suas forças quando estávamos atravessando a rua para entrar no hotel que Henrique havia indicado. Surgiu alguém que não conhecia ao nosso lado e entramos correndo no elevador. O homem tateou o corpo de Henrique e ele dizia estar bem, até que Mattia caiu desacordado ao nosso lado.
Mesmo no meio do caos, mesmo com os olhos lacrimejando e a visão embaçada, eu o ouvi dizer em russo tão estranho que ri.
— Está em casa, Faína, desculpe pela demora!
Então, ele fechou os olhos, quando a porta do elevador se abriu, mais e mais homens entraram e o tiraram dali. E então eu vi no corredor do hotel a última pessoa que imaginaria ver naquela noite, que começava a ficar cada vez mais nítida em minha mente.
Caminhei lentamente, escondendo o sangue de Mattia que estava em minhas mãos dentro do bolso do casaco que Henrique havia colocado sobre o meu corpo semi-nu. Podia ser apenas uma visão, afinal, estava tão drogada que poderia estar tendo uma alucinação com o meu pai.
Aquele que deu um passo à frente não podia ser meu pai. Ele estava bem mais magro, com certeza deve ter perdido mais de trinta quilos. Além das olheiras negras abaixo dos seus olhos.
— Прости меня, куколка!
“Me perdoe, Bonequinha”
Sentia o meu corpo tremendo por medo ao ver o meu pai ali na minha frente. Como poderei dizer a ele que, durante o tempo que vivi naquele lugar, eles destruíram toda a minha inocência?
— Eu não sou mais uma bonequinha, sou um produto, a mercadoria valiosa da Yakuza… — Repeti o que ouvia diariamente sempre que iam me buscar daquele quarto e me levavam para algum cliente.
Porque naquele momento, depois de tudo o que já havia sofrido, não sabia mais reagir. Meu cérebro havia desligado todos os interruptores, e o que restava era apenas um corpo em movimento automático, arrastado para a sobrevivência por alguém que ainda desejava atingir algo que não fazia ideia.
Eles me tiraram de lá, Henrique e Mattia. Mesmo que ele tenha perdido a sua vida, sempre serei grata a Mattia e minha gratidão se estenderá ao seu irmão, que depois descobri que deveria estar na missão, mas ficou doente.
Quando meu pai levantou-se do chão e os seus homens de confiança se colocaram ao nosso redor, fui levada para um dos quartos, onde já havia uma equipe médica que começou a fazer mais perguntas do que tinha capacidade de responder.
Mas algo em mim ficou para trás. Preso naquele lugar onde eu passei mais tempo do que pude calcular. Naquele lugar, fui avaliada como gado em um leilão. Presa naquele lugar onde fizeram questão de matar a minha infância e no lugar nasceu algo que não sabia nomear.
Estava presa no olhar do meu pai, que podia compreender o vazio que havia dentro da garotinha que o chamava de papai sem se importar com quem estivesse ouvindo. A única coisa que queria era que ele soubesse que o amava, mas agora não há mais nada dentro de mim.
Tudo o que descobri é que o mundo não era seguro e com certeza ele nunca será.
Quando voltamos para casa no dia seguinte, ainda era perigoso estar ali. Me despedi de Henrique que em algum momento da nossa fuga ele levou um tiro e dei a ele a minha amizade e se algum dia no futuro, quando fosse adulta, ele precisasse de ajuda, poderia contar comigo.
— Supere tudo o que aconteceu, tente voltar a ser uma criança, Faína! — Ele disse antes de se aproximar para colocar um beijo em minha bochecha.
Controlei o desejo de dar um passo para trás e me esconder atrás do meu pai, que mal tinha trocado uma palavra comigo. Via em seus olhos o quanto a sua alma estava sendo maltratada pela culpa do que houve.
Quando chegamos em casa, tudo estava igual. As paredes eram as mesmas, pintadas do mesmo branco que passei a odiar. Os corredores eram os mesmos pelos quais eu gritei por socorro, via os quadros nas mesmas posições. Até os guardas e os empregados continuavam os mesmos de antes de ser levada daqui.
Na verdade, eu que não era mais a mesma. Me tornei uma estranha habitando o corpo de uma garota que se parecia comigo, que falava com a minha voz e tinha o meu nome.
Mas não era eu.
Quando a minha mãe me abraçou, foi um abraço longo e apertado, o tipo de abraço que mães dão quando quase perderam um filho e ainda não conseguem acreditar que não perderam. Senti os braços dela ao redor de mim, senti o calor do corpo dela contra o meu, também senti as lágrimas dela molhando meu cabelo.
Eu não retribuí. Meus braços ficaram pendurados ao lado do corpo como galhos mortos, e eu apenas esperei que ela terminasse.
Quando virei de lado, vi Zakhar que chorava enquanto se aproximava de mim. Meu irmão sempre foi forte e protetor. E nunca vi ele derramar uma lágrima por nada, ele chorou na minha frente como uma criança, soluçando no meu ombro, pedindo desculpas que naquele momento não soube aceitar.
— Me perdoe, irmãzinha, eu falhei com você…
Foi ele que me contou que alguém da segurança do nosso pai foi comprado e colocou sonífero na central de ventilação, por isso ninguém saía dos quartos enquanto eu gritava por socorro.
Mesmo ele me contando tudo o que houve, não senti nada. Nem raiva e nem tristeza, mas deveria sentir alívio, o que não sentia também. Eu me tornei uma pessoa completamente vazia, onde antes havia uma irmã que o amava, sobrou um buraco escuro demais.
E meu pai, não conseguia olhar nos meus olhos por muito tempo. Sei que ele vinha ao meu quarto todas as noites nas primeiras semanas, sentava-se na cadeira perto da janela, abria a boca para dizer alguma coisa e fechava novamente sem emitir som. Seus olhos ficavam fixos em mim enquanto fingia dormir. E depois se desviavam, incapazes de sustentar o que viam.
Até que um dia, finalmente, ele falou.
— Você nunca mais será obrigada a casar — ele disse, a voz mais suave do que eu jamais ouvi, como se estivesse falando com um animal assustado. — Ninguém vai te obrigar a nada, minha princesa. Eu prometo.
Como se aquilo fosse um presente ou que pudesse apagar tudo o que aconteceu comigo durante o tempo que fiquei nas mãos da Yakuza. Tanto ele como eu, sei que nada do que ele me protegesse agora seria uma compensação suficiente pelas semanas de cativeiro. Pelos dias de tortura psicológica e por todas as noites em que rezava para morrer.
Apenas abri os olhos e o encarei. Olhei nos olhos do homem que eu um dia admirei, do homem que eu confundi com um herói, do homem que construiu sua fortuna sobre as costas de pessoas que fui durante o tempo que estive presa.
E, pela primeira vez na vida, entendi algo sobre Oskar Stepanov que todas as outras pessoas já sabiam.
Ele não fez aquilo por amor. Não me resgatou porque se importava comigo, não mandou uma missão de resgate porque sentia minha falta. Ele fez porque falhou.
Falhou em me proteger, falhou em manter sua propriedade segura, falhou em sustentar a imagem de invencibilidade que construiu com tanto cuidado.
E aquela seria a única forma que ele encontrou de tentar compensar o imperdoável, não com amor e muito menos com carinho. Sabia também que não seria com a presença que eu tanto precisei. Mas com uma promessa vazia sobre casamento, como se isso fosse suficiente.
Mas algumas coisas não têm compensação. Algumas coisas não podem ser desfeitas com palavras bonitas ou promessas bem-intencionadas. Algumas coisas quebram você para sempre e não importa quanto tempo passe, não importa quanta terapia você faça e nem importa quantas pessoas digam que você é forte e vai superar.
Algumas coisas deixam marcas que não cicatrizam, feridas que não fecham e vazios que não se preenchem.
E eu?
Eu nunca mais fui a mesma garota que acreditava estar segura porque seu pai era o homem mais poderoso da cidade. Nunca mais fui a princesa ingênua que achava que o amor vinha em forma de segurança armada. Deixe de ser a criança que confundia medo com respeito.
Me tornei algo diferente. Algo que sobreviveu ao que deveria tê-la matado. Algo que aprendi foi a esperar o pior de todos, inclusive daqueles que dizem amar, me tornei alguém que construiu muros tão altos que nem eu mesma consigo vê-los por cima.
Sobrevivi.
Essa é a única coisa que posso dizer com certeza.
Mas descobri que sobreviver não é viver. E eu?
Eu nunca mais pertenci a lugar nenhum. Nem à minha família, nem à minha casa, nem ao meu próprio corpo.
Sou Faína Stepanov, a filha do Lobo de Deus. A princesa que foi resgatada, a mercadoria que escapou.
E esta é a minha história ou, pelo menos, o começo dela.
Porque nós sobreviventes aprendemos uma coisa muito cedo: a história nunca termina no resgate. O verdadeiro horror começa depois, quando o silêncio volta e você precisa aprender a existir novamente em um mundo que seguiu em frente enquanto você estava nas mãos de pessoas que queriam quebrar você.
O verdadeiro horror é viver.







